A mochila é a casa que você carrega nas costas. Quando não se ajusta bem ao seu corpo, cada quilômetro se torna mais difícil do que deveria.
Não há liberdade maior que uma mochila nas costas!
Elias Luiz
Qual o tamanho ideal da mochila?
A capacidade de uma mochila é medida em litros e sua escolha depende principalmente do tipo de trekking que você pretende realizar. Antes de comprar, é importante saber quantos dias ficará na trilha, onde vai dormir e quais equipamentos precisará carregar. Uma travessia com acampamento exige uma mochila muito diferente daquela utilizada em percursos com pernoites em refúgios, pousadas ou hotéis.
Trekking com acampamento — 50 a 60 litros
Em travessias nas quais é necessário carregar barraca, saco de dormir, isolante térmico, fogareiro, utensílios de cozinha e alimentação para vários dias, uma mochila de 50 litros ou 50+10 litros geralmente atende muito bem. Esse volume costuma ser suficiente para organizar todo o equipamento necessário, desde que ele seja escolhido de maneira adequada e sem excessos.
Mochilas acima de 60 litros podem ser necessárias em expedições mais longas, regiões muito frias ou travessias que exigem transportar alimentos para muitos dias sem possibilidade de reabastecimento. Para a maioria dos trekkings, porém, não há necessidade de carregar uma mochila tão grande.
Trekking com refúgios e pousadas — 25 a 35 litros
Em travessias como o Tour du Mont Blanc, a Via Alpina e a Kungsleden em seu formato de cabanas, quando o caminhante utiliza a estrutura de hospedagem existente pelo caminho, a situação é diferente. Não é necessário transportar barraca, fogareiro ou utensílios de cozinha e, dependendo da hospedagem, também não será preciso carregar saco de dormir, embora algumas cabanas exijam um saco de dormir leve ou um liner.
Nessas condições, uma mochila entre 25 e 35 litros costuma ser suficiente para roupas, proteção contra chuva, alimentação do dia, água, itens de higiene, primeiros socorros e equipamentos pessoais. Uma mochila de 35 litros oferece uma boa margem de espaço para travessias de vários dias, especialmente em regiões montanhosas onde as condições climáticas podem mudar rapidamente.
O importante não é comprar a maior mochila, mas escolher uma que comporte seu equipamento sem deixar espaço excessivo para carregar aquilo de que você não precisa.
Barrigueira e ajuste
Uma boa mochila precisa distribuir corretamente a carga pelo corpo. Grande parte do peso deve ser sustentada pelo quadril, através da barrigueira, e não ficar concentrada nos ombros. Por isso, o sistema de suspensão e o ajuste ao comprimento do tronco são tão importantes quanto a capacidade da mochila.
A barrigueira deve ser anatômica, acolchoada e envolver confortavelmente a região dos ossos do quadril. As alças precisam acompanhar o formato dos ombros, enquanto a fita peitoral ajuda a estabilizar a mochila durante a caminhada. Os estabilizadores superiores, também chamados de reguladores de carga, permitem ajustar a posição da mochila em relação às costas.
Outro aspecto importante é a ventilação do costado. Alguns modelos possuem telas tensionadas que mantêm um espaço entre a mochila e as costas, enquanto outros utilizam canais de ventilação e espumas perfuradas. Cada sistema apresenta vantagens, mas o conforto e a estabilidade com a mochila carregada devem prevalecer.
Antes de comprar, experimente a mochila com um peso semelhante ao que pretende transportar na trilha. Caminhe, suba alguns degraus e faça os ajustes necessários. Uma mochila confortável quando está vazia pode se tornar extremamente desconfortável depois de algumas horas carregada.
Nunca descubra isso no primeiro dia de uma travessia.
O que uma boa mochila deve ter?
Além da capacidade e do ajuste ao corpo, existem características que tornam uma mochila muito mais prática durante uma travessia. São detalhes que podem parecer pouco importantes na loja, mas fazem uma grande diferença depois de várias horas caminhando.
Bolsos na barrigueira
São, para mim, um dos recursos mais úteis. O ideal é que a mochila tenha dois bolsos com zíper, um de cada lado da barrigueira. Neles podem ficar protetor labial, protetor solar, canivete, pequenos lanches, uma bananinha, uma barrinha de cereal e até uma bateria reserva da máquina fotográfica. Tudo permanece ao alcance das mãos, sem necessidade de retirar a mochila das costas. Caso tenha apenas um bolso, ele já será útil, mas dois permitem organizar melhor esses pequenos objetos.
Bolso superior
O compartimento localizado na tampa superior da mochila é outro espaço importante para objetos utilizados durante o dia. Nele podem ficar óculos de sol, luvas leves, gorro, lanterna de cabeça, documentos protegidos da umidade e outros equipamentos que precisam estar acessíveis. Alguns modelos possuem também um bolso interno na tampa, adequado para guardar objetos de maior valor.
Bolsos laterais
São especialmente úteis para transportar garrafas de água e outros objetos que precisam ficar ao alcance. Prefira bolsos com tecido elástico ou algum sistema de retenção que impeça a queda dos equipamentos. Verifique também se é possível alcançar a garrafa sem retirar a mochila das costas.
Compartimento para hidratação
Uma boa mochila deve oferecer um compartimento interno para reservatório de hidratação, com abertura para a passagem da mangueira e pontos de fixação nas alças. Esse sistema permite beber água durante a caminhada sem precisar parar ou retirar a mochila. Reservatórios de 2 a 3 litros são bastante utilizados, dependendo da disponibilidade de água no percurso.
Capa de chuva
É um item indispensável. Dê preferência às mochilas que possuem capa de chuva integrada, normalmente guardada em um compartimento na parte inferior. Além de ocupar pouco espaço, ela estará sempre disponível quando o tempo mudar. Caso a mochila não possua esse recurso, compre uma capa compatível com seu tamanho. Vale lembrar que a capa externa não garante proteção absoluta contra a água, especialmente sob chuva intensa e prolongada. Por isso, roupas, saco de dormir e equipamentos eletrônicos devem ser protegidos também por sacos estanques ou revestimento impermeável interno.
Bolso frontal externo
Um bolso frontal, especialmente quando confeccionado em tecido elástico, é bastante útil para guardar uma capa de chuva molhada, uma jaqueta utilizada durante o dia ou outros equipamentos que você prefere manter separados do conteúdo principal. É um espaço que facilita a organização sem a necessidade de abrir toda a mochila.
Acesso ao compartimento principal
Muitas mochilas possuem apenas abertura superior, enquanto outras oferecem zíper frontal, lateral ou inferior. Essas aberturas adicionais facilitam encontrar roupas e equipamentos que estão no meio ou no fundo, sem precisar retirar tudo de dentro. Não são obrigatórias, mas fazem diferença, especialmente nas mochilas maiores.
Fixação para bastões de caminhada
Verifique se a mochila possui presilhas ou elásticos para prender os bastões de trekking quando não estiverem sendo utilizados. Em terrenos onde é necessário usar as mãos, guardar os bastões com segurança pode ser fundamental. Algumas mochilas oferecem sistemas que permitem fixá-los sem retirar a mochila das costas.
Fitas de compressão
As fitas laterais permitem reduzir o volume da mochila quando ela não está completamente cheia, aproximando a carga do corpo e diminuindo a movimentação dos equipamentos durante a caminhada. São especialmente úteis em travessias nas quais a quantidade de alimentos diminui ao longo dos dias.
Nem toda mochila precisa reunir todos esses recursos, mas bolsos acessíveis, boa distribuição de carga, proteção contra chuva e um sistema eficiente de hidratação devem estar entre as prioridades na hora da escolha.
Como organizar os equipamentos
A maneira como você distribui os equipamentos dentro da mochila influencia diretamente o equilíbrio e o conforto da caminhada. Os itens mais pesados devem ficar próximos das costas, preferencialmente na região central da mochila, enquanto os equipamentos mais leves e volumosos podem ocupar a parte inferior.
Saco de dormir e roupas utilizadas apenas no acampamento podem ficar no fundo. Alimentos, equipamentos de cozinha e outros objetos mais pesados devem ser acomodados próximos ao costado. Já a capa de chuva, a jaqueta, os lanches e o kit de primeiros socorros precisam estar em locais de fácil acesso.
É importante também distribuir o peso entre os lados da mochila, evitando que ela fique desequilibrada. Objetos soltos pendurados na parte externa podem balançar durante a caminhada, prender em galhos ou prejudicar o equilíbrio, principalmente em passagens estreitas e expostas.
Uma boa organização permite encontrar rapidamente aquilo que você procura, sem precisar desmontar a mochila a cada parada. Com o tempo, cada equipamento passa a ter seu lugar, tornando a rotina da trilha mais simples e eficiente.
O peso final da mochila
O peso da mochila vazia merece atenção, mas não deve ser o único critério de escolha. Uma mochila ultraleve pode economizar algumas centenas de gramas, porém nem sempre oferece a mesma estrutura e capacidade de transferência de carga de um modelo mais robusto.
O mais importante é considerar o peso total que você pretende transportar e verificar se a mochila foi projetada para suportá-lo confortavelmente. Uma mochila de 35 litros utilizada em travessias com refúgios pode funcionar muito bem com uma carga relativamente leve, enquanto uma cargueira de 50 ou 60 litros precisa oferecer estrutura adequada para transportar barraca, alimentação e equipamentos de acampamento.
Também é necessário considerar a água e os alimentos. Uma mochila que pesa 8 quilos ao sair da hospedagem pode ultrapassar 10 quilos depois de abastecida com água e alimentação. Em uma travessia autossuficiente, essa diferença pode ser ainda maior.
Antes de iniciar uma longa caminhada, monte a mochila com todos os equipamentos, pese o conjunto e faça caminhadas de treinamento. É a melhor maneira de descobrir o que realmente precisa levar e verificar se o sistema de transporte está adequado ao seu corpo.
O objetivo não é impressionar a balança, mas chegar ao fim do dia com disposição para continuar caminhando no dia seguinte.
A mochila certa para sua travessia
Não existe uma mochila perfeita para todos os caminhantes ou para todas as trilhas. O modelo ideal depende do tipo de percurso, do equipamento transportado, das condições climáticas e, principalmente, da maneira como a mochila se ajusta ao seu corpo.
Para uma travessia com hospedagens estruturadas, uma mochila entre 25 e 35 litros pode atender perfeitamente. Para percursos autossuficientes, com acampamento e alimentação, modelos de 50 a 60 litros costumam ser mais adequados.
Antes de escolher, experimente diferentes marcas, verifique o ajuste do costado, confira a posição dos bolsos e observe se os recursos oferecidos realmente serão úteis durante a caminhada. Uma mochila não deve ser escolhida apenas pela aparência, pelo preço ou pela quantidade de compartimentos.
A melhor mochila é aquela que transporta tudo o que você precisa, sem acrescentar peso desnecessário e sem comprometer o conforto durante a travessia.