Caminhar é transcendente.
Elias Luiz / Extremos
Trekking não é uma sequência de cartões-postais. Há dias de chuva, bolha, frio, fome, mau humor e vontade sincera de estar em qualquer outro lugar.
A mentalidade correta não elimina o desconforto. Ela muda a relação com ele. Em vez de interpretar cada dificuldade como fracasso, você passa a entendê-la como parte do caminho.
A trilha não promete conforto. Promete verdade.
O medo é útil quando informa. Ele vira problema quando paralisa ou quando é ignorado por orgulho. O bom caminhante aprende a escutar o medo sem entregar a ele todas as decisões.
Às vezes o medo mostra falta de preparo. Às vezes mostra perigo real. Distinguir uma coisa da outra é uma das habilidades mais importantes em ambientes remotos.
O urso é do tamanho do seu medo, mas isso não significa que ele não exista.
A vida moderna nos treina para velocidade. A trilha nos devolve lentidão. E no começo isso incomoda. Tudo demora: cozinhar, arrumar a mochila, secar roupa, subir uma montanha, chegar ao próximo vale.
Depois de alguns dias, algo muda. O corpo aceita o ritmo. A cabeça desacelera. O mundo volta a caber dentro de uma passada.
É por isso que acredito que a vida acontece abaixo dos 5 km/h.
Uma trilha de longa distância pode, de muitas formas, torná-lo uma pessoa mais forte para enfrentar os desafios da vida.
Mas você precisa ter consciência de que quem o colocou na trilha foi a sua própria cabeça e que quem pode, e deve, tirá-lo dela diante de uma eventualidade, de uma grande dificuldade ou de qualquer outro motivo, é você mesmo. E sem culpa. Saiba que tanto a montanha quanto a trilha sempre estarão lá, e você poderá tentar novamente em outra oportunidade. Ou não.
Você é o senhor do seu destino.
Nem toda trilha muda uma pessoa. Mas toda trilha longa oferece essa possibilidade. A transformação não vem da paisagem, e sim do atrito entre desejo e realidade.
Você descobre o que carrega sem necessidade, o que sente falta, o que teme e o que realmente importa quando o mundo fica reduzido à mochila, ao corpo e ao próximo passo.
Caminhar é uma forma honesta de conversar consigo mesmo.
Não é raro ver alguns hikers mudarem completamente de vida depois de uma experiência em uma trilha de longa distância. Largam tudo e passam a viver à margem da sociedade. Literalmente, se perdem.
Para mim, a trilha apenas preencheu um vazio existencial que sempre esteve ali, mas que a pessoa nunca havia percebido.
Na minha visão, isso tem mais a ver com a falta de propósito, de estrutura familiar e espiritual do que com o fato de a pessoa realmente ter encontrado um novo caminho para a vida.
Por isso, uma boa preparação psicológica é tão importante quanto compreender que a trilha é apenas uma parte da vida, e não a própria vida.