As pessoas costumam beber café. Eu bebo lembranças.
Elias Luiz | Extremos
Durante uma trilha, tudo parece impossível de esquecer. O nome do refúgio, a conversa com um desconhecido, o cheiro da chuva, o frio da manhã ou o medo antes de uma descida. Mas o tempo é um editor implacável. No início da minha carreira como escritor e aventureiro, aprendi isso da pior forma.
Não importa qual ferramenta você utilize, mas faça um diário. Na minha primeira viagem à Patagônia, em 2004, levei um caderno de anotações, mas cometi o erro de não escrever todos os dias. O cansaço da trilha sempre falava mais alto. O mesmo aconteceu na caminhada ao Campo Base do Everest, quando levei um Moleskine. Apesar do esforço para registrar a viagem, ainda não era a solução ideal. Foi somente durante a travessia da Kungsleden que passei a usar o aplicativo Notas do iPhone e descobri uma forma muito mais prática de escrever, fosse dentro da barraca, deitado na cama ou em qualquer outro lugar. Outra grande vantagem é que tudo já ficava em formato digital e, assim que surgia sinal de celular, era sincronizado com a nuvem. Depois da viagem, consultar as anotações e localizar rapidamente qualquer informação tornou-se muito mais fácil.
Anotar algumas linhas por dia preserva detalhes que nenhuma fotografia consegue registrar. Escreva onde dormiu, como se sentiu, o que comeu, quem encontrou, onde errou e o que aprendeu. Conte o que aconteceu e registre também os seus sentimentos. Evite anotar apenas tópicos soltos. Meses depois, você provavelmente não lembrará mais o contexto daquelas palavras. Sempre explique o que aconteceu.
O diário não precisa ser bonito. Precisa ser verdadeiro.
Fotografar não é apenas provar que você esteve ali. É preservar a história da viagem. Faça fotos amplas da paisagem, mas registre também os detalhes: botas molhadas, uma refeição simples, mãos geladas, placas de trilha, a mochila apoiada no chão.
São essas pequenas imagens que, muitas vezes, contam a jornada melhor do que uma sequência interminável de montanhas perfeitas.
Enquanto escrevia o livro Rocky Mountains, em determinado capítulo contei que fomos convidados para passar duas noites na cabana de um jovem casal. Na primeira noite, eles prepararam carne de alce. Na segunda, serviram dois tipos de peixe e disseram seus nomes. Eu não anotei. Meses depois, quando estava escrevendo o livro, lembrava apenas parte de um dos nomes. Pesquisei na internet de todas as formas, mas não consegui descobrir quais peixes eram. Já tinha desistido dessa informação, que considerava importante para a história.
Como sempre faço, voltei ao diário daquele dia e comecei a revisar as fotografias da viagem. Em uma delas, tirada durante uma caminhada pelo vilarejo, havia uma placa de madeira com o desenho de dois peixes e um texto explicando a importância deles para a região. Eram exatamente os dois peixes que havíamos comido na cabana.
A beleza de uma trilha está no grande cenário, mas também nos pequenos detalhes que sustentam toda a história.
Além das emoções, registre dados úteis: distância real, tempo de caminhada, pontos de água, lugares bons para acampar, trechos confusos, custos e erros de planejamento.
Essas informações ajudam outros caminhantes e ajudam você em futuras viagens. Muitos conteúdos do Extremos nascem justamente desse acúmulo de notas feitas em campo.
A experiência que não é registrada vira apenas sensação. A experiência registrada vira conhecimento.
Um bom relato não nasce quando você volta para casa. Ele começa no caminho. As frases anotadas com frio, sono e fome carregam uma verdade difícil de reconstruir depois.
Foi assim que muitos dos meus livros e textos começaram: uma anotação pequena, feita no fim de um dia longo, quando eu ainda tinha lama nn tênis e montanha na cabeça.
Escrever é transformar paixão em palavras.