MANUAL DO TREKKING
Elias Luiz Por: Elias Luiz  |  29.06.2026

Toda trilha deixa marcas. Algumas aparecem nas fotos, outras ficam gravadas na lembrança. Mas o que realmente dá vida à jornada são os pequenos acontecimentos que surgem pelo caminho: uma conversa inesperada, um lugar sem nome, uma decisão tomada por instinto ou um detalhe que parecia insignificante naquele momento. São justamente essas passagens que desaparecem primeiro com o tempo. É por isso que sempre levo um diário de viagem. Muito mais do que registrar quilômetros ou altitudes, ele preserva a história que um dia eu vou querer reviver... ou transformar em um livro.

As pessoas costumam beber café. Eu bebo lembranças.

Elias Luiz | Extremos
01

Escrever para lembrar

Durante uma trilha, tudo parece impossível de esquecer. O nome do refúgio, a conversa com um desconhecido, o cheiro da chuva, o frio da manhã ou o medo antes de uma descida. Mas o tempo é um editor implacável. No início da minha carreira como escritor e aventureiro, aprendi isso da pior forma.

Não importa qual ferramenta você utilize, mas faça um diário. Na minha primeira viagem à Patagônia, em 2004, levei um caderno de anotações, mas cometi o erro de não escrever todos os dias. O cansaço da trilha sempre falava mais alto. O mesmo aconteceu na caminhada ao Campo Base do Everest, quando levei um Moleskine. Apesar do esforço para registrar a viagem, ainda não era a solução ideal. Foi somente durante a travessia da Kungsleden que passei a usar o aplicativo Notas do iPhone e descobri uma forma muito mais prática de escrever, fosse dentro da barraca, deitado na cama ou em qualquer outro lugar. Outra grande vantagem é que tudo já ficava em formato digital e, assim que surgia sinal de celular, era sincronizado com a nuvem. Depois da viagem, consultar as anotações e localizar rapidamente qualquer informação tornou-se muito mais fácil.

Anotar algumas linhas por dia preserva detalhes que nenhuma fotografia consegue registrar. Escreva onde dormiu, como se sentiu, o que comeu, quem encontrou, onde errou e o que aprendeu. Conte o que aconteceu e registre também os seus sentimentos. Evite anotar apenas tópicos soltos. Meses depois, você provavelmente não lembrará mais o contexto daquelas palavras. Sempre explique o que aconteceu.

O diário não precisa ser bonito. Precisa ser verdadeiro.

Foto de caderno aberto com anotações de trilha ao lado de uma caneca.
Foto de caderno aberto com anotações de trilha ao lado de uma caneca.
© Elias Luiz / Extremos
02

Fotografia com intenção

Fotografar não é apenas provar que você esteve ali. É preservar a história da viagem. Faça fotos amplas da paisagem, mas registre também os detalhes: botas molhadas, uma refeição simples, mãos geladas, placas de trilha, a mochila apoiada no chão.

São essas pequenas imagens que, muitas vezes, contam a jornada melhor do que uma sequência interminável de montanhas perfeitas.

Enquanto escrevia o livro Rocky Mountains, em determinado capítulo contei que fomos convidados para passar duas noites na cabana de um jovem casal. Na primeira noite, eles prepararam carne de alce. Na segunda, serviram dois tipos de peixe e disseram seus nomes. Eu não anotei. Meses depois, quando estava escrevendo o livro, lembrava apenas parte de um dos nomes. Pesquisei na internet de todas as formas, mas não consegui descobrir quais peixes eram. Já tinha desistido dessa informação, que considerava importante para a história.

Como sempre faço, voltei ao diário daquele dia e comecei a revisar as fotografias da viagem. Em uma delas, tirada durante uma caminhada pelo vilarejo, havia uma placa de madeira com o desenho de dois peixes e um texto explicando a importância deles para a região. Eram exatamente os dois peixes que havíamos comido na cabana.

A beleza de uma trilha está no grande cenário, mas também nos pequenos detalhes que sustentam toda a história.

Além das fotos que irão ilustrar o livro, também faço o que chamo de fotos de registro, sobre algum detalhe da viagem que pode ser útil futuramente.
Além das fotos que irão ilustrar o livro, também faço o que chamo de "fotos de registro", sobre algum detalhe da viagem que pode ser útil futuramente.
© Elias Luiz / Extremos
03

Notas práticas

Além das emoções, registre dados úteis: distância real, tempo de caminhada, pontos de água, lugares bons para acampar, trechos confusos, custos e erros de planejamento.

Essas informações ajudam outros caminhantes e ajudam você em futuras viagens. Muitos conteúdos do Extremos nascem justamente desse acúmulo de notas feitas em campo.

A experiência que não é registrada vira apenas sensação. A experiência registrada vira conhecimento.

Foto de mapas, tickets, carimbos ou pequenos objetos coletados durante a travessia.
Foto de mapas, tickets, carimbos ou pequenos objetos coletados durante a travessia.
© Elias Luiz / Extremos
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Da trilha ao relato

Um bom relato não nasce quando você volta para casa. Ele começa no caminho. As frases anotadas com frio, sono e fome carregam uma verdade difícil de reconstruir depois.

Foi assim que muitos dos meus livros e textos começaram: uma anotação pequena, feita no fim de um dia longo, quando eu ainda tinha lama nn tênis e montanha na cabeça.

Escrever é transformar paixão em palavras.