TERRA
Extremos
Por: Extremos  |  Edição 182

O sol mal começa a raiar no alto da fria Serra da Canastra, em Minas Gerais, enquanto cinco pessoas acompanham atentas os movimentos de uma pequena bexiga vermelha, inflada com gás hélio. O…

O sol mal começa a raiar no alto da fria Serra da Canastra, em Minas Gerais, enquanto cinco pessoas acompanham atentas os movimentos de uma pequena bexiga vermelha, inflada com gás hélio. O balãozinho sobe rápido e segue resoluto para o norte, contra a expectativa do grupo.
A brincadeira é séria. A bexiga está ali para revelar a trajetória do vento, informação indispensável antes da decolagem de um balão. E as rajadas insistem em soprar num sentido que não é do agrado do experiente balonista Feodor Nenov. "Se levantarmos vôo agora, em poucos minutos estaremos fora da área do parque", esclarece o piloto, que aceitou nosso desafio de fazer a primeira travessia de balão do Parque Nacional da Serra da Canastra.
Também não é possível esperar muito. Já são 7h13, e Feodor avisa que voar de balão após as 8 horas da manhã pode ser bem perigoso. À medida que a temperatura externa aumenta, o balão perde a navegabilidade, ele explica. O vôo, portanto, fica cada vez menos previsível, o que é só uma maneira mais branda de dizer que ele se torna mais arriscado (veja quadro). Com mais de 15 anos de experiência nas costas, o piloto sabe que precisa escolher rápido um local de partida. O objetivo é cruzar a região e seus imensos cânions na transversal, passando pela bela Casca d'Anta, a cachoeira que despenca de 186 metros logo no trecho inicial do Rio São Francisco.

Feodor se debruça sobre o mapa com as coordenadas da Canastra. Escolhe um ponto alternativo de decolagem a uns 7 quilômetros dali, ao lado da estrada que corta o parque, e avisa a equipe, que corre para o furgão de apoio, de GPS em punho, e parte em busca do local assinalado. Voando por todos os lados, os carcarás parecem indicar o caminho. "Pára, pára. É aqui o eixo que queremos", grita Flávio, assistente de vôo. A operação de montagem é rápida e precisa. O cesto do balão é ancorado no carro, depois colocado deitado no chão. A grande lona de náilon, que os balonistas chamam de envelope, é enganchada no cesto e começa a se encher de ar quente, com a ajuda de um maçarico e um ventilador, ambos superpotentes. Em poucos minutos o balão começa a tomar corpo. O maçarico, poderoso como um lança-chamas de filmes de guerra, aquece o ar dentro do envelope até que a diferença de temperatura em relação ao ar externo o deixe pronto para o vôo.

Uma vez de pé, o balão ameaça partir sozinho. Pulamos para dentro do cesto, na ordem determinada pelo piloto. Eu primeiro, depois Valdemir, em seguida ele, Feodor, e por último Flávio, o assistente. O coração bate forte na expectativa da decolagem. Guilherme, da equipe de apoio, é escalado para acompanhar o vôo em terra. Ele solta a amarra e lentamente começamos a subir. Olho para o relógio: são 7h40. Conseguimos por pouco.
A sensação é ao mesmo tempo estranha e deliciosa. O balão ganha altura num movimento avesso à gravidade, e é admirável que faça isso sem estar dotado de asas nem de hélices. Está longe de ser uma máquina de voar moderna, mas estamos de fato ascendendo naquela engenhoca. Como a bexiga precursora, o balão vai na direção norte, que agora nos interessa, e segue o rumo traçado quase que milimetricamente por Feodor.

Ele nos aponta a nascente do Velho Chico, que brota de um despretensioso brejo, e vai pouco a pouco ganhando força, movendo-se sinuosamente como uma serpente. De uma altura de 100 metros, seguimos o curso do rio pelo alto do Chapadão da Canastra, até o momento em que ele se joga do alto de uma escarpa, formando a bela Casca d'Anta.
A viagem prossegue tranqüila, porém emocionante. Agora sobrevoamos o Vale do São Francisco e suas belas fazendas a uma altitude de 500 metros. O silêncio é quebrado pelo latido de um cachorro lá embaixo. O eco reverbera em nossos ouvidos. É impressionante como o balão nos dá a impressão de estarmos inseridos harmonicamente no ambiente. O ritmo do vôo combina com a tranqüilidade do lugar. Vistos de cima, os capões de mato são delicadas manchas verdes. As rochas dos campos rupestres parecem etéreas figuras geométricas. A sombra do balão persegue as siriemas, que correm assustadas em ziguezague.
Apesar da sensação de lentidão pelo fato de estarmos parados em relação à corrente de ar, a velocidade do balão está alta, variando entre 23 e 27 quilômetros por hora.

Nesta levada, começamos a visualizar a imponente Serra da Babilônia e sua incrível seqüência de cânions dispostos quase que paralelamente. Feodor olha o relógio e percebe que precisamos procurar um lugar para descer, já que estamos voando há 40 minutos, e os ponteirinhos se aproximam do fatídico horário das 8h30 da manhã. Ele sabe bem o que é desafiar a tênue linha do tempo que separa um vôo tranqüilo de uma verdadeira sessão de terror. "Certa vez peguei uma térmica em Uberlândia (MG) e perdi totalmente o controle do balão. Estava voando no final da tarde, um horário normalmente tranqüilo, mas a bolha de ar quente aprisionou o balão de tal forma, que não tinha como sair dela. Para piorar, meu combustível estava acabando. Foi por sorte que consegui escapar da térmica e descer no meio de uma praça, no centro da cidade", revela, com jeito de quem já viu a morte de perto.

O pouso pede uma avaliação do terreno, pois será o local onde passaremos a noite numa barraca. Sobrevoamos uma convidativa área com piscina natural em meio a frondosas sombras, que parece o lugar perfeito para aproveitar o dia que já começa a esquentar. "É aqui mesmo", decide o comandante. Iniciamos então o processo de aterrissagem no meio do belo Vale da Babilônia, certos de que ali seria nossa morada por um dia.
A velocidade está boa para um pouso relativamente tranqüilo, mas subitamente o vento aumenta, e somos obrigados a arremeter para não correr o risco de sermos arrastados quando o cesto tocar o chão. A manobra evita esse choque, mas nos coloca perigosamente na linha de colisão com uma encosta do morro. Com um GPS na mão, Feodor analisa em segundos as coordenadas de velocidade, posição e altura e vai tomando decisões para nos livrar de mais uma armadilha. Dentro do cesto, com a adrenalina lá em cima, só nos cabe torcer para tudo dar certo. "Adoro esta vida", diz o piloto, assim que escapamos da montanha.

Passado o sufoco, buscamos um novo vale. Não temos muita escolha, pois já estamos usando o terceiro reservatório de gás propano - embarcamos com cinco cilindros - e precisamos reservar metade do combustível para o dia seguinte. Feodor pede que nos preparemos para o impacto do pouso. Tiro os óculos. Valdemir guarda com cuidado sua câmera fotográfica. A expectativa é de uma aterrissagem meio dolorida, mas estamos firmes. A velocidade é de 14 quilômetros por hora. O balão se aproxima rapidamente do chão, e por uns instantes corre quase que paralelamente ao piso inclinado do vale. O frio na barriga aumenta e disparo uma contagem regressiva na minha cabeça. Três, dois, um... Finalmente o cesto toca o piso acidentado e tomba, arrastando-se por menos de 5 metros. Pronto, estamos em terra firme novamente. No fim, foi bem mais fácil do que esperávamos. O alívio nos relaxa e estouramos em risadas ao lembrar dos momentos de suspense, lá em cima.

Minutos depois, já estamos explorando o ambiente em que iremos passar o dia inteiro. É um lugar pouco interessante. Tem uma bela vista da encosta do morro logo à nossa frente, mas está longe de ter os atrativos do vale com piscina natural que era a nossa primeira opção de pouso. O pior de tudo é que ficamos encaixotados entre montanhas que cortam completamente nossa comunicação por rádio e telefone celular. Feodor calcula que a comunidade mais próxima deve estar umas sete horas de caminhada. Estamos isolados, enfim. O curioso é que já sabíamos dessa possibilidade, e de uma certa forma até desejávamos isso, devido ao pioneirismo da situação. "Nunca fiz um vôo de balão sem resgate, e provavelmente ninguém fez isso ainda no Brasil", revela Feodor, um dos balonistas mais calejados do país, com cerca de mil horas de vôo.
O resto do dia corre tranqüilo, bem diferente das tensas primeiras horas daquela manhã. Com tanto tempo para fazer nada, pudemos nos divertir com as inusitadas situações de quem precisa morar por algum tempo num lugar tão inóspito. O envelope é enrolado cuidadosamente e guardado num saco que nos serve de sofá. O cesto do balão converte-se na cozinha do acampamento, onde esquentamos água para o café e os providenciais macarrões instantâneos. Nosso almoço e jantar seguem o mesmo cardápio, complementado por sucos, bolo e barras de cereais. Pena, ninguém se lembrou de trazer um chocolate ou um vinho.

Temos tempo de sobra para ouvir um pouco das loucas aventuras de Feodor, como a sua incrível viagem sobre o Monte Fuji, no Japão, com seus 3 776 metros de altitude, o inusitado vôo sobre a cidade de São Paulo, com pouso no Parque do Ibirapuera, e a conquista do atual recorde brasileiro de altitude num balão (9 200 metros), estabelecida em 2001, entre as cidades paulistas de Rio Claro e Piracicaba.
Para se ter uma idéia da dificuldade desse heróico feito, as correntes de ar no limite da troposfera atingiam velocidades entre 100 e 150 quilômetros por hora, a temperatura no lado externo do balão estava em torno de 40 graus abaixo de zero, e a pressão atmosférica era a metade da encontrada ao nível do mar. Depois de muita prosa e boas risadas, além de uma insólita aula de astronomia no estrelado céu da Serra da Canastra, ministrada pelo divertido assistente de vôo Flávio, dormimos assim que a noite caiu.

Às 5h30 da manhã já estamos de pé, arrumando a bagagem e ajudando na montagem do balão. Queremos e precisamos sair desse lugar, mas não temos a menor idéia para onde o vento irá nos levar. O tempo está nublado, o que só aumenta a aflição da equipe. Nosso comandante, porém, assegura que as nuvens sobre nós são superficiais, e não sugerem uma mudança climática significativa. O que mais o preocupa, na verdade, é o fato de estarmos numa área descampada, sem nenhuma árvore robusta para ancorar o balão. Ele avisa: teremos de fazer tudo muito rápido, se não quisermos ver nosso precioso veículo sair voando sozinho.
O cesto é virado no chão, e a lona, estendida. O ventilador, movido a gasolina, começa a encher o balão. A operação mais delicada é o acionamento do maçarico para aquecer o ar dentro do envelope - se ele esquentar antes que estejamos prontos para pular para dentro do cesto, o balão vai embora sem nós. Pulo primeiro, torcendo para que os outros venham logo. Entram Valdemir e - graças a Deus! - Feodor. Flávio, incumbido de colocar toda a bagagem a bordo, salta para dentro quando o balão já está se desgarrando. Mas as dificuldades da decolagem ainda não tinham acabado. O terreno inclinado, o vento forte e a assustadora proximidade com o morro obrigam Feodor a subir sem nenhuma margem de erro, o que felizmente não é tão difícil para ele.

Pronto. Estamos novamente voando tranqüilos na direção norte. Como se diz no jargão dos pilotos, em céu de brigadeiro. Deixamos nossa casa para trás, e nos dirigimos para o último grande vale da Serra da Babilônia. Quase em tom de despedida, avistamos e ouvimos em alto e bom som a Cachoeira da Babilônia.
Transposto o paredão da serra, que delimita o Parque Nacional da Serra da Canastra, começamos novamente o processo de aterrissagem. Desta vez, as opções de pouso são muitas, e escolhemos um acolhedor pasto próximo à cidade de São João Batista do Glória.
A descida é suave, e o balão pousa de pé, sem nenhum solavanco. Surpreendidos com a nossa repentina chegada por trás da montanha, alguns moradores e trabalhadores das fazendas na região começam a se aproximar. De carro, a cavalo ou a pé, eles vão se reunindo à nossa volta. O olhar curioso, por vezes assustado, revela uma admiração quase infantil no semblante daquelas pessoas. Sinto-me um astronauta, ou quem sabe um marciano que acaba de cair do céu. Mas sou apenas um passageiro da primeira travessia de balão na Serra da Canastra. Se o comandante Feodor quiser, pode até me citar como integrante da sua equipe - pelo menos, cumpri rigorosamente tudo o que ele me ordenou nessa viagem pioneira.

O BALÃO E SEUS PERSONAGENS

O balão foi a primeira máquina voadora construída por Santos Dumont, que chegou a montar nove aparelhos. A bordo de um deles, o Amérique, o "Pai da Aviação" voou 325 quilômetros em 22 horas, ficando em quarto lugar na Taça dos Aeronautas, destinada ao balonista que pousasse mais distante do ponto de partida.
Napoleão Bonaparte usou e abusou dos balões para manter sua hegemonia militar na época em que dominou praticamente toda a Europa. Perspicaz, ele montou o primeiro Corpo Militar de Balões, cujo objetivo era observar as movimentações na retaguarda do inimigo e estudar o terreno de batalha.
O primeiro romance do lendário escritor Júlio Verne, Cinco Semanas a Bordo de um Balão, publicado em 1863, narra as aventuras de um grupo de expedicionários britânicos que sobrevoam a África num balão, desvendando os mistérios do continente. A idéia surgiu das experiências de Félix Nadar, fotógrafo e amigo íntimo de Verne, que utilizava o veículo para fazer imagens aéreas.

Oficialmente, os inventores do balão de ar quente não tripulado foram os irmãos franceses Joseph Michel Montgolfier e Jaques Étienne Montgolfier. De fato, no dia 5 de junho de 1783, a dupla conseguiu elevar a 300 metros do solo, e a uma distância de 9 quilômetros de seu ponto de partida, um objeto feito de linho com 32 metros de circunferência, e enchido com fumaça de uma fogueira de palha seca.
O feito, porém, é controverso. Muitos consideram o padre brasileiro Bartolomeu Lourenço de Gusmão o verdadeiro criador do aeróstato - como o balão era mais conhecido antigamente. Segundo crônicas da época, no dia 5 de agosto de 1709, o "padre voador" teria feito um vôo de demonstração perante a corte portuguesa, impressionando os nobres presentes ao erguer a uma altura de 4 metros sua engenhoca chamada Passarola, um pequeno balão de papel grosso cheio de ar quente.

O vôo de balão em regiões montanhosas é ameaçado por certos tipos de ventos:

ROTOR MECÂNICO: corrente giratória (ascendente e descendente) que se forma ao bater perto do pico de uma montanha.

ONDA DE MONTANHA: o vento bate próximo ao pico e começa a oscilar para cima e para baixo. Na Serra da Canastra, o fenômeno é potencializado com a seqüência de cânions.

TÉRMICA: corrente ascendente formada com o aquecimento do solo. Embora seja ótima para quem voa de asa-delta, paraglider e planador, pois facilita o impulso para cima, é péssima para quem está a bordo de um balão. Quando apanhado por uma térmica, o balonista perde o controle da nave, ficando preso numa espécie de bolha de ar quente.

Eles são ricos, excêntricos e têm um desejo quase incontrolável por recordes e notoriedade. O desafio de dar a volta ao mundo sem escalas a bordo de um balão, e vencer a última grande disputa aérea do século 20, acendeu a chama desbravadora de três loucos aventureiros, que em 1993 iniciaram uma acirrada corrida para essa histórica conquista. Os participantes se apresentavam para a competição com currículos de respeito. O médico suíço Bertrand Piccard (foto) tinha a genética a seu favor. Seu avô, Auguste Piccard, inventou a cabine pressurizada para vôo de balão e foi o primeiro homem a atingir a estratosfera, em 1931. O pai de Bertrand, Jacques Piccard, embarcou num batiscafo, uma cápsula de aço capaz de descer a grandes profundidades no mar, também idealizada por Auguste, e quebrou o recorde de descida, em 1960, ao atingir 10 916 metros da superfície.

Outro competidor, o americano Steve Fosset, que fez fortuna na Bolsa de Valores como consultor financeiro, apresentava um eclético histórico de aventuras - entre elas, a travessia do Canal da Mancha a nado, uma volta ao mundo pilotando um jato, participações nas corridas 24 Horas de Le Mans, na França, e até a disputa da Iditarod, uma louca prova de trenós puxadas por cães, realizada no Alasca, nos EUA. Por fim, o inquieto magnata inglês Richard Branson, dono do Grupo Virgin, que atualmente está envolvido com o ambicioso projeto de vôos comerciais suborbitais, não ficava atrás em matéria de extravagância. Além de uma desastrosa participação como ator no seriado Friends, havia arriscado uma frustrada travessia do Canal da Mancha num veículo anfíbio.

Ao cabo de seis anos de fracassadas tentativas de todas as equipes, com direito a um pouso forçado de Fosset numa área rural de Bagé, no Rio Grande do Sul, enfim o tão sonhado recorde foi batido por Bertrand Piccard e seu parceiro britânico Brian Jones. No dia 21 de março de 1999, após 19 dias e 46 759 quilômetros percorridos desde a decolagem de Château d'Oex, nos Alpes suíços, a dupla conseguiu pousar tranqüilamente seu balão Breitling Orbiter 3 no Egito.

Ao sabor do vento - foto 1
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