Trekking ao Acampamento Base do Everest, Kala Pattar, Cho La Pass, Gokyo e Tibet
27 de setembro de 2010 - 13:20
Quer que uma aventura chegue logo? Marque a data que você verá as folhas do calendário caírem como se fosse outono. Quer que ela chegue ainda mais rápido? Cerque-se de tarefas, o tempo voará. Onze anos se passaram muito rápido, depois de duas tentativas malsucedidas realmente estou na semana da minha viagem. Sexta-feira, dia 1 de outubro de 2010 parto com destino a Katmandu, capital do Nepal, para realizar o Trekking ao Acampamento Base do Everest. Olho para as duas mochilas e mal posso acreditar que ali dentro estão todos os planejamentos, as incertezas, os medos e sonhos. Toda aquela bagunça que se formou em minha cabeça e literalmente no escritório, agora estão agrupadas e organizadas em 25 kg de esperança. Se tivesse essa visão anos atrás, teria dormido o sonho dos anjos por todo esse tempo. Mas a vida não é assim, para chegarmos a um objetivo, sempre teremos que lutar. É isso que nos faz valorizar cada conquista. Sabe aquelas pessoas que disseram que era uma loucura fazer essa viagem? Que não via sentido, que seria perigoso, que poderia contrair doenças, que levar equipamento de fotografia e filmagem era besteira e só iria atrapalhar? Não levo rancor, pois sei que elas nunca estiveram contra mim, estavam apenas me testando, para saber se realmente eu estava pronto para encarar esse sonho. Nunca fazemos uma viagem solitária, mesmo partindo sozinho, sei que levo junto os sonhos e desejos de amigos, familiares e de milhares de internautas. Farei algumas entradas de vídeo ao vivo durante a viagem e por aqui você acompanhará relatos e imagens como se fossem as folhas do meu próprio diário. Abraços a todos e bons ventos.
2 de outubro de 2010 - 22:23
Londres / Inglaterra - Imagina você andando em uma cidade qualquer no Brasil e encontrar isso que encontrei hoje no aeroporto de Londres? Crie uma legenda para esta foto - a melhor frase ganhará um brinde surpresa da CURTLO, como o comentário premiado do mês de outubro.
4 de outubro de 2010 - 6:43
Katmandu / Nepal Katmandu é uma cidade quente, grande e confusa, com um trânsito que faz São Paulo parecer uma pacata cidade do interior. É um caos organizado, com o som de buzina constante, pessoas atravessando no meio da rua e as ruas praticamente sem direção certa, todos se espremem e acabam se entendem, sem uma briga, sem uma batida e ninguém discutindo com ninguém, pois é simplesmente mais um dia normal para eles. Somos em 6 pessoas aqui, o Carlos Santalena da Grade 6, Jus, Agnaldo, Ed, Dani, e eu. Um pessoal muito divertido. Estamos nos preparando agora para o voo para Lukla.
5 de outubro de 2010 - 17:43
Lukla / Nepal Olho pela pequena janela e consigo observar um camponês conduzindo um rebanho de iaques montanha abaixo, um vale tão próximo que parece que consigo alcançar com as mãos as plantações de arroz em suas encostas em formato de escadas. Estou apenas a uns 100 metros do solo, mas meu relógio indica 3.500 m de altitude. Não estou enganado, é isso mesmo, estou no Himalaia e aqui tudo é imenso e alto, o avião sacode e balança com o sopro de uma fria corrente de ar, que ganha fôlego nesse imenso vale. Estou em um pequeno avião da Tara Airlines, um DC-6 de 12 lugares, parecido com o modelo Caravan comum em algumas regiões do Brasil, tão pequeno que a cabine do piloto fica aberta e logo à nossa frente, e os pilotos são dois jovens nepaleses, bem apessoados com aproximadamente 25 anos, com óculos Ray-Ban, que acredito que se sintam o próprio Tom Cruise em Top Gun. Faz 30 minutos que parti de Katmandu com destino ao Aeroporto Tenzing-Hillary em Lukla, considerado um dos mais perigosos voos do mundo, que até o momento me pareceu um voo turístico com belas paisagens do Himalaia. O interessante é que em certos momentos ao olhar pela janela não avisto o horizonte, mas sim uma imensa montanha, olho para a outra janela do outro lado do avião e também avisto outra montanha, e o topo das montanhas estão muito acima de onde estamos, realmente estamos voando entre as montanhas e não sobre elas como seria o de costume. A parte mais temida está logo a frente, a pista de pouso, um fina e curta faixa de asfalto de 350 metros encravada na montanha, a 2.800 metros de altitude, a pista tem um inclinação de 10 graus, o que ajuda o avião a desacelerar assim que pousa, e quando levanta voo ajuda a ganhar velocidade com a descida, a pista termina literalmente na montanha. Um pouso para pilotos de corações fortes e passageiros com o coração na mão. Estou sentado na poltrona da janela, por isso não tenho uma boa visão da cabine do avião, mas sinto que fizemos uma curva rápida de 80º entre as montanhas e logo o avião todo começa a sacudir, tentando tomar um rumo 45º de onde estamos, ao mesmo tempo o bico do avião se inclina abruptamente para baixo, parecendo que está caindo, e com toda a barulheira do motor que invade a cabine, grito para os meus amigos. - Estamos nos preparando para pousar? - grito já regulando a minha máquina para registrar o momento, não quero perder. - Espero que sim!!! Senão já era... - gritou prontamente o Agnaldo.
6 de outubro de 2010 - 20:22
Namche Bazaar / Nepal Este foi o dia mais duro até o momento, no dia anterior dormimos em Phakding a 2.800 m, por isso hoje tínhamos que caminhar um percurso maior para chegar a Namche Bazaar a 3.440 m. A trilha continua muito bonita, com muito verde e sempre passamos por diversos vilarejos, a quantidade de trekkers na trilha também cada vez aumenta mais. Nos vilarejos vejo nepalesas lavando roupas, arrumando encanamento de água que atravessa em meio a nossa trilha, mães dando banho de balde em seus filhos na beira da trilha. As nepalesas são muito bonitas e sempre bem vestidas e sorridentes. O povo nepali é um povo muito receptivo, educado e sorridente. Às vezes acho que eles não têm muita noção do valor das coisas, pois aqui neste trecho uma Coca-Cola custa Rs 250 (rúpias) e um quarto sem banheiro interno custa Rs 150. O preço da refeição sai por Rs 300. Não sei se eles não têm noção do valor do dinheiro, ou o baixo preço do alojamento é apenas uma forma de atrair os trekkers. Apenas para vocês terem a noção do valor do dinheiro, Rs 700 (rúpias) equivale a U$ 10. Após quatro horas de caminhada, chegamos à entrada do parque Sagarmatha e 10 minutos depois paramos em Jorsalle a 2690 m para o nosso almoço. Um gostoso e picante espaguete foi providencial pelo que tínhamos que enfrentar, sabia que tínhamos apenas mais três horas de trilha e finalmente chegaríamos em Namche Bazaar, o problema disso tudo é que Namche está a 3.440 m. tínhamos um desnível de 800 m para tirar em pouco tempo. Minutos após retornarmos à trilha e atravessarmos uma longa ponte de ferro, a trilha finalmente começou a subir, bem íngreme, com degraus escavados na terra, e às vezes feitos de pedras, a cada 30 metros havia uma curva e mais subida, depois de 10 minutos eu já estava querendo ver o final dessa subida íngreme, que para minha infelicidade durou três longas horas, como um passo à frente do outro e regulando a respiração. Sempre digo que as boas fotos só conseguimos depois de muito sacrifício, nada vem de graça. E novamente parecia que eu estava prevendo isso, estava caminhando em uma trilha relativamente plana e à minha frente uma curva, que seria a última antes de chegar a Namche Bazaar. Avisto uma nepalesa à beira do abismo com seu filho no colo. A minha frente uma trekker caminha apressadamente sentindo que Namche se aproximava, a composição está se formando e o contra-luz deixa a cena ainda mais bonita, preparo a minha máquina e aguardo o momento ideal, dou o primeiro clique e espero a trekker chegar mais perto da nepalesa, experimento um clique na vertical, mas a cena não me agrada, volto rapidamente para a horizontal, fecho um pouco mais o diafragma e agora sim, clico e a cena fica registrada em minha retina e me delicio com este momento prazeroso para um fotógrafo.
8 de outubro de 2010 - 17:51
Namche Bazaar / Nepal A premissa aqui é a mesma que em design, Less is More - menos é mais - com o tempo vamos nos adequando e deixamos de carregar coisas que são inúteis, e assim a cada dia a mochila fica mais leve. Menos peso e mais tranquilidade para caminhar. O bastão de caminhada já faz parte do corpo, cada passo é apoiado nele e lentamente vamos ganhando altitude e deixando Namche Bazaar para baixo. Um passo de cada vez, com a respiração ofegante vou passando dos 3.800 metros, que cada vez mais fazem efeito em nosso corpo, mas subindo lentamente chegamos ao Everest View, o ponto de aclimatação e de onde podemos avistar boa parte da Cordilheira do Himalaia. Finalmente avistamos o Everest, Lhotse e a imponente e bela Ama Dablam. A maioria das montanhas ao seu redor são bem maiores do que ela, mas o Ama Dablam, conhecida localmente como a Joia, tem um formato que atraem os olhares e admiração de todos que por aqui passam, mas lá ao fundo e quase imperceptível está ele, o majestoso Everest. Todas aquelas imagens que eu via na National Geographic, agora estão à minha frente, o tempo está limpo, sol forte e com temperatura por volta dos 14 ºC, pouco vento, o suor corre pelo meu rosto devido ao esforço da subida. Sento e junto com meus companheiros observo o Everest, pequenino lá ao fundo, o sonho de tantos alpinistas e de nós trekkers. A montanha que tornou essa trilha a mais famosa e também a mais bela do mundo. Hoje com uma boa estrutura, com pessoas de todas as idades, famílias inteiras, cegos, pessoas com deficiência.
13 de outubro de 2010 - 19:11
Gorak Shep / Nepal Devido a tontura que a Dani teve ao chegar aos 4.940 metros de altitude de Lobuje e o Edi ter vomitado durante a noite, nosso grupo foi dividido. O guia da Grade 6, Carlos Santalena, ficou com a Dani e o Edi em Lobuje. Eu, Jus e Agnaldo seguimos para Gorak Shep com o guia nepalês Ran e seu aprendiz Rames. Após 3h de trekking chegamos aos 5.220 metros de altitude, onde está localizado o simpático vilarejo de Gorak Shep, que é cercado por uma planície de areia, parecendo uma praia. Colocamos nossas mochilas marinheiras no lodge e almoçamos, descansamos alguns minutos e logo saímos para subir o tão esperado Kala Pattar. A íngreme subida, aliada a altitude de mais de 5.000 metros pesa em nossos ombros e na dificuldade de respirar. Tenho bronquite, mas até aqui ela não tem sido problema, pois no ritmo que caminhamos não fazemos tanto esforço. Caminhamos a passos lentos e aos poucos vamos ganhando altitude. É a primeira vez que experimento esta altitude e não é fácil. Agnaldo dispara na frente junto com Ram, eu e a Jus ficamos para trás com o Rames e vamos ganhando altitude aos poucos. Após 1 hora de subida chegamos na metade do Kala Pattar, onde tem um memorial, sento junto com a Jus. Para mim aqui já estava perfeito, já era possível ver o Everest e bastaria algumas fotos e depois poderia começar a descida. - Bom, já que estamos aqui, vamos até o cume - disse a Jus já se levantando com a mochila nas costas. Era o que eu não queria ouvir, mas ela está certa. Vamos pelo menos tentar. A subida fica cada vez mais penosa, e além da altitude agora o vento sopra forte e preciso colocar o meu anorak. Ajusto o capuz para enxergar apenas um pouco da trilha à minha frente, e em um ritmo compassado vou caminhando sem olhar para mais nada, e mais duas horas se passam. Chego ao falso cume e olho para cima e ainda tem mais um bom lance, acho a trilha em meio as pedras e vou subindo, 15 minutos depois estou próximo do topo e vejo o Agnaldo. - Fala cara, parabéns... estamos no topo - grita Agnaldo todo empolgado ao ver que também consegui chegar. - Ahhh... valeu. - é o máximo que consigo responder e logo sento onde ele me indicou, pois ali era mais abrigado e não batia tanto vento. Estou sem fôlego, olho ao redor e vejo um mastro que sustenta algumas bandeiras de orações e ao fundo está o glorioso Everest ao seu lado o Lhotse e o Nupse. Estou no topo do Kala Pattar, a 5.545 metros de altitude e realmente aqui é a melhor vista que teremos do Everest e desta região do Himalaia. A maioria dos trekkers consideram este o ponto mais importante da viagem, até mesmo que o acampamento base. A Jus chega minutos depois e juntos comemoramos mais uma etapa desta grande aventura.
14 de outubro de 2010 - 21:33
Gorak Shep / Nepal Acordei cedo, na verdade depois que passei dos 4.000 metros de altitude tenho tido dificuldade em dormir a noite toda, ainda mais agora que estamos dormindo a 5.220 m, acordo durante a madrugada e fico perambulando durante um tempo dentro do lodge até cansar e depois volto a dormir. Mesmo assim levanto primeiro que todos e presencio os guias nepaleses acordando no dining room. Antes de vir para esta viagem, falei com a médica e blogueira do Portal Extremos, Karina Oliani, pois ela já fez esta trilha algumas vezes, e pedi dicas de remédios para prevenir o mal de altitude e também algo para após os primeiros sintomas. - Elias, vejo pelo cronograma que vocês farão uma subida lenta e com aclimatação, que é o ideal. Sempre a melhor opção é não fazer uso de nenhum medicamento, que de alguma forma traria efeitos colaterais, o que não seria nada agradável nesta altitude. - disse a Karina Oliani. E de fato a recomendação do guia Carlos Santalena, da Grade 6 era mesma. Nenhum de nós fez uso de Diamox ou algo parecido. A Jus teve um princípio de diarreia em Namche Bazaar, mudamos o cronograma e ela tomou alguns remédios, ficou um dia de repouso e melhorou. A Dani sentiu tontura ao chegar aos 4.940 metros em Lobuje. Nesta mesma noite em Lobuje, o Edi vomitou, provavelmente devido a comida. Estas duas baixas causaram a divisão da equipe, não tinha porque todos ficarem parados a praticamente 5.000 m de altitude e tão próximos do nosso objetivo principal. Como os dias para cumprir o cronograma já estavam apertados, dividimos a equipe e assim iríamos garantir que pelo menos os que estavam se sentindo bem chegassem a Gorak Shep, onde faríamos o Kala Pattar e o Acampamento Base. E assim na manhã do dia 14 de outubro, partimos eu, Jus e Agnaldo, junto com o guia Ram e o seu aprendiz Ramesh para o Acampamento Base do Everest. O início da trilha é tranquilo em meio a "prainha" de Gorak Shep, mas logo entramos na trilha de pedras e aos poucos vamos subindo e a todo momento o Glaciar Khumbu nos acompanha à nossa direita. Após um pouco mais de 2h de caminhada chegamos finalmente ao Acampamento Base do Everest, que chamamos de acampamento fake, pois hoje em dia eles recuaram praticamente 30 minutos de caminhada de onde realmente as expedições montam as barracas do Acampamento Base. Na verdade acho uma medida correta, pois assim o público do trekking não invade a área de concentração dos alpinistas que estão se preparando para escalar a montanha mais alta do nosso planeta. Além do mais, agora em outubro não tinha nenhuma expedição que tentaria a escalada do Everest, pois a maioria prefere escalar em abril, maio e junho. Mesmo assim ainda caminhamos mais um bom trecho até próximo ao acampamento base real. E logo fomos seguidos por outros grupos. Estávamos caminhando literalmente em cima do Glaciar Khumbu, à nossa frente a temida Cascata de Gelo que leva para os acampamentos superiores. Depois de tantos anos sonhando, e por muitas vezes achei que não seria capaz de realizar este trekking, finalmente estava aqui presenciando in loco toda essa imensidão de pedra e gelo, onde tantos sonhos se concretizam em busca do ponto mais alto do nosso planeta, os 8.848 metros de altitude do monte Everest, que por sinal deste ponto não é possível avistá-lo, uma grande ironia, tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Chegando aqui descobrimos que o Acampamento Base do Everest é apenas mais um entre tantos pontos altos desta viagem. Os detalhes de cada dia do trekking, as experiências, dicas, a convivência em grupo, a cultura local, o sistema de trabalho dos guias e porteadores, os medos, as alegrias e surpresas, o novo caminho de volta e o principal de tudo, a importância do fator psicológico durante este trekking, você poderá acompanhar em breve no livro que estou escrevendo. Além de uma seleção imagens inéditas que reservei especialmente para o livro, uma árdua tarefa que ainda me custará alguns meses na seleção das mais de 10.000 fotos feitas durante essa jornada. O sonho que era apenas de conhecer e ver de perto o Everest, se concretizou em diversas formas e ângulos, consegui realizar um objetivo pessoal, fotografei "Os Extremos do Everest": a face sul, a face norte e também uma vista aérea bem próxima do Everest, quando retornava do Tibet. Alguns já puderam ler sobre o trekking ao Everest na visão de um executivo, de jornalistas e em breve poderão ler pela ótica de um fotógrafo. Namastê.
17 de outubro de 2010 - 21:12
TagNak / Nepal Após vários dias sem internet volto a escrever sobre um dos momentos mais incríveis desta aventura. Posteriormente escreverei sobre todos os dias desta viagem chamada de Trekking ao Acampamento Base do Everest e entenderão que ele é uma pequena parte de toda essa aventura. Acordamos bem cedo hoje, pois este será um dos mais longos dias de trekking. Vou dar uma espiada em como está o tempo e uma forte nevasca caiu durante toda a noite e deixou a paisagem toda branca. Nos reunimos no dining room já esperando o nosso reforçado café da manhã. Ram, o nosso guia nepalês, tem informações sobre as condições de conseguir ou não realizar a travessia do dia. Todos no dining room estão ansiosos com o que ele vai falar, pois apesar da apreensão, todos querem partir, não apenas o nosso grupo, mas muitos outros grupos que estão aqui e não têm noção do que irão enfrentar. Após alguns rodeios sobre o assunto, Ram, avisa que é perigoso fazer a travessia, mas que mesmo assim iremos tentar. A comemoração é geral e todos se apressam no café para logo partir. Despachamos nossos porters com as mochilas marinheiras mais pesadas e colocamos as nossas mochilas de ataque e nos equipamos com blusa e calça anorak, botas e bastões de caminhada para cruzar o passo de Cho La Pass a 5.420 metros de altitude. A paisagem agora está toda branca com alguns pontos de terra escura e pedra aparecendo. Minutos após a nossa saída a nevasca volta a cair, e nossa subida se torna mais emocionante em um zig-zag que vai cortando montanha acima. Em alguns trechos somos obrigados a praticamente escalar as pedras para continuar nossa lenta subida. Por sorte, a nevasca para e nossa tarefa fica mais tranquila. Após 3 horas de caminhada finalmente chegamos próximo ao passo, agora caminhamos literalmente sobre a neve, mesmo sem grampons vamos ganhando terreno na trilha deixada pela nossa equipe. Finalmente chegamos a uma parede íngreme e aqui nossos bastões não têm utilidade, vamos escalando lentamente em meio a pedra e neve e logo chegamos ao topo do Cho La Pass. Nosso grupo está acomodado entre as pedras e começamos a comer algo para ganhar energia e nos hidratar com bastante água. A nevasca volta a cair e todos se apressam para agora enfrentar a parte mais difícil, a íngreme descida. Todos estão prontos e percebo que estou fazendo algo de errado e peço para esperarem um pouco. Estou usando uma primeira camada de luva, o que está deixando os meus dedos congelados, coloco uma camada mais grossa de luva e espero que melhore, os dedos dos pés também estão perdendo sensibilidade, o que já é um sinal que tanto os dedos das mãos como os dos pés estão no chamado congelamento de 1º grau, onde não sentimos mais a sensibilidade deles. No momento não sei a gravidade disso e me apresso em descer. Na minha frente está o casal Edi e a Dani que descem lentamente, pois qualquer erro há o perigo de escorregar pelo precipício, o que seria fatal. Mas a lentidão dos dois me deixa em apuros, não quero ficar mais tempo aqui, meus dedos estão ficando cada vez mais congelados. Dani vai descendo sentada e praticamente não ganha terreno. Carlos, o guia, logo percebe a situação e desce para ajudá-los, aproveito o momento e ultrapasso os três. É nesse momento que percebemos como um bom equipamento faz a diferença. Sinto segurança com a minha bota Salomon e vou descendo a passadas largas. Ao passar por eles, escuto Edi alertando a Dani para colocar uma luva mais grossa, pois como ela está descendo sentada, está a todo momento com as mãos na neve. Vejo que a situação ali é um pouco grave, mas também não posso ajudar muito, pois meus dedos estão cada vez mais congelados, deixo a situação ao encargo do guia Carlos que já está auxiliando os dois. Com a minha rápida progressão passo pelo guia nepalês - o Ram - e pela Jus, e logo encontro o Agnaldo, nosso mais experiente membro do grupo e que sempre caminhou à frente de todos. Ele percebe a minha pressa e abre passagem. - Vai com calma Elias, se você escorregar vai cair no precipício - alerta o Agnaldo. Foi um bom aviso e assim vou descendo com mais cuidado. Olho para cima e não consigo mais enxergar o grupo que sumiu entre a nevasca, à minha frente, uns 30 metros abaixo, vejo um casal, onde um senhor inglês desce com dificuldades e sem luvas, acompanhado de uma norueguesa. A descida é lenta e em zig-zag, mas aos poucos vamos descendo. Uma hora depois já estou no último terço da descida e meus dedos voltam a ganhar sensibilidade, o que me deixa mais tranquilo. Continuo descendo, agora já próximo do final da descida do Passo de Cho La Pass, mas o casal que estava à minha frente sumiu. Sou o único por aqui, olho para trás e o único membro do grupo que consigo enxergar é o Agnaldo. Finalmente chego em um trecho mais plano e o Agnaldo chega logo atrás, resolvemos parar e esperar o grupo. Aproveitamos para repor um pouco de energia comendo chocolate e tomo um pouco de Suum, um repositor energético cedido pela Proativa. Com a teleobjetiva da máquina fotográfica consigo enxergar o grupo ainda no meio da montanha e vejo o Carlos auxiliando a descida da Dani e do Edi, que descem muito lentamente. Mais abaixo deles está o Ram que segue junto com a Jus, vejo que apesar da lenta progressão todos estão bem e em questão de meia hora eles estarão aqui e em segurança. O grupo vai chegando e de repente avistamos o inglês e a norueguesa se aproximando. Disseram que após a descida ficaram desorientados e não encontraram a trilha correta e ficaram perambulando pela base à procura de uma saída que não encontraram. Ao nos avistar resolveram se juntar ao nosso grupo para assim seguir com mais tranquilidade. Uma grande ironia do destino, pessoas que tiveram como heróis nacionais, Amundsen e Scott agora estavam seguindo os tropicais brasileiros.
18 de outubro de 2010 - 20:02
Gokyo / Nepal Saímos de Thangnak logo cedo e após uma hora de caminhada encontramos os nossos porteadores sentados descansando, ao passar por eles entendi porque resolveram parar tão cedo. A nossa frente estava o imenso glaciar Ngozumpa que teriamos que atravessar para chegar em Gokyo, a 5.040 metros de altitude. Este é o maior glaciar do Nepal com aproximadamente 20 km de extensão e neste trecho teríamos que atravessar aproximadamente 1 km de sua largura. Olhando de cima, parecia impossível atravessar, por baixo fica o glaciar, a camada de gelo, e por cima dele é uma imensidão de pedra sobre pedra. Começamos a descida ao glaciar e aos pouco a trilha nos leva para um caminho relativamente tranquilo e após uma hora chegamos ao final do glaciar e após enfrentar a dura subida chegamos em um mirante de onde avista pela primeira vez o vilarejo de Gokyo e o lago Dudh Pokhari, conhecido como o terceiro lago. A paisagem é muito bonita com as montanhas nevadas ao fundo e o Gokyo Ri com 5.360 metros, de onde pode avistar o Everest e boa parte da cordilheira do Himalaia. Mas, infelizmente não teríamos tempo de subir ao cume, pois perdemos alguns dias quando a Ju, Edi e Dani passaram mal. Poderíamos até tentar subir, mas depois teríamos de que descer no mesmo dia para Dhole, o que daria no total 9 horas de caminhada e seria muito puxado. Resolvemos que apenas dormiríamos em Gokyo e no outro dia já partiríamos para Dhole. Como não iria subir Gokyo Ri, aproveitei a noite que estava estrelada e saí para fotografar. Saí as 21h e no início o Carlos Santalena me acompanhou nas fotos, mas as 22h ele resolveu ir para o Lodge e fiquei sozinho. Fiz algumas fotos à beira do lago e depois resolvi subir ao mirante, onde estivemos pela tarde. Às vezes o Cho Oyu aparecia entre as nuvens e pude fotografá-lo. Usei a longa exposição e fiz fotos interessantes. A meia-noite, com temperatura de - 1 º C, resolvi também ir dormir, pois o outro dia também seria longo.
19 de outubro de 2010 - 20:02
Dhole / Nepal Em Dhole acordei cedo, por volta das 6h15 já estava lá fora para fotografar o amanhecer. Naturalmente este é o momento mais frio de todo o dia, estava fazendo 4ºC, céu com poucas nuvens e o tempo prometendo um bom dia de trekking. Estamos a 4.040 metros de altitude e aqui o verde já faz parte da paisagem e um bonito riacho corre a 20 metros do lodge. Desço os degraus feitos na terra e vou à beira do riacho à procura de uma boa composição, de repente surge uma jovem menina nepalesa de no máximo 11 anos, usando um gorro vermelho, blusa rosa e um colete preto por cima. Está de calça jeans, meia e usa um chinelo ao estilo rider, nas suas costas está um galão de 20 litros de água que ela carrega em uma tira presa a sua cabeça. Como todo porteador ela se curva para frente para dividir o peso entre a cabeça e as costas. Caminha lentamente e quando passa por mim sorri e diz Namastê. Atravessa uma ponte de madeira, sobe os degraus na terra e segue em direção ao último lodge e desaparece ao passar pela porta. A distância não é tão grande, por volta de 50 metros. Fico parado revendo as fotos que fiz e me perco nos pensamentos. Quando resolvi vir fazer o trekking ao acampamento base do Everest, já sabia que iria encontrar muita pobreza, achei que seria algo parecido a Bolívia, mas com o tempo fui percebendo que a situação aqui é bem pior, aqui isso acaba virando uma cultura. Não me incomoda dormir em lodges simples, ficar 13 dias sem banho e a privada sendo um buraco na terra. Mas a imagem da menina me tocou e enquanto repasso as fotos a menina surge novamente e segue ao mesmo local onde enche novamente o seu galão de água e refaz todo o percurso. Na meia hora que fico ali, vejo-a fazer este trabalho pelo menos umas 7 vezes. Ela fica um pouco acanhada com a minha presença, mas sempre que passa sorri e não deixa de realizar a sua tarefa. Por volta das 9h30, quando estamos nos preparando para sair para o trekking, a vejo novamente refazendo o percurso com o seu galão de água e lembro que no dia anterior a vi também no final da tarde. Outra menina surge, agora a do meu lodge e também repete o mesmo processo. Ver crianças realizando essa tarefa é de tocar o coração, ainda mais que um simples sistema de pressão ou elevação de água por um pequeno moinho poderia resolver esse problema de falta de água corrente nos lodges. Aqui a cultura é fazer o mesmo que foi feito pelos seus pais e avós, não se pensa em melhoria e praticidade. Essa é uma tarefa que as ONGs devem fazer, e de fato fazem em outros segmentos, mas o Nepal é carente deste tipo de serviço e mudar essa cultura vai ser difícil. Enquanto isso essas pobres crianças passarão toda a sua vida carregando esse problema nas costas.
18 de outubro de 2010 - 20:02
Lhasa / Tibet Depois do Trekking ao Acampamento Base do Everest eu tinha várias opções a escolher como próximo destino e acabei escolhendo conhecer o planalto tibetano. Uma viagem de 5 dias até a sua capital, Lhasa. Como qualquer outra pessoa a minha curiosidade em conhecer este "país" onde o Dalai Lama foi obrigado a abandonar era grande. Eu e mais 14 pessoas partimos em um micro-ônibus para o Tibet, o grupo era composto de alguns belgas, duas israelenses, um espanhol e somente eu de brasileiro. Após a burocrática travessia da fronteira, já começamos a sentir que não estamos no Tibet, mas sim em um país dominado pela China. A polícia chinesa está em toda parte, os check-points são constantes para verificarem o passaporte e o limitado visto oficial chinês, que só vale para o roteiro oferecido. As construções também tem um estilo moderno e vai ganhando espaço a cada dia que viajamos, enquanto as áreas dos vilarejos destinados aos tibetanos continuam em estado precário. Tanto aqui como no Nepal não existe água encanada, ficando ela destinada apenas aos hotéis em que hospedamos. A sujeira e a precariedade de condição de vida chega a incomodar. Mas aparentemente para eles, esse é o mundo que eles conhecem, nunca viveram de forma diferente e a pergunta que uma belga me fez foi pertinente: - Elias, você acha que eles são felizes - perguntou a belga Marie - Acredito que sim - respondi mesmo relutante - eles são naturalmente pessoas simpáticas e alegres, adoram ver turistas e não pensam duas vezes em posar para uma foto e não é costume deles pedir dinheiro por causa disso. Na verdade é a simpatia deles e a beleza natural da região que atrai tanto nós turistas. - Humm - Marie fita o vazio por um momento - eu acho que eles não são felizes, eles não têm muitas escolhas e acabam fazendo as coisas praticamente por obrigação. Mas uma coisa é verdade, é um povo trabalhador, imensamente simpático e religioso. Quanto a beleza natural, cada dia é mais surpreendente, atingimos o ponto mais alto da viagem chegando aos 5.248 m de altitude em Gyaltso la Pass. No 2º dia avistamos a face norte do Everest e aqui sim ele é visualmente a maior de todas as montanhas a sua volta, é imponente e causa alvoroço e admiração entre todos nós. A cordilheira do Himalaia se estende graciosamente à nossa frente e também é possível avistar o Cho Oyu com seus 8.201 m. Diferente do lado nepalês - face sul - onde você precisa caminhar por 10 dias entre o vale até chegar à base do Everest e lá ele fica praticamente escondido atrás de outras montanhas, aqui no Tibet é possível avistá-lo em todo seu esplendor e é possível chegar ao acampamento base de 4x4. O constante visual árido e estéril ganha vida no último dia de viagem, como um presente de despedida desses dias em meio ao planalto tibetano, surgem lagoas em tons de verde e azul. A chegada a Lhasa causa admiração e espanto, a capital do Tibet é grande e está em franco desenvolvimento, há grandes lojas de todas as marcas de carros, as avenidas são largas, outdoor da Red Bull e Coca-Cola estão por todas as partes, não há quem não tenha um celular, construções e prédios modernos, e em meio a tudo isso está o Potala Palace, monastério onde o Dalai Lama vivia e que agora em seu topo tremula a bandeira da China. - Que país é este? - já dizia o Legião Urbana.
04/01/2011 - 14h07 - Texto e fotos: Elias Luiz
Brasil. Passada a correria de fim de ano e as várias novidades que o Extremos colocou no ar nestes dias, como o Fórum e o Roteiro de Aventura Huaraz, agora é hora de focar e voltar às páginas do livro. A meta é finalizá-lo até o final de fevereiro e, depois, começa a correria em busca de uma editora.
Esta semana editei e revelei a primeira foto do trekking ao Everest para colocar no escritório. É muito bom poder rever as imagens e, assim, as lembranças voltam à nossa mente. Às vezes recorro ao diário de viagem, outras questões verifico com meus amigos de trilha, e assim vou escrevendo mais um capítulo.
Sobre a foto abaixo, durante três dias passamos por essa trilha: duas vezes para aclimatação e, no terceiro dia, para seguir adiante. Somente em um desses dias tivemos o céu totalmente aberto e a visão plena do Everest (a pirâmide branca à esquerda), do Lhotse ao centro da foto e da beleza do Ama Dablam à direita.
Uma jornada de altitude, espera, amizade, paisagens imensas e o sonho antigo de caminhar aos pés do Everest.
Trekking Everest