Travessia Landmannalaugar-Thórsmörk-Skógar
3 de julho de 2012 - 10:40
O Extremos tem o prazer de anunciar mais uma Expedição em 2012, o trekking Landmannalaugar-Thórsmörk-Skógar, na Islândia, de 1 a 10 de setembro de 2012.
Serão 5 dias de trekking e outros 5 dias de tour para conhecer esta ilha que é considerada o novo destino mundial dos aventureiros. Você poderá acompanhar a expedição e as dicas aqui no Extremos.
A Expedição Islândia conta com o patrocínio exclusivo da Hi-Tec.
3 de setembro de 2012 - 22:00
Uma grande explosão colocou este país no centro das atenções durante alguns meses e agora eles estão se preparando para a próxima: o turismo de aventura. A Islândia chamou a atenção do mundo após a erupção do vulcão Eyjafjallajökull que parou o tráfego aéreo da Europa por vários dias em meados de 2010.
O turismo de aventura promete tornar a ilha que fica às margens do círculo polar Ártico no centro das atenções nos próximos anos e muitos aventureiros partirão com suas mochilas para alguns dos atrativos que a ilha oferece e são muitos.
A ilha já tem uma boa estrutura a oferecer ao turismo, mas um volume maior de pessoas desembarcando no aeroporto da capital Reykjavík só deve acontecer aos poucos, do boca a boca de quem experimenta e na força de divulgação das revistas, sites especializados e dos filmes que estão começando a usar as locações cênicas da ilha para encantar a todos nas grandes telas.
Sentindo a força evidente da região, o editor-chefe do Extremos, Elias Luiz, colocou a mochila nas costas e, com o apoio da Hi-Tec, partiu para ver de perto esse Pantone ao ar livre. O destino escolhido foi a travessia de Landmannalaugar a Thórsmörk, 56 km de trekking pelo planalto islandês, e provavelmente ele foi o primeiro brasileiro a realizar tal feito. Não que seja difícil, e sim por falta de divulgação deste destino no Brasil.
A Islândia já impressiona assim que você chega: a ausência de árvores, a temperatura baixa mesmo no verão e a terra remexida às margens da rodovia no translado do aeroporto para a capital Reykjavík fazem você sentir que a terra aqui está viva.
Escolhi um trekking guiado e assistido da agência Arctic Adventures - www.adventures.is.
Primeiro dia
Logo cedo a pick-up da empresa passou em meu hotel e, depois de alguns minutos no escritório da agência, partimos em um dia chuvoso rumo a Landmannalaugar. Nosso grupo consistia em nove pessoas, mais o guia e o cozinheiro, que sempre nos esperavam no próximo destino com a barraca refeitório montada e um café quente à nossa espera. Laurent, nosso guia, é francês, mas já vive há alguns anos na Islândia. Nosso grupo era bem internacional: tinha o jovem casal de russos, o belga, o suíço, as suecas, o holandês e eu, o único de fora da Europa.
O primeiro dia é um translado até o primeiro acampamento, mas pouco antes paramos e fizemos um trekking a um conjunto de cachoeiras e logo no primeiro dia experimentei algo que seria normal no trekking e que me incomodaria muito, as travessias de rios, sempre que isso acontece temos que parar, tirar as botas e colocar uma sapatilha de borracha para atravessar o rio e, do outro lado, parar, limpar os pés e colocar novamente as meias e as botas, parece algo simples se fosse no Brasil. Vale lembrar que a temperatura média era de 6 graus, sem contar o forte vento e a água gelada que chega a doer de tão fria. Esse primeiro trekking foi curto, acho que só para o guia avaliar o grupo e logo de cara ele notou que não gostei da brincadeira do "cross river", e sempre me provocaria com isso, dizendo:
- Elias, hoje tem cross river.
Ao chegarmos em Landmannalaugar a barraca refeitório estava montada, mas as barracas dormitórios os próprios trekkers teriam que montar, por sorte havia escolhido dormir nos Hut (cabanas) o que me poupou de montar a barraca em plena chuva. Esse primeiro dia já estava mostrando o que seria este trekking, frio, chuva, muito vento, cross river e muito mais.
A chuva caía fina, e o vento ajudava a incomodar ainda mais, foi então que comecei a ver algumas pessoas de sunga em direção a um lago de águas termais bem próximo do alojamento e mesmo relutando resolvi fazer o mesmo. O lago é alimentado com água quente da montanha e a temperatura na maior parte do lago é morna e agradável; só próximo às nascentes a temperatura fica muito alta. O banho quente ao ar livre com a chuva gelada caindo foi maravilhoso, o problema foi sair em pleno frio e correr para a cabana.
À noite fomos surpreendidos com um belo jantar na barraca refeitório, salmão fresco com legumes e de sobremesa mousse de chocolate com creme, uma mordomia sem igual.
4 de setembro de 2012 - 12:00
Acordei cedo, estava ansioso para fotografar as montanhas com a luz dourada da manhã, no dia anterior estava chovendo por isso deixei para fotografar hoje e sabia que as montanhas em volta eram um Pantone a céu aberto, de várias cores e tons. Coloquei um fleece, peguei a máquina e saí da cabana, mas flocos de neve eram açoitados pelo vento e se espatifavam na minha cara, o frio estava ainda pior, precisei voltar e coloquei um anorak.
Agora sim era possível aguentar o frio, mas as montanhas à minha volta estavam praticamente encobertas pela neve, impossível de fazer aquelas fotos que havia imaginado. Mas é assim mesmo, uma paisagem nunca é igual a outra dia após dia, o jeito era aproveitar o que tinha à minha frente, e acho que era ainda mais bonito.
Após um rápido café da manhã e depois de preparar os sanduíches de trilha, partimos para agora sim o primeiro dia de trekking. O que mais gostei é que eu praticamente não tinha referências deste visual e a todo momento estávamos passando por paisagens totalmente diferentes do que já tinha visto em minha vida. Quando planejo uma viagem, sempre procuro destinos que sejam diferentes do que temos no Brasil, mas na maioria das vezes, como nos Andes, no Himalaia e nos Alpes, por mais que tudo seja surpreendente, a maioria das paisagens você já viu em fotos ou é parecido com algum lugar. Aqui na Islândia praticamente tudo era diferente e isso é o que tornou tudo mais especial.
E por horas e horas caminhamos em paisagens surreais, montanhas cinzentas, montanhas multicoloridas e aos poucos fomos subindo até chegar às trilhas com neve. Quando caminhávamos nas cristas das montanhas um forte vento ameaçava nos jogar para o outro lado, precisávamos caminhar com o corpo inclinado contra o vento para assim nos equilibrarmos e conseguirmos passar pelas cristas. Em alguns momentos passamos por gêiseres, por planícies com pedras que pareciam vidro, e quando você batia uma contra a outra, partiam em lascas que podíamos usar como uma faca afiada. Passamos por montanhas que tinham uma vegetação verde esmeralda que parecia um tapete e no final do dia com o sol já no horizonte chegamos à encosta de uma montanha com vista para um vale com algumas montanhas em forma de pirâmide e o rio que ia cortando a paisagem e refletindo uma cor prateada por causa do sol. Ao fundo o imenso lago Álftavatn com a cabana que iríamos pernoitar à sua margem. Como tinha me distanciado do grupo, sentei atrás de um casal de franceses e fiquei admirando a paisagem.
Faltava apenas uma hora de caminhada para finalizarmos o dia, estávamos subindo uma encosta de montanha, por uma estreita trilha e à minha frente a Erwin subia tranquilamente até que a trilha aos seus pés se desfez e ela começou a escorregar lentamente montanha abaixo. Estava logo atrás dela e naquele momento me lembrei de um trekking que havia feito em 1999 ao Pico das Agulhas Negras e lembro que em alguns trechos onde precisávamos subir alguns lances mais altos nas rochas e que não tinham apoio, a pessoa que estava atrás de mim espalmou a mão contra a rocha, fazendo assim um apoio como uma escadinha e eu pisei em sua mão e subi tranquilamente aquele trecho, lembro que aquilo me tocou, uma pessoa que não me conhecia me ajudou daquela forma.
Mas ali com a Erwin escorregando sabia que precisava apoiá-la, e rapidamente finquei o meu bastão de caminhada na fofa encosta da montanha que é composta por pedriscos logo abaixo dos seus pés e ela continuou escorregando até parar e se apoiar em meu bastão. Pedi para que apoiasse em meu bastão e se levantasse, mas ela não conseguia, sempre escorregava e continuava ali deitada na encosta da montanha, pedi para o francês que estava atrás de mim passar por nós e ir pela frente e ajudá-la a se levantar e com muito custo e com a ajuda do guia que retornou ela conseguiu se levantar, mas nesse momento era a minha trilha onde eu estava apoiado que começou a se desfazer e comecei a escorregar, mas comecei a dar passos rápidos e parecia que estava andando em uma escada rolante em sentido contrário, eu não saía do lugar, mas logo consegui me safar e cheguei à parte da trilha que ainda estava intacta. E assim prosseguimos a caminhada, mas logo à frente o guia disse:
- Elias, chegou o que você gosta, cross river.
Fiquei incrédulo com isso pois tinha muitas rochas em meio ao rio, mas vi que todo o grupo sentou e começou a tirar as botas. Não, hoje eu não estava a fim de congelar os meus pés e a deixa foi que o guia disse que se procurasse talvez seria possível encontrar uma passagem, mas seria arriscado para alguns integrantes mais velhos do grupo. Arrisquei e fui sozinho, enquanto o grupo que ainda estava colocando a sapatilha de travessia me assistia e em alguns trechos tive que retornar e procurar um lugar melhor, mas rapidamente encontrei um caminho e consegui atravessar, o grupo desceu um pouco mais o rio e também atravessou, mas em meio a água gelada.
Hoje foi um dia com 10 horas de caminhada e 24 km percorridos com 900 metros de desnível, mas ao chegar na cabana em Álftavatn eu ainda estava inteiro e sentia que poderia caminhar bem mais. Era muito diferente do que acontecia nos Alpes, onde 6 horas de caminhada destruíam qualquer um. Lógico: na Islândia minha mochila pesava no máximo 8 kg, contra os 22 kg nos Alpes; o terreno era muito mais plano, o frio ajudava contra o forte calor que fazia nos Alpes, e a viagem anterior já havia me condicionado melhor fisicamente para a Islândia.
Realmente foi um dia maravilhoso em que até o sol deu o ar de sua graça em meio a uma paisagem que nunca esquecerei.
5 de setembro de 2012 - 10:45
Acordar aqui é um sonho; com o lago e as montanhas à nossa volta, dá vontade de ficar aqui alguns dias descansando. Mas novamente depois de um café da manhã reforçado, começamos o dia que seria de 16 km, bem mais tranquilo que os 24 km de ontem.
Logo de início começamos a subir a encosta de uma montanha verde esmeralda e quando chegamos praticamente ao topo a vista de toda região era magnífica. Começamos a descer pelo outro lado onde bem abaixo um rio deixava a paisagem ainda mais bonita. Avistamos alguns carneiros e também muita blueberry na encosta da montanha.
Paramos à beira do rio e nesse momento já começava a chover, e desta vez eu não tinha opção, o rio era bem largo, o jeito foi tirar as botas e colocar a sapatilha de borracha e atravessar. A água gelada chega a doer os pés e todos atravessam o rio gritando ou de dor ou pelo choque térmico. Do outro lado o mesmo procedimento de sempre, enxugar os pés e tentar tirar os pedriscos para que durante a caminhada eles não machuquem o pé.
A chuva foi apertando aos poucos deixando o céu cada vez mais cinza, o terreno em que caminhávamos também era preto com pequenas pedras, o dia hoje estava muito estranho. Depois de uma rápida parada para um lanche chegamos a uma enorme planície com aqueles pedriscos que são usados para asfaltar as ruas, isso deve ser resquícios de alguma antiga erupção. A paisagem era diferente e bonita.
O vento começou a ficar cada vez mais forte, estimo que devia estar próximo de 100 km/h, em alguns momentos ele chegava a nos derrubar, paramos e fizemos um semicírculo e agachamos por um tempo para esperar o vento diminuir, mas foi em vão, ele continuava muito forte. Depois de alguns minutos levantamos e continuamos, agora em fila indiana bem próximo um do outro, para assim tentar cortar o vento que estava contra nós. Olhei no relógio e pelos meus cálculos ainda restavam 2 horas de caminhada.
A chuva não era tão forte, mas o vento fazia tudo ficar pior e mesmo com a calça e blusa anorak, percebia que tudo estava sendo molhado. Para piorar, a minha mochila não vem equipada com capa de chuva, é daquelas que você precisa comprar uma capa extra para proteger da chuva e essa capa nunca vem com um ponto para prender na mochila, você apenas coloca por cima dela e protege muito bem em uma situação normal. O que estávamos enfrentando era atípico e por duas vezes a minha capa voou, por sorte a pessoa que estava atrás logo pegou, fui obrigado, em meio à tempestade e ao vendaval, a guardar a capa da mochila no bolso e ir sem proteção nenhuma, e não fui o único a sofrer com isso.
O vento contra, com a chuva na cara, diminuía ainda mais o nosso ritmo, estávamos caminhando muito lentamente e a situação realmente não era brincadeira, já estávamos mais de uma hora enfrentando essa situação. O casal de russos que ia logo à minha frente começou a conversar com o guia e percebi que eles estavam perguntando sobre o rumo e a distância que faltava para o próximo acampamento. Em nosso grupo, o casal de russos, o suíço e eu éramos os que sempre tínhamos um ritmo melhor no trekking; por isso Laurent, o guia, consentiu que o casal fosse à frente. Como eu vinha logo atrás, ele disse que eu também poderia ir. Os russos já estavam uns 20 metros à minha frente; isso seria fácil de tirar se não fosse a situação que enfrentávamos. Resolvi arriscar; qualquer coisa eu poderia parar e esperar o grupo de trás me alcançar. Consegui alcançá-los e, em um ritmo bem mais rápido, logo não conseguíamos mais ver o nosso grupo. Infelizmente o suíço estava no final do outro grupo, por isso não nos acompanhou.
Aqui na Islândia as trilhas são muito bem demarcadas com um postinho de madeira com a ponta pintada indicando a trilha a ser seguida. E assim nós três fomos seguindo, depois de uns 50 minutos de caminhada escutei os russos gritando à minha frente, e logo avistei as cabanas.
- Estamos salvos, encontramos a cabana - gritavam os russos
Lógico que era brincadeira, mas realmente estávamos felizes por chegar à segurança das cabanas. O dia foi muito tenso e poder desfrutar de um lugar seco e um bom jantar seria um luxo sem igual.
Esse realmente foi o pior dia de trekking que já enfrentei na vida, nem na Patagônia, famosa pelos seus ventos tive um dia assim, mas valeu a pena e são sempre esses dias mais difíceis que vamos lembrar com mais carinho.
Da redação na Islândia: Elias Luiz 6 de setembro de 2012 - 9:50
O último dia de trekking amanheceu com sol, o que animou a todos. No início da trilha desviamos um pouco e vimos um afloramento de água na encosta de uma montanha que surpreendeu a todos. Normalmente vemos filetes de água em uma nascente, mas ali a água brota entre as pedras em grande quantidade.
Em um trecho de descida utilizamos uma corda para ajudar na segurança e, depois, por uma bela ponte de madeira, atravessamos um rio de desgelo com um glaciar ao fundo.
O dia foi tranquilo, a paisagem aos poucos foi mudando e no final da trilha, nas palavras do guia, passamos por uma floresta. É que aqui na Islândia o terreno nem sempre é propício para o crescimento de árvores e, onde era, os colonizadores desmataram praticamente tudo. Talvez até faça sentido chamar de floresta o lugar por onde passamos. Qualquer pequeno sítio no Brasil tem mais árvores do que por onde caminhamos.
Mais uma vez tivemos que tirar as botas e atravessar um rio, mesmo com sol a temperatura da água não muda e o choque térmico é inevitável.
O dia finalizou em Thórsmörk; atravessamos o rio e pernoitamos nas belas cabanas em Básar.
O jantar foi de comemoração pela finalização da travessia; ainda faltava mais um dia, mas esse seria mais tranquilo e utilizaríamos as vans para locomoção.
7 de setembro de 2012 - 20:00
O último dia foi tranquilo, logo cedo fizemos uma foto com todo o grupo, e partimos de 4x4 para visitar três pontos turísticos da Islândia.
O primeiro foi um belo cânion; após 20 minutos de caminhada, chegamos ao seu fim, onde uma cachoeira descia entre as rochas.
O segundo passeio do dia foi visitar o vulcão Eyjafjallajökull que parou toda a Europa em 2010. As explosões foram tão fortes que hoje o vulcão não tem mais aquela cratera característica. Abaixo dele existia um imenso lago decorrente do desgelo do glaciar que fica em sua encosta, mas com as explosões as paredes naturais que represavam o lago foram destruídas e hoje não existe mais o lago. Chegamos a tocar no glaciar e entrar em um túnel, aqui tudo é imenso e você sente a força enorme de destruição do vulcão.
Por fim visitamos uma das mais belas cachoeiras da Islândia, eu não sabia que ela estava incluída neste tour, o que foi uma grande surpresa, pois eu já estava me programando para visitá-la nesta viagem.
No final do dia, a 4x4 deixou cada trekker em seu hotel e assim finalizou esta grande viagem.
Recomendo a todos esta travessia de Landmannalaugar a Thórsmörk, a boa estrutura da agência e as paisagens cênicas e diferentes que percorremos todos os dias são os atrativos principais.
Para quem estiver interessado, a agência que utilizei é a www.adventures.is.
Fica aqui o nosso agradecimento à Hi-Tec pelo patrocínio à Expedição.
Uma travessia marcada por frio, vento, rios gelados e algumas das paisagens mais diferentes que já passaram pelo Extremos.
Expedição Islândia