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Extremos
Por: Extremos  |  Edição 51

O Shark's Fin (ou barbatana de tubarão), na Índia, é uma rota de 1.981 metros de altura, quase duas vezes mais longa e tão vertical quanto qualquer uma no El Capitan, no Parque Nacional de…

O Shark's Fin (ou barbatana de tubarão), na Índia, é uma rota de 1.981 metros de altura, quase duas vezes mais longa e tão vertical quanto qualquer uma no El Capitan, no Parque Nacional de Yosemite, nos Estados Unidos. Já fui vencido por essa rocha uma vez. Quando voltei para a segunda tentativa, aos 45 anos, uma tempestade grudou nossa equipe na parede de pedra como insetos. Isto me fez pensar: "Por que estou aqui de novo?"

Três carregadores nepaleses abaixam suas cargas perto de Nandavan, uma padraria muito popular na bacia do Gangotri, norte da Índia. É uma tarde de setembro com muito vento, e o ar úmido das monções açoita gelidamente, como uma chicotada de vento. Os homens decidem continuar até Badrinath, na parte mais distantes do Passo Kalindi, para buscar abrigo. Eles já haviam feito esta caminhada com tempo ruim, mas esta tempestade era diferente. A visibilidade havia diminuído e o trio estava envolto em um pesadelo que cobria tudo com um metro de neve. Sem ter como navegar, se agacharam sob seus xales e cobertores, esperando encontrar a trilha à primeira luz do dia. Mas esse momento nunca chegou. Os homens morreram de frio.

18 DE SETEMBRO DE 2008: TRÊS NUMA CAMA PARA DOIS
Alguns quilômetros mais longe e centenas de metros mais acima, a mesma tempestade me encontra espremido num portaledge — basicamente uma rede de nylon com estrutura de alumínio e uma barraca por cima, que escaladores usam para dormir pendurados na rocha — para duas pessoas, junto com Renan Ozturk e Jimmy Chin. Estávamos a menos de meio caminho do cume da face leste do Meru Central, com seus 1.220 metros de altura, uma montanha que se eleva a 6.310 metros sobre a bacia do Gangotri. O Meru é um maciço que mais parece a cabeça de uma hidra, com múltiplos cumes; nossa meta era escalar o mais dramático deles, uma lâmina de granito pálido e vertical, muito bem batizado de Shark’s Fin (Barbatana de Tubarão). Mas naquela tarde o tempo havia virado e nosso portaledge nos oferecia pouco descanso. Açoitado por ventos fortíssimos, nosso pequeno mundo chacoalhava as fixações móveis e os pitons que nos seguravam à parede. O gelo que havíamos escalado para chegar até esse ponto não era exatamente sólido — um mau sinal do que nos esperava mais para cima. Neste terceiro dia na parede, ainda era muito cedo para pensar em desistir. Nossa única opção era nos manter firmes e esperar. Renan, 28 anos, preferiu ver nosso sofrimento como algo bom. “Acho que já ganhei minhas medalhas de claustrofobia, podridão e perda de circulação”, disse. “Sim, é uma tempestade imensa. Mas, pelo menos, estamos congelando”, disse Jimmy sem nenhuma expressão, enquanto usava o fogareiro para derreter pedaços de gelo e fazer água. “Poderia ser muito pior”, completou ele. Dei uma risadinha quando a barraca chacoalhou ainda mais forte, batendo na cabeça do Jimmy.

"Nossos pés estavam dormentes e enrugados como pés de trincheira, por estarem há 15 dias enfurnados em botas congeladas. E o pior é que a consistente ação da gravidade deixava-os inchados"


20 DE SETEMBRO: 72 HORAS, NENHUM MOVIMENTO
No jogo da altitude e do montanhismo de grandes paredes, o ainda virgem Shark’s Fin está bem no limite do possível e do impossível. O primeiro terço da parede é uma clássica escalada alpina de neve e gelo; o meio mistura gelo e rocha; e o último trecho é uma parede negativa. O Fin já inspirou muitos dos melhores alpinistas do mundo a tentar escalá-lo nos últimos 30 anos. Nenhum terminou. Meu mentor, Terrance “Mugs” Stump, nativo da Pensilvânia que se estabeleceu no Alasca, tentou escalar a parede em 1988. Uma tempestade como essa que nos assolou mandou o time dele para baixo. Mugs tinha 42 anos quando morreu no Denali (ponto mais alto das Américas, no Alasca), deixando seu sonho para a geração seguinte. Esta era minha segunda tentativa em cinco anos, e eu trouxera uma geração ainda mais jovem comigo.

Jimmy, 35, é o tipo raro de escalador que também é fotógrafo de categoria mundial (e vice-versa). Nossa amizade e confiança cresceram ao longo de várias expedições ao Himalaia, que, normalmente, envolviam algum grau de inanição. O Renan já parece um velho amigo, conversando facilmente com os carregadores em nepalês. Já havíamos feito uma expedição em Marrocos dois anos antes, então eu sabia que ele era um talentoso escalador de rocha — mas este era seu primeiro banquete de sofrimento em altitudes elevadas

Eu tenho 45 anos e sou casado com a Jennifer, viúva do meu melhor amigo Alex Lowe, que morreu no Shishapangma em 1999, quando foi pego por uma avalanche da qual escapei por pouco. Enquanto ajudo a criar seus três meninos em nossa casa em Bozeman, Montana (EUA), tento ser um pai normal, mas “normal” aos poucos acabou incluindo meu retorno às escaladas das paredes himalaias. Chegamos todos a uma conclusão a respeito da minha arriscada profissão: se alguma coisa acontecer comigo, a família sofreria mais uma vez. Entendo isso e escalo sob controle, tentando não me expor a encostas sujeitas a avalanches. A responsabilidade para com a minha família é o meu prisma de tomada de decisões.

21 DE SETEMBRO: SERÁ QUE EU MENCIONEI QUE É ACONCHEGANTE AQUI?
Escalar um pico é um pouco como caçar. Tem a ver com ajustar o desafio para encaixar-se no nosso gosto. Ir atrás de um alce macho com arco-e-flecha é mais esportivo do que usar uma bazuca. O velho estilo do montanhismo — carregando uma carga digna de uma caravana de iaques morro acima, de acampamento em acampamento, cada um conectado por metros e mais metros de corda fixa nas pedras, que serão deixadas para trás — é uma das pontas do espectro. O método que escolhemos, mais próximo do outro extremo, é o chamado “estilo cápsula”, e neste caso envolvia empacotar nosso portaledge, comida para dez dias, um par de cordas e um monte de metais para escalada artificial. O plano era aguardar por uma janela no tempo e escalar a coisa toda, parando apenas para comer e dormir.

Escalada artificial funciona assim: você coloca uma peça numa fenda da rocha, daí pendura nele uma escada de nylon, chamada estribo, sobe até o degrau mais alto, coloca outra peça, clipa outro estribo, sobe e repete tudo novamente. A escalada artificial é graduada de acordo com a segurança das colocações das peças. Nos graus mais altos, quando não há fendas, encaixamos pequenos ganchinhos ou bicos de metal sobre pequenas saliências na rocha. Eles seguram apenas o peso do corpo. Quando um desses ganchos pula para fora, rola uma queda bem longa antes que a corda te segure. No El Capitan, a escalada artificial é até divertida. No Meru, a 5.800 metros, é gelada, lenta e miserável. Mas tínhamos apenas uma chance naquele pico, e era esta aqui

26 DE SETEMBRO: AINDA ESTAMOS NOS DIVERTINDO?
A tempestade durou 8 dias. Na segunda noite, começamos a racionar comida e calcular meticulosamente quanto combustível precisávamos para cada xícara de chá. Estabelecemos uma ração de seis colheradas de aveia seca por pessoa no café da manhã, duas barrinhas para o almoço e, para o jantar, um minúsculo pedaço de salame, umas mordiscadas de queijo e oito colheradas de feijão desidratado com azeite de oliva. Não era exatamente o suficiente para nos sustentar àquela altitude em condições invernais, mas nossa carga estava no limite do que podíamos carregar.
Durante as muitas, muitas horas em que ficamos espremidos, Jimmy e eu comparávamos nossas memórias de épicos anteriores, como daquela vez, em 2002, em que puxamos riquixás pelo platô tibetano em busca das áreas de reprodução do antílope chiru.


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