O ABCD da Mochila - Não aja como principiante pendurando badulaques a torto e a direito. Coloque tudo dentro! Arte: Mike Clelland
O ABCD da Mochila - Não aja como principiante pendurando badulaques a torto e a direito. Coloque tudo dentro! Arte: Mike Clelland
Dizem que o ar rarefeito e a aridez desoladora da região de Puna confundem as vistas. De fato, a cada curva a paisagem se mostra mais surpreendente. Os tons e semitons vão criando cenários surreais, intensos, que nos fazem questionar a sua existência.
O deserto de Atacama é um dos destinos mais cobiçados do Chile, recebendo milhares de turistas, anualmente, à procura das paisagens áridas e enigmáticas do deserto mais seco do mundo. A grande maioria, no entanto, não imagina que do outro lado da Cordilheira, no altiplano argentino, existe uma província esquecida, chamada Catamarca, que se esconde em uma das mais belas e insólitas paragens do planeta, sem nenhum exagero.
Nenhum outro lugar na América possui tantas montanhas que ultrapassam os seis mil metros. São 18 vulcões que superam essa marca. Cumes nevados amparam lagunas multicoloridas que afloram no meio do deserto e servem de hábitat para milhares de flamingos, num espetáculo de rara beleza.
A província de Catamarca é composta basicamente por um relevo montanhoso que ocupa quase 80% do seu território. E o melhor, com roteiros exclusivos aos que preferem evitar os caminhos mais batidos, em busca da natureza em sua mais pura expressão. Nessa expectativa, fomos tentados a escalar o vulcão Ojos del Salado, que, com seus 6.893 metros de altitude, ostenta o status de maior vulcão do mundo. Localizado no limite fronteiriço da Argentina e Chile, o gigante perde pouco em altura para o Aconcágua. É a segunda maior montanha das Américas e do hemisfério sul, mas o silêncio e a paz não a torna das montanhas mais populares.
O Aconcágua, por exemplo, recebe mais de cinco mil visitantes numa única temporada. Uma multidão, comparada aos 120 visitantes que encaram o Ojos Del Salado anualmente. Desses, apenas os 20% mais sortudos voltam pra casa com a vista do cume.
Pra entrar no clima
Para aproveitar a estadia nessas estâncias de geografia tão privilegiada, resolvemos encarar logo algumas ascensões. A primeira seria uma escalada de cinco dias no desconhecido Vulcão Veladero, com 6.450 m de altitude, localizado na província vizinha de La Rioja, que possui 10 vulcões com mais de seis mil metros de altitude. No total, nessa região encontramos 28 “Seis Miles”, como os chamam por ali com orgulho.
A caminhada começa na província de La Rioja, de onde parti com o montanhista Geraldo Ozório Filho para o primeiro dia de trilha. Depois de uma hora e meia por um caminho de pó e pedras, levando pesadas mochilas com todas as provisões nas costas, acampávamos na base do vulcão Veladero, que integra o Parque Provincial Laguna Brava. O cenário ermo, composto pela rubra paisagem árida varrida pela ação dos ventos, nos trazia um sentimento ainda maior de isolamento.
Nosso estoque de água nos supriria por um dia e ainda tínhamos mais quatro pela frente. Diante disso, saímos pela manhã para fazer o primeiro porteio, ou seja, levarmos alimento e equipamento para ascensão, para nos proteger dos ventos a mais de cinco mil metros. Derretemos gelo para repor nosso estoque de água e voltamos para descansar no mesmo lugar da primeira noite, a uma altitude mais baixa, para acelerar o processo de aclimatação.
Tivemos alguma dificuldade de encontrar a rota, mas isso fez com que nos familiarizássemos com a montanha e logo planejamos um acampamento mais alto, a 5.500 metros, que nos serviria como acampamento avançado, para o ataque ao cume. No terceiro dia estávamos lá, no segundo acampamento. Descansamos um dia fazendo alguns avanços e estudando a rota; na madrugada do quinto e decisivo dia, saímos em busca do cume. As 4h30 da manhã, levantamos sob um céu intempestivo, carregado de raios e relâmpagos que anunciavam a proximidade de uma tormenta elétrica, nada que abalasse nosso ânimo. Às sete horas, sob os primeiros raios de sol, que dissiparam o perigo anunciado pelas nuvens carregadas, seguimos numa rampa interminável em direção ao cume.
A rota, que se alternava em caminhos pedregosos e grandes lingotes de gelo, nos fez tirar e colocar crampons, algumas vezes, o que retardou um pouco nossa subida. As 10h30min estávamos no topo da montanha, vislumbrando aquela paisagem surpreendente do altiplano. No cume do vulcão Veladero, existem vestígios arqueológicos de civilizações pré-hispânicas evidenciando a busca pelas montanhas, em muitas civilizações.
Presenciamos “pircas” ou altares que foram utilizados pelos incas em cerimoniais. Segundo o arqueólogo José A. Ballenas, os incas veneravam as montanhas e as tinham como locais sagrados. O cume de uma montanha funcionava como antena que captava a informação da terra e do cosmos. Os jovens incas ligados à nobreza, deveriam subir no alto de uma montanha para encontrar o seu destino, e a razão de sua existência seria revelada ali, soprada por algum vento.
Após uns dias na montanha com mais de seis mil metros, e uma boa aclimatação na bagagem, podíamos, enfim, encarar o Ojos del Salado.
Na Catamarca, vale a pena aproveitar um roteiro turístico conhecido como a Rota do Adobe, e conhecer algumas vinícolas, muito tradicionais na região. Situada no Vale de Fiambalá, a rota inclui pequenas casas e capelas erguidas no início do século 18, com estruturas de bambu, revestidas de palha e barro. Essas vilinhas pitorescas, de adobe, em meio a enormes campos de videiras e oliveiras, atestam a cultura mediterrânea herdada da colonização europeia, uma das características mais marcantes da província.
Recuperados para a próxima etapa, seguimos para o refúgio de montanha Las Grutas, pela “Ruta 60”, em direção ao Passo San Francisco, limite com o Chile. De lá, em companhia de Úrsula Diaz, experiente guia de alta montanha e exímia conhecedora das montanhas e rotas dessa região, seguimos para o “Balcón del Pissis” para vislumbrar a terceira maior montanha da América, o Nevado Pissis. Lagunas das mais variadas cores, salares, espelhos d’água refletindo montanhas com mais de seis mil metros e, para compor o cenário, uma fauna exuberante, com centenas de guanacos, vicuñas, condores, zorros e flamingos.
Eu já tive o privilégio de fazer muitas viagens pela América do Sul, e posso afirmar, sem sombra de dúvidas, ter visto ali um dos lugares mais belos que conheci em toda minha vida. O mais estranho é que os próprios catamarquenhos, entre operadores e agentes de turismo, viajantes, funcionários do governo e das municipalidades, que deveriam promover o turismo na região, não fazem ideia da dimensão desse paraíso e do tamanho da riqueza natural que possuem.
Enquanto isso, nossa sensação era de total exclusividade. A ideia seria tentar a subida ao Ojos pelo lado argentino, já que a montanha tem duas rotas, a chilena e a argentina, pois integra a grande barreira natural que divide os dois países, a Cordilheira dos Andes. Devido ao mal tempo e às nevascas inclementes que caíam há dias na região, fomos orientados por Úrsula a buscar a rota chilena, que é mais conhecida e oferece alguma estrutura, além de possuir um refúgio a quase seis mil metros de altitude. No caminho, dezenas de vulcões ornamentavam a paisagem. À tarde, depois de passar pela aduana e atravessar para o lado chileno, acampamos na base da montanha, num espaço chamado Acampamento Atacama, onde começamos os preparativos para o avanço, rumo ao topo do gigante.
Um dos fatores mais decisivos em uma empreitada em alta montanha é o nosso descanso, por isso, é preciso controlar a ansiedade. Saímos pela manhã rumo ao Refúgio Tejos, que funcionaria como acampamento avançado e nos serviria de base para o ataque final.
Chegamos por volta do meio-dia e, a partir dali, a ordem era relaxar e hidratar-se. Dormiríamos a 5.800 metros de altura, o que não é algo que se possa chamar de confortável. Na madrugada do terceiro dia, saímos em direção à cratera do vulcão. A inclinação da montanha é abrupta e a trilha segue num zigue-zague sem fim. A cada passo, o caminho brando e pedregoso dificultava a progressão, numa rampa empinada e cansativa, que cedia e nos retardava a cada passada. Com os primeiros raios de sol, quando já estávamos altos, as cores do deserto foram ganhando uma coloração ainda mais intensa, e centenas, talvez milhares de semitons criavam nuances contrastando ainda mais a paisagem, num espetáculo inesquecível! A partir dos 6.500 metros, o acesso pedregoso deu lugar a um aclive de gelo, e as frequentes nevascas fizeram da subida algo ainda mais difícil. Por volta das 10h20min da manhã chegamos à cratera do vulcão, que estava debaixo de neve fofa e se apresentava como um grande platô de gelo. Ainda nos faltavam 150 metros de desnível para atingir o cume principal. Contornamos a cratera e chegamos num trecho em que tínhamos que transpor enormes rochas. Muito mais íngreme, o caminho exigia alguma técnica; contamos então com cordas fixas, que garantiam alguma segurança para a subida final. Numa altitude como essa, a cada movimento a altitude se impõe. A crista era varrida por ventos fortes que pareciam querer nos tirar do destino almejado. Um a um seguimos, nos esgueirando pelo flanco da montanha até o cume. No alto, a sensação da conquista amainava a escassez de oxigênio numa euforia que desafiava todas as convenções e regras da montanha. Diante de nossos pés, centenas de picos nevados se estendiam pela imensidão da Cordilheira dos Andes. Estávamos no topo do maior vulcão do mundo.
