A alemã Billi Bierling é uma das maiores especialistas em Everest e montanhismo de altitude da atualidade. Nascida em Garmisch-Partenkirchen, tradicional centro do alpinismo alemão, já escalou seis montanhas acima dos oito mil metros e desde 2016 dirige a Himalayan Database, a principal base de dados sobre expedições no Himalaia, criada pela lendária pesquisadora britânica Elizabeth Hawley. Entre a Alemanha e o Nepal, Bierling acompanha há décadas a evolução das expedições no Everest. Para ela, a temporada recorde de 2026 mostrou que a montanha precisa de mudanças.
As declarações apresentadas nesta reportagem foram publicadas originalmente em uma entrevista concedida por Billi Bierling à revista alemã ALPIN, uma das mais tradicionais publicações de montanhismo da Europa.
Acho que chegou a hora de introduzir novas regras.
Segundo Bierling, embora 2026 possa entrar para a história como a temporada com o maior número de cumes e proporcionalmente uma das menores taxas de mortalidade, a realidade nos bastidores é mais complexa. Muitos resgates bem-sucedidos ajudaram a manter as estatísticas sob controle.
Escaladores cada vez menos experientes
Bierling afirma observar há anos um aumento constante no número de clientes com pouca experiência em montanha. Além disso, parte dos chamados High Altitude Workers, profissionais responsáveis por acompanhar os clientes em grandes altitudes, também não possui treinamento adequado.
Na avaliação dela, essa combinação representa um dos maiores desafios atuais para a segurança no Everest.
O problema das expedições baratas
Um dos pontos que mais preocupam Bierling é a crescente oferta de expedições com preços muito abaixo da média do mercado. Ela relata encontrar frequentemente candidatos ao Everest com pouca experiência que contratam agências extremamente baratas.
Quem compra hoje um pacote para o Everest por 35 mil dólares deveria ter consciência de que alguma economia precisou ser feita em algum lugar.
Segundo ela, esses cortes podem afetar a qualidade da assistência prestada aos clientes, a quantidade de oxigênio suplementar disponível e o suporte oferecido na montanha.
Experiência prévia acima de 6.500 metros
Bierling considera positiva a proposta de exigir experiência prévia em montanhas acima de 6.500 metros antes de tentar o Everest. Na sua avaliação, isso garantiria que os candidatos chegassem à montanha dominando habilidades básicas como o uso de crampons, técnicas de auto-detenção e progressão em cordas fixas.
Apesar disso, ela reconhece que a implementação e a fiscalização dessa exigência não seriam simples.
Quem pode guiar no Everest?
Para Bierling, um dos problemas mais sérios está relacionado à formação dos profissionais que conduzem clientes. Ela compara a situação do Everest com montanhas como o Matterhorn e o Mont Blanc, onde ninguém pode atuar comercialmente como guia sem uma formação reconhecida.
Atualmente existem cerca de 75 guias de montanha nepaleses oficialmente formados, mas esse número está muito longe de atender à demanda de trabalhadores de altitude.
Na prática, muitos profissionais acompanham clientes sem possuir certificação equivalente aos padrões internacionais.
O número de permissões é realmente o problema?
Bierling não acredita que o número absoluto de pessoas seja necessariamente o principal problema do Everest. Para ela, a maior dificuldade está na concentração das tentativas de cume em poucos dias de bom tempo.
Ela lembra que, em 20 de maio de 2026, 291 pessoas chegaram ao cume. No dia seguinte, outras 191 alcançaram o topo. Isso provocou grandes congestionamentos na parte final da montanha.
No Hillary Step houve esperas de até três horas no dia 20 de maio.
Segundo ela, uma melhor distribuição das equipes ao longo da temporada poderia reduzir significativamente esses congestionamentos, mesmo sem diminuir o número de permissões emitidas.
O que mais precisa mudar?
Bierling sugere reunir representantes de todos os setores envolvidos na montanha para discutir soluções conjuntas. Entre eles estariam sherpas, guias de montanha, líderes de expedição, médicos, Icefall Doctors e representantes do governo do Nepal.
Ela também vê com bons olhos o uso crescente de drones para transporte de cargas. Na sua avaliação, essa tecnologia pode reduzir significativamente o número de travessias pelo perigoso Khumbu Icefall, diminuindo a exposição dos trabalhadores aos riscos da montanha.
Um alerta para quem sonha com o Everest
Bierling recomenda que os clientes pesquisem cuidadosamente quem será o profissional responsável por acompanhá-los na montanha.
Quem contrata uma empresa mais barata deveria verificar se o trabalhador de altitude que o acompanhará já esteve no Everest ou possui experiência relevante em alta montanha.
Segundo ela, nem sempre isso acontece. Em alguns casos, candidatos inexperientes acabam escalando o Everest acompanhados por trabalhadores de altitude igualmente pouco experientes, uma combinação que aumenta consideravelmente os riscos na montanha.





