ATUALIZAÇÃO: Leandro Gambetta Schirmbeck, de 61 anos, foi encontrado com vida neste domingo após permanecer desaparecido no circuito Dientes de Navarino, em Puerto Williams, no extremo sul do Chile. Ele havia iniciado a travessia no dia 15 de fevereiro e deveria retornar no dia 18, mas deixou de se comunicar durante o percurso, o que levou a família a acionar as autoridades.
Carabineros, Bombeiros e equipes especializadas realizaram uma intensa operação de busca que se estendeu por três dias. O apoio de um helicóptero foi decisivo para ampliar o raio de varredura em uma região remota e de difícil acesso. Leandro foi localizado após sofrer uma lesão no tornozelo, que o impediu de continuar a descida.
Apesar do susto, permaneceu consciente e em boas condições gerais, sendo encaminhado ao hospital local para avaliação médica, fora de risco vital. O desfecho traz alívio à família e reforça a importância de preparo técnico e autonomia em travessias selvagens como a dos Dientes de Navarino.
Post original: 22.02.2026 - 07:30
As buscas pelo brasileiro Leandro Gambetta Schirmbeck, de 61 anos, seguem sem resultados positivos em Puerto Williams, no extremo sul do Chile. Ele realizava a travessia do circuito patrimonial Dientes de Navarino e deveria concluir o percurso em 19 de fevereiro. Segundo a família, mantinha contato frequente com a esposa, enviando fotos, vídeos e relatos da caminhada, mas interrompeu a comunicação repentinamente na quarta-feira, gerando preocupação imediata.
Apesar do susto, permaneceu consciente e em boas condições gerais, sendo encaminhado ao hospital local para avaliação médica, fora de risco vital. O desfecho traz alívio à família e reforça a importância de preparo técnico e autonomia em travessias selvagens como a dos Dientes de Navarino.
A família pede apoio na divulgação do caso e solicita que qualquer informação seja comunicada às autoridades.
Pontos críticos do Circuito Dientes de Navarino
Para limitar as buscas, seria fundamental analisar as últimas fotos enviadas à família. A partir da paisagem, do relevo, da posição do sol e do tipo de terreno, é possível delimitar com maior precisão o setor onde ele possa estar. Caso ninguém tenha cruzado com ele na trilha, a hipótese mais provável é que ele tenha saído da rota principal e esteja fora da linha tradicional do circuito.
- • Dia 1 – Entrada do Parque até Laguna Salto
O trecho inicial possui uma encosta de scree (talude de detritos soltos), caracterizada por inclinação acentuada, solo instável e pedras fragmentadas (última foto). Trata-se de uma travessia em meia-encosta, tecnicamente chamada de travessia lateral em terreno friável. Um escorregão pode projetar o caminhante dezenas de metros abaixo da trilha principal, onde já aconteceu anteriormente uma fatalidade. Em caso de neblina ou vento forte, o risco aumenta. - • Dia 2 – Paso de Los Dientes
Após o passo, há um ponto crítico de navegação. Se o caminhante não fizer a curva à direita (rota correta do circuito), seguirá em direção ao Lago Windhond, no lado oposto da ilha. Essa é uma bifurcação natural de terreno, não necessariamente evidente. Em condições de baixa visibilidade, é possível descer para o vale errado. - • Dia 3 – Trechos sem trilha definida
Grande parte do circuito não possui trilha clara. A progressão é feita sobre rochas, lajes e campos de blocos. A navegação depende fortemente de aplicativo, GPS ou track previamente carregado. Caso a bateria do celular ou GPS tenha acabado, a chance de erro de rota aumenta significativamente, especialmente em áreas com múltiplas lagoas e vales paralelos. - • Dia 4 – Laguna Martillo e Paso Virginia
Há duas opções de percurso: a tradicional, que cruza áreas de turfa e terreno pantanoso, e uma alternativa mais à direita, contornando pela lateral da montanha. Esse setor possui poucas marcações visuais. Sem navegação digital, a orientação torna-se difícil.
É também o dia do Paso Virginia, considerado um dos pontos mais delicados da travessia. O início da descida apresenta inclinação acentuada, terreno instável e exposição ao vento. - • Dia 5 – Descida para Bahía Virginia
Embora tecnicamente menos perigoso, é um trecho onde é fácil se perder em meio à vegetação densa, áreas de pastagem e múltiplas trilhas secundárias abertas por animais. Após vários dias de esforço, a fadiga pode comprometer a atenção e a navegação.
Nota do Editor: Esta observação não é um alarde relacionado ao caso em questão, mas um alerta responsável a futuros interessados em percorrer essa travessia. No meu livro Patagonia, uma caminhada no fim do mundo, já ressalto que nem sempre a dificuldade de uma trilha está na altitude ou na distância, mas no ambiente em que ela se insere.
O Circuito Dientes de Navarino não é tecnicamente uma das trilhas mais difíceis em termos de extensão ou ganho de elevação, porém sua combinação de isolamento extremo, baixa circulação de trekkers, trechos sem trilha definida e clima altamente instável eleva significativamente o nível de risco. É o contexto que impõe o verdadeiro desafio.
Não há cabanas, refúgios estruturados ou pontos intermediários de apoio ao longo do percurso. A travessia é feita integralmente em regime de camping, com uso de barracas, o que amplia a exposição ao clima e exige planejamento logístico cuidadoso.
É um ambiente onde navegação, autonomia e capacidade de tomada de decisão são fundamentais. Pessoalmente, não considero uma travessia adequada para iniciantes, nem para condução comercial tradicional, sobretudo quando o cliente acredita que, por estar acompanhado de um guia, sua segurança está automaticamente garantida. Em ambientes remotos como esse, a responsabilidade é individual e permanente. A cada passo, cada pessoa precisa estar atenta, consciente e preparada para responder por si mesma.
É uma trilha que exige autossuficiência real: preparo técnico, domínio de navegação, capacidade de gestão de risco e margem logística, incluindo dias extras de alimentação para eventuais atrasos provocados pelo clima ou por imprevistos físicos. Em Navarino, autonomia não é opcional, é requisito básico de segurança.





