Houve um tempo em que escalar não era medido em metros, graus ou curtidas. Antes das agências, dos equipamentos ultraleves e das trilhas milimetricamente documentadas, a montanha era um território de incertezas — e por isso mesmo, um território de verdade. Ali, cada passo revelava mais sobre o caráter do alpinista do que sobre a rota escolhida. Doug Robinson, um dos pensadores mais profundos do montanhismo moderno, compreendeu isso cedo. Em 1972, ele escreveu sobre os “jogos” que movem os escaladores, e sobre os “tolos” que, sem perceber, perdem o significado do próprio caminho.
Hoje, meio século depois, suas ideias seguem precisas, quase proféticas.
Escalar continua sendo um jogo.
A questão é: que jogo estamos jogando?
O jogo da conquista — que transforma cumes em troféus — produz pressa, imprudência e vaidade. O jogo do medo — que impede avanço — produz paralisia. O jogo da técnica pelo status — tão comum — cria dependência de equipamento e ilusão de controle. E existe o jogo que Robinson considerava o mais noble: o jogo da consciência, onde o estilo importa mais que o resultado, e onde a ética define a própria experiência.
Nesse jogo, o escalador escolhe o risco que assume, sem impor perigo a quem está ao redor. Ele sobe com leveza, não para impressionar, mas para compreender. Respeita a rocha, a montanha e o parceiro — porque sabe que a integridade de uma ascensão não se mede em dificuldade, mas em honestidade.
A montanha, afinal, vê tudo. Ela observa quem se apressa e quem escuta. Quem confia demais no equipamento e quem confia no próprio discernimento. Quem busca aplauso e quem busca clareza.
O que Robinson nos lembra — e que vale repetir numa era de excesso de exposição — é que o montanhismo é, antes de tudo, uma disciplina moral. A prática externa revela a paisagem interna. O estilo revela o caráter. E cada decisão tomada no vazio vertical, por menor que pareça, é um gesto ético.
Ao resgatar esse pensamento, o Extremos aponta para algo que talvez tenhamos deixado cair no abismo da modernidade: a ideia de que a aventura só tem valor quando nos torna melhores. Mais leves. Mais íntegros. Mais conscientes do mundo e de nós mesmos.
O alpinismo não é um espetáculo. É um diálogo. E como todo bom diálogo, exige escuta, humildade e verdade.
O jogo continua. Cabe a cada escalador decidir se entra nele como jogador… ou como tolo.





