Aos meus filhos João e Helena De volta a Katmandu:
É preciso que o vento limpe o nosso rosto. Que a água nos lave em seu mergulho. É preciso que os músculos sejam fortes. É preciso da areia e da grama, do chão irregular em nossos cernes. É preciso se entregar ao nada. É preciso do céu para que os olhos enxerguem a alma. É preciso de mãos jovens para segurar as mãos já vividas. É preciso de surradas mãos para pregar os botões da alma. É preciso que a terra cubra nossas pernas para nos dar a direção correta de nossas raízes. É preciso não ter direção alguma. É preciso perdoar as palavras. É preciso escutar as nossas preces pelo mundo. É preciso espalhar as mãos por sobre o rosto. É preciso o carinho. É preciso um amigo. É preciso termos crianças a nossa volta. É preciso vê los crescer. É preciso envelhecer. É preciso ter tempo. Mesmo que não haja tempo, é preciso. É preciso esquecer-se dos olhos. É preciso ler um olhar. É preciso que hajam árvores, muitas árvores, rios sem fins e cachoeiras a limpar os nossos ombros. É preciso ver o nascer e o pôr do sol. É preciso regar florestas todos os dias. É preciso o silêncio. É preciso se molhar de chuva. É preciso escutar e sentir a música que sempre está a tocar lá fora. É preciso sonhar vendo as estrelas para assim desenharmos o dia. É preciso estar sereno em uma montanha. É preciso voar e ver lá de cima o mundo todo pequenininho. É preciso ter a dor para ser preciso. É preciso se banhar no mar. É preciso ter cheiros. É preciso de leve toque. É preciso saber do chão e da água que o alimenta. É preciso ser ao outro. É preciso romper-se com o fogo. É preciso estar. É preciso somente compreender que o imenso saber de nós mesmos é na verdade o mesmo e imenso saber em todos nós. É preciso amar e ser amado. É preciso soltar, ser um vento... E por um instante, nem que seja por um pequeno instante... é preciso que nada mais seja preciso.
Fiquem em paz meus amores. Até a volta!!!
Amo muito vocês. Saudades!
Um beijo,
Papai





