São 5 da manhã. O corpo desentendido se estende entre pequenos passos para cumprir o seu objetivo. O céu na mesma toada se pinta entre o enorme enxame de estrelas, a lua que vermelha ainda brilha no horizonte e o sol totalmente mágico que, sem nenhuma ofensa, inicia o seu reinado.
Em meu rosto o vento de menos muitos e muitos graus arde como uma navalha. O corpo exaurido pelo frio insiste em ir. Em algum momento já perto do cume penso em desistir. Porém em segundos de uma vida, em um fio de tempo, entendo o caminho que fiz para lá estar. Entendo cada pessoa que tive e tenho perto de mim. Entendo que somos todos como pontes que conectam e se constroem entre si. Somos onde estamos. Então entendo que para que este sentido seja inteiro é preciso cumprir o meu caminho, o meu Kilimanjaro em paz. E assim....levanto a cabeça. Esboço meu sorriso. E sigo, certo, firme, forte. Vamos eu João, o brave Rafael e o gigante Jamil.
João segue a minha frente. Não consigo ver seu rosto mas sinto em cada passo a sua exaustão. Posso saber dele por absoluto completo em meu mais pleno silêncio. Sua dança em suas pegadas. Sua conexão consigo mesmo.
Em passos de inspiração e expiração em fim chegamos ao cume do Kilimanjaro. Ele se vira. Com seu rosto todo coberto para proteger do frio, assim como o meu e nos abraçamos. E lá...no teto do mundo, ha 5.950 metros, depois de uma arrancada ao cume que começou a meia noite, em fim as 6 da manhã vencemos humildemente este maravilhoso gigante. Choramos em silêncio um no ombro do outro. Como se cada um entendesse da maneira mais completa possível o nosso caminho até ali.
Agradeci ao meu filho aquele momento em um suspiro de palavras. Palavras que se espalharam pelo vasto céu que ali era só nosso.
Nos viramos....E no planeta neste momento. Nesta exata lacuna do tempo vimos o nascer do sol mais inacreditável e bonito que pode existir. Abençoado pelas nossas escolhas. Pelo movimento. Pela sorte. Pelas nossas perdas. Pelo que somos e pela majestosa honra em honrar esta lindo planeta como os nosso olhos. Olhos de alma...e ali orei com a força de uma eternidade e em profundo silêncio por todos os meus.
Na volta...descemos a montanha que majestosa foi nos dando o ar que precisamos para ser e existir. Após 2 horas do cume Uhuro Pick encontro o meu pai. Nos abraçamos em encontros de almas. Completamos os 3 o cume do Kilimanjaro. Na pauleira total do limite fisico e principalmente mental cumprimos o nosso destino.
E aqui, no outro lado do mundo nós três caminhamos ainda por mais de 7 horas até o nosso acampamento. Fomos desopilando, nos reconhecendo e deixando o tempo simplemente ser. Fomos iguais, felizes e completos.
Fizemos. Done.
Agora, deitado em minha barraca penso no que lá do alto do ponto mais alto desta montanha falei abraçado ao meu filho:
Filho a vida deve ser obrigatoriamente feliz. Não deixe que ninguém te entristeça. Porque se você ficar triste tua alma não vera isso tudo.
Sr. Kili, o senhor é realmente fodíssimo. Absolutamente maravilhoso. Sincero. Um Deus. Cumprimos o caminho em uma rota alternativa de 7 dias. Pauleira do kasseta. Cumpri com Jõao os meus 5.950m. Meu pai em sua primeira montanha seus inacreditáveis 5.750m. Incrível esse meu pai...
A África é linda. Vasta. As pessoas são inacreditáveis. Música é o tom. Impecáveis. Sinceros e muito amigos.
Aqui viramos os simples... JOHNNIE WALKER, PAPA JON E BABU...
E aqui nos tornamos imbatíveis… unidos... aqui nos tornamos os caras mais sortudos deste mundo...
E vambora que ainda temos muito chão e oceanos pela frente.
Meus abraços aos inacreditáveis companheiros de escalada. Vocês são para sempre na minha vida. Obrigado. Valeu Agnaldo Gomes... você é o cara.
Meu filho João Barros e meu pai.
Amo muito vocês. Um beijo.
Asanti...
André Moraes Barros





