Depois que nasce nas entranhas da Serra da Canastra, em Minas Gerais, o Velho Chico ganha volume com a chegada dos afluentes até desaguar no Atlântico depois de 2,7 mil quilômetros, na divisa entre os estados do Sergipe e Alagoas.
Apesar do assoreamento e da escassez de peixes causados pela poluição e pelas sete barragens instaladas no rio, pelo caminho ele vai irrigando plantações, abastecendo cidades e inspirando o imaginário popular e a poesia brasileira. É também considerado quase um milagre da natureza, pois tem o capricho de correr "ao contrário", se estendendo do Sul para o Norte devido à falha geológica denominada Depressão Sanfranciscana. Durante muitos anos o rio era o principal caminho que ligava o sudeste ao nordeste do Brasil, chegando a ter 32 barcos a vapor fazendo a linha Pirapora (MG) a Juazeiro (BA) que levava carga, correspondências e pessoas que encaravam até um mês a bordo na subida do rio. Nesse intervalo aconteciam namoros, bailes, casamentos e até partos de crianças que costumavam ganhar o nome do barco e o apadrinhamento do capitão.
Em 1976, o produtor cultural Inácio Neves embarcou no Wenceslau Braz, um desses vapores que foi trazido do Mississipi (EUA) para navegar nas águas tranquilas Velho Chico. Nunca mais esqueceu dos cenários e pessoas que encontrou pelo caminho e em 2004 resolveu voltar a navegar pelo rio, dessa vez com um um projeto ousado. "Meu sonho era levar cinema para lugares onde a maioria das pessoas nunca tinha entrado em uma sala de exibição, levando o encantamento da sétima arte para comunidades ribeirinhas". Experiente em realizar projeções em praças públicas de Belo Horizonte, em 2004 Inácio pesquisou tecnologias que possibilitassem que as sessões acontecessem em lugares com pouca estrutura e difícil acesso. Desde então tem sido assim. Todos os anos uma expedição desce o rio a partir de Minas Gerais desembarcando em vilarejos, comunidades ex-quilombolas e cidades ao longo do caminho.
Ao invés de peças pesadas usadas em projeções convencionais, a tela é inflável, muito mais fácil de montar e desmontar. Em cada desembarque, o ritual começa. A poucos metros das margens do Rio São Francisco, um amontoado de lona vira uma telona de cinema em menos de 15 minutos. Diante dela, cerca de 200 cadeiras são distribuídas formando uma plateia ao ar livre.
E assim começa mais uma exibição do Projeto Cinema no Rio, que há oito anos leva a Sétima Arte para os rincões de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas. Além do filme da cidade, são exibidos curtas, animações e longas nacionais. Nesse ano, a expedição percorreu 13 municípios no norte de Minas, a partir da cidade de Pirapora até a cidade de Manga.
Segundo Inácio, a proposta de chegar às cidades de barco é colocar o São Francisco em foco e chamar atenção para o processo de degradação que tem assolado o rio, apesar de sua riqueza histórica, cultural, ambiental e econômica. "O projeto tem uma equipe enorme viajando, entrando em contato com as comunidades, pesquisando, conversando com as pessoas, colhendo os depoimentos sobre histórias do rio e colocando isso na tela", afirma o coordenador do projeto.
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