MONTANHISMO
Por: Elias Luiz  |  18.04.2013  •  22:33

Alterações Atmosféricas À medida que subimos em altitude, a capacidade de desempenho atlético diminui, a partir de altitudes tão baixas como os 1500 metros. Esta redução torna-se cada vez mais significativa, até atingir valores de 80% do VO2max e mais de 30% da FCmax a 8850 metros de altitude.

O principal motivo das alterações observadas é a diminuição da pressão atmosférica: dado que a nossa atmosfera atinge uma altitude mais ou menos constante em todas as regiões do planeta; em altitudes elevadas teremos um menor volume de ar por cima de nós. O "peso" desse ar por unidade de superfície (mm2) resulta numa pressão atmosférica inferior.

A diminuição da pressão atmosférica provoca a expansão das moléculas de ar, o que faz com que um determinado volume de ar inspirado tenha menos moléculas de oxigénio do que ao nível do mar. A percentagem de oxigénio mantém-se igual (cerca de 21%), pois a composição da atmosfera é constante até altitudes superiores a 20.000 metros. No entanto, a pressão parcial de O2 (quantidade de moléculas deste gás num determinado Volume de Ar) no cume do monte Everest diminui para cerca de 43 mmHg, em contraste com 149 mmHg ao nível do mar.

Paralelamente à diminuição da Pressão Atmosférica, dá-se uma drástica diminuição da humidade e da temperatura do ar. Estes dois factores encontram-se associados, na medida em que a diminuição da temperatura do ar provoca uma diminuição do ponto de saturação, isto é: quanto mais frio o ar se encontra, menos humidade consegue suportar sem que haja condensação. Assim, a diminuição da humidade relativa é, em termos absolutos, ainda mais significativa do que pode parecer, ou seja: uma humidade relativa de 30% num ambiente com uma tempreatura de -30ºC representa uma quantidade de "moléculas de água por Litro de Ar" muito inferior à que encontramos num ambiente com humidade relativa idêntica (30%) mas temperatura de 30ºC.

A diminuição da temperatura e da humidade contribuem também de forma significativa para a degradação da capacidade física. No caso da temperatura, o nosso organismo tem de gerir o fluxo sanguíneo de forma a conseguir levar o sangue a todas as regiões do corpo, mantendo o calor e ao mesmo tempo o trabalho muscular. A diminuição da humidade do ar agrava esta situação porque provoca um aumento da desidratação que dificulta ainda mais a manutenção da temperatura corporal e o "abastecimento" das células: a desidratação acarreta uma diminuição do volume sanguíneo e um aumento da viscosidade do sangue que dificulta a irrigação, especialmente ao nível das extremidades. A irrigação deficiente faz com que as células arrefeçam e/ou deixem de receber o oxigénio e nutrientes necessários, facilitando o aparecimento das congelações.

Adaptações à Permanência em Altitude Nos primeiros dias em altitude, a Ventilação aumenta consideravelmente, bem como a Frequência Cardíaca (e o débito cardíaco - volume de sangue bombeado por minuto). A difusão do oxigénio nos alvéolos pulmunares diminui, devido ao aumento do líquido intersticial (um "ligeiro edema pulmunar temporário"), que se resolve em 24-48h e à diminuição da sua pressão parcial, facto que se torna ainda mais importante em esforço, devido à redução do tempo de trânsito dos glóbulos vermelhos, provocado pelo aumento do débito cardíaco (aumento da velocidade do sangue nos pulmões).

O aumento da FC leva também ao aumento da pressão arterial pulmunar provocando a perfusão de maior número de capilares e aumentando assim a área total de trocas gasosas, na tentativa de contrariar a falta de oxigénio. A nível celular, aumenta a densidade capilar (número de capilares sanguíneos/mm2), número de mitocôndrias e concentração de mioglobina, registando-se também outras alterações enzimáticas que benefíciam o metabolismo aeróbio.

A nível sanguíneo, observa-se uma redução temporária do plasma circulante (5 a 10%) e um aumento da produção de glóbulos vermelhos, que demora várias semanas (6 a 8 para uma adaptação de 90%) a concluir (de cerca de 140g/L para 170g/L). A diminuição do plasma é muitas vezes agravada pela habitual desidratação, se não se aumentar consideravelmente a ingestão de líquidos. A permanência em Altitude (vários anos) conduz ao aumento do volume pulmunar e da capacidade de difusão do oxigénio.

Aclimatação Consiste na estabilização das adaptações fisiológicas mencionadas, ao longo de um período variável, consoante a altitude e as características individuais. Este processo consiste em alterações a vários níveis: estabilização da ventilação e Freq. Cardíaca (em patamares mais elevados); aumento da produção de glóbulos vermelhos; aumento da densidade capilar e da concentração de mitocondrias; regulação do pH sanguíneo e outras alterações a nível enzimático nos processos relacionados com a fonte aeróbia (ver: Fisiologia).

A duração do processo de aclimatação varia com a altitude em causa, mas pode dizer-se que até cerca dos 3000 metros, não é (normalmente) necessário um período de aclimatação, desde que não se realizem esforços violentos. A velocidade com que todo o processo se desenrola depende ainda das características individuais, como a condição física, hereditariedade e experiência. Sabe-se que aqueles que já aclimataram várias vezes a altitudes elevadas, conseguem adaptar-se mais rapidamente, mas as razões que levam a isto ainda não são consensuais.

Em termos estritamente fisiológicos, mesmo nas altitudes a partir de 2000 metros, o processo de aclimatação só estabiliza ao fim de pelo menos 2-3 semanas. Em altitudes na ordem dos 4500 metros já se recomenda 3 a 4 semanas e, a partir dos 5500 metros, pensa-se não ser possível uma aclimatação completa. As alterações de natureza respiratória e bioquímica costumam estabilizar ao fim de 6 a 8 dias. A nível sanguíneo, o aumento da quantidade de glóbulos vermelhos circulantes demora cerca de 6 semanas; ao fim de 10 dias, já se deram 80% das adaptações necessárias, mas são necessárias cerca de 6 semanas para se atinjir os 95% de adaptação.

Recomendações para o Processo de Aclimatação Estas recomendações são bastante consensuais, embora dependam de um grande número de variáveis. Vários fatores podem promover uma aclimatação mais rápida ou atrasar o processo, pelo que devemos sempre estar atentos aos sintomas de "Mal-de-montanha". Resta referir que, ao dizermos "...entre 3.000 e 5.000m...", referimo-nos à aclimatação desejável para actividades mantidas a estas altitudes e não a uma ascensão rápida e esporádica.

Até altitudes de cerca de 3.000m (a verde na imagem), para esforços de média intensidade, pode não ser necessária aclimatação. No entanto, recomenda-se uma estadia de 3 a 4 dias em altitude intermédia (cerca dos 2000m) ou a mesma estadia de 3 a 4 dias a 3000m, em repouso.

Entre 3.000 e 5.000m (a azul), recomenda-se um período de uma a três semanas, com um limite de ascenção de 300m/dia e um dia de repouso a cada 1000 m de ascenção. A somar ao período recomendado anteriormente, a aclimatação devia incluir uma nova estadia de 3 a 4 dias entre os 3700 e os 4000m.

A partir dos 5.000m (a vermelho), não basta progredir lentamente; devem-se realizar ascenções programadas, regressando a altitude inferior para pernoitar, permitindo assim uma recuperação mais rápida (cumprindo a velha máxima: "climb high, sleep low"). Como, À medida que a altitude aumenta, também aumenta o efeito das variáveis individuais, é fundamental que cada um acumule a experiência necessária, de forma gradual, melhorando o conhecimento que tem de si próprio e das suas reacções à altitude, de forma a aprender a reconhecer todos os sinais e sintomas que o seu organismo lhe possa transmitir, porque essa é a única forma de evitar complicações...

Conclusões Uma aclimatação correcta é a que permite ascender à altitude pretendida, sem a ocorrência do "Mal de Montanha".

Mal-de-Montanha (Acute Mountain Sickness - AMS) A doença de altitude ou "mal-de-montanha" aparece quando a aclimatação é inadequada e consiste em problemas como a dor de cabeça, náusea, vómitos ou anorexia e, em casos mais graves, edema pulmunar ou edema cerebral. O edema pulmunar pode ser confundido com uma gripe, já que os sintomas podem ser febre e congestionamento das vias aéreas. Em qualquer caso, desde que os primeiros sintomas não passem por si, recomenda-se o regresso a altitudes inferiores. Sintomas comuns: Dor-de-cabeça, náusea, vómito, fadiga geral, anorexia, tonturas e perturbações do sono; Sintomas extremos: consciência alterada, cianose, perturbações respiratórias graves, descoordenação motora (pode ser sinal do aparecimento de edema cerebral); Tratamento: repouso (se necessário, tratamento sintomático). Em casos graves: descida e/ou tratamento médico (câmara hiper-bárica e medicação adequada). O AMS pode evoluir para Edema Pulmunar ou Cerebral, casos em que é necessária a descida imediata, oxigénio e tratamento médico especializado.

Edema Cerebral Sintomas: descoordenação, confusão, perda de memória e alucinação, bem como dor de cabeça persistente. Normalmente também existe cianose e edema pulmunar; Os sintomas são habitualmente mais notórios ao amanhecer e entardecer; Sempre que se detectem os sintomas, o indivíduo deve ser forçado a descer, uma vez que a ataxia (descoordenação e desequilíbrio) evolui rapidamente; As vítimas devem ser impedidas de voltar a subir, mesmo depois de desaparecerem todos os sintomas; No caso de perda de consciência, a vítima deve ser hospitalizada rapidamente.

Edema Pulmonar Consiste no preenchimento dos alvéolos pulmunares com líquido intersticial, proveniente dos capilares (devido à hipertensão pulmunar); Tem maior incidência (>10X) em jovens (10 aos 18 anos). Sintomas: dificuldade respiratória e fadiga anormais; fraqueza; sensação de aperto no peito; tosse persistente, que começa por ser seca, mas evolui para espectoração esbranquiçada e (mais tarde) ensanguentada; cianose (tom azulado nas extremidades, lábio, etc, consequência da falta de oxigenação); perturbações da consciência, delírio, comportamento irracional. Tratamento: descida imediata, oxigénio e/ou câmara hiperbárica; tratamento médico especializado.

A nível sanguíneo, observa-se uma redução temporária do plasma circulante (5 a 10%) e um aumento da produção de glóbulos vermelhos, que demora várias semanas (6 a 8 para uma adaptação de 90%) a concluir (de cerca de 140g/L para 170g/L). A diminuição do plasma é muitas vezes agravada pela habitual desidratação, se não se aumentar consideravelmente a ingestão de líquidos.

A permanência em Altitude (vários anos) conduz ao aumento do volume pulmunar e da capacidade de difusão do oxigénio.

Uma aclimatação correcta é a que permite ascender à altitude pretendida, sem a ocorrência do "Mal de Montanha".

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