AVENTURA
Por: Elias Luiz  |  14.03.2012  •  07:00

Um dos desafios a que me propus realizar no Irã era subir o Monte / Vulcão Damavand, um pico lendário, cartão postal, marca de água mineral, nome de estabelecimentos e ruas no Irã. Fazer montanhismo no Irã é algo bastante popular, inclusive para muitos senhores e senhoras com cabelos já bem branquinhos. Há várias lojas de equipamentos específicos, inclusive uma região no centro de Teerã com dezenas e dezenas de lojas uma ao lado da outra só com artigos do ramo (montanhismo, esqui, etc).

Iniciamos os treinos específicos com quase 2 meses de antecedência, frequentando trilhas de 15 a 20 km de extensão, em altitudes de 3 a 4 mil metros. Em Teerã, este local de treino é de fácil acesso, visto que a cidade já encontra-se a quase 2 mil metros de altitude, e ao norte da capital há uma excelente cadeia de montanhas com um dos seus picos (Tochal) chegando a seus 4 mil metros. Nesta mesma montanha há um extenso teleférico que leva trilheiros e amantes do esqui ao topo. Alguns de nossos treinos resumiam-se a subir todo o pico a pé (levando de 6 a 8 horas) e a fazer a descida pelo teleférico, poupando nossos joelhos.

Para o Damavand, contratamos uma guia local para nos levar ao pico, e que após uma rápida entrevista concordou em nos levar em um pacote de 3 dias. Normalmente, para esportistas que vêm treinando apenas no nível do mar, é recomendado que a subida seja feita de 4 a 5 dias para uma boa aclimatação.

Nosso grupo resumiu-se a 5 elementos: eu, Rafael e Eduardo (nosso amigo brasileiro que também mora no Irã), juntamente com a guia e seu auxiliar cozinheiro. O pacote nos custou aproximadamente 500 dólares por pessoa, com toda a comida inclusa, alojamento no acampamento a 4200 metros e orientações diversas. 1º dia (19/08/2011) Saímos de casa às 7 da manhã com destino à base da montanha. Para economizar nos custos, recusamos um carro para nos levar até o acampamento base, fato que quase nos arrependemos, pois foi com muito custo que conseguimos colocar todas as mochilas, mantimentos e garrafas d'água dentro do nosso "aparente espaçoso" Kia Sportage. Em um lugar improvisado na associação dos montanhistas do Damavand, tomamos um reforçado café da manhã com direito a pão, geléia, queijo, café (com leite condensado - opcional), chá. Ali deixamos nosso carro e deste ponto em diante prosseguimos em um carro pouco convencional: uma lata velha que diziam ser 4x4, com direito a teto com neon azul e tela de LCD passando clipes de músicas nada islâmicas. Durante o trajeto, tentei me conter, mas não consegui deixar de solicitar ao condutor que reduzisse a velocidade especialmente nas curvas sem proteção alguma da estrada. Eu realmente não estava disposta a confiar que os freios iriam funcionar naquelas condições. E eu que pensava que passaria por algum risco só na montanha.... Chegando ao acampamento base, pegamos nossas mochilas e ficamos aguardando. Cada um recebeu um "kit lanche" para o primeiro dia na trilha: pepino, banana, pistaches, balinhas, suco em caixinha, além de uma garrafa grande de água que logo despejei no meu Camelbak. Iniciamos a trilha apenas com as mochilas de "ataque" (pequenas) com o essencial (comida, casaco, câmera). As mochilas grandes com nossos sacos de dormir e roupas extras seguiriam com mulas até o acampamento a 4200 metros. Devo dizer que este primeiro dia foi bastante tranquilo comparado com os treinos que vínhamos fazendo. Foram apenas 6 horas de trilhas morro acima. Na etapa final, já acima dos 4 mil metros, era evidente o aumento de esforço para vencer um pequeno trajeto, mas não foi nada demais e durante praticamente todo este primeiro dia, conversamos e contamos piadas. Ao chegarmos no abrigo, quase me desesperei. Ao redor, centenas de barracas anunciavam a lotação do local. Entramos no alojamento e ficamos aguardando no frio refeitório. Já estava procurando um canto do refeitório onde poderia me encolher durante a noite, já que não havíamos trazido barracas. Porém, nada como ser estrangeiro num país hospitaleiro: o "gerente" do abrigo deu um jeito e nos colocou para dormir no depósito deles, um pequeno quarto cheio de colchonetes empilhados, sacos de dormir e garrafas d'água estocadas que deixavam o ambiente até bem quentinho e mais privativo que o grande salão com dezenas de beliches que já estava lotado. Senti-me super VIP ali.

2º dia (20/08/2011) Levantamos antes do amanhecer do sol para tomar café. Este seria o grande dia e comi bastante no café da manhã, estimulada também pelo frio da altitude. Engoli 2 aspirinas, só para garantir. Todos fizeram o mesmo (o ácido acetilsalicílico tem efeito vasodilatador, aumentando a eficácia da absorção de oxigênio). A trilha era por um vértice da montanha, cheia de pedras e cascalhos soltos. Não fosse por este trajeto, prosseguiríamos por dunas de areia que nos prejudicariam na conquista do cume. Melhor por ali, segundo nossa guia. Porém, em muitos pontos, eu tinha que me concentrar apenas no metro de pedras a minha frente, pois olhar para os lados me dava vertigem. Os bastões de trekking mostraram-se essenciais para esta montanha! Tentamos empreender o mesmo ritmo de conversas e piadas do primeiro dia, mas logo percebemos que isso não seria possível. Caminhávamos muito lentamente, e eu me concentrava para inspirar e expirar no ritmo de 2 passos lentos. Da metade do trajeto em diante, passei então a inspirar e expirar no ritmo de apenas 1 passo lento. Ninguém falava mais nada. O Rafael começou a sentir mais fortemente a altitude, tendo dores de cabeça e náuseas. A guia tomou sua mochila de ataque para aliviar seu peso, facilitar o avanço na montanha e diminuir o desequilíbrio. Era bastante perigoso (até mesmo fatal) qualquer escorregão ou "saída" da trilha. Também foi preciso fazer várias paradas extras para descanço, mas ninguém reclamou, muito pelo contrário. Faltando uma hora e meia para alcançarmos o cume, nossa guia fez uma parada "oficial" para descanço e lanche. Nos advertiu então que a última etapa seria a mais difícil, com o solo transformado em pura areia fina e o ar infestado de gás sulfúrico. Não seria adequado fazer novas paradas neste trajeto. Alguns dizem que o Damavand é um vulcão extinto, outros que está apenas adormecido; na minha opinião ele está é bem "vivinho" cuspindo sem parar este gás nojento para nos advertir que não deveríamos estar ali. Prosseguimos e logo percebi o grande esforço que estava por vir. Toda a minha mente estava focada em respirar, caminhar e seguir os pés da guia. Eu só olhava para o chão, no máximo a 3 ou 4 metros a frente. Olhar para o pico era mais um esforço que eu evitada nesta etapa final. Meus olhos ardiam muito, mesmo usando óculos de esqui, e com¨eçaram a lacrimejar. Esfregar o olho era pior, pois faria o pó contaminado entrar na cavidade. Eu conversava comigo:

"Concentração... Um passo - inspira, expira... Esqueça os olhos. Eles ficarão melhores depois que você sair daqui. Um passo - inspira, expira... Ainda bem que eu vim sem lentes de contato. Um passo - inspira, expira... Você tem que chegar. Falta pouco. Agora não pode voltar. Um passo - inspira, expira..." De repente a guia parou e sentou. Mas ainda não estávamos no pico. Faltava tão pouco... Então entendi que ela queria que nós chegássemos ao pico antes dela, como uma última gentileza de montanha. Fui em frente e os meninos colaram em mim. Faltava tão pouco e chegamos juntos.

Chegamos! Cheguei! (...) Posso chorar agora?

Foram quase 11 horas até o cume. Batemos algumas fotos, apreciamos a cratera. (Não é que tinha um louco acampado bem no meio?) Infelizmente nosso tempo no topo era curto, tanto pela altitude quanto pelo gás sulfúrico ou pela enorme descida que teríamos que fazer, preferencialmente, durante o dia.

A descida fizemos por outro caminho, pela parte de dunas, onde podíamos dar passos largos que naturalmente eram amortecidos pela fina areia. Mesmo sendo descida, durou uma eternidade, já que o trajeto era longo e estávamos bem cansados, especialmente o Rafael com a náusea de altitude.

No abrigo comemoramos com um jantar bem quente e brindamos no nosso quarto-depósito* com alguns goles de conhaque.

*nesta segunda noite tivemos a opção de mudar de local para dormir, mas preferimos permanecer no depósito, que era privativo e quentinho.

3º dia (21/08/2011) Hoje não éramos obrigados a acordar cedo, mas queríamos ir para casa logo, ao encontro de um chuveiro bacana com água encanada quente. No Damavand banheiro propriamente dito é um luxo inexistente e a única água encanada disponível para higiene, era um cano de plástico vindo com água congelante da montanha que desembocava quase grudado no chão em meio a pedras. A grande demora de nossa descida neste 3o dia foi o atraso das mulas. Após o café da manhã, esperamos mais de 2 horas para finalmente iniciarmos a descida. Nenhuma grande novidade nesta etapa de descida, apenas o fato de termos encontrado um grupo de umas 20 pessoas cantando e tocando em um determinado ponto da trilha.

Missão cumprida! Caroline Dutra www.coordenadaxy.com

Dados técnicos do Monte Damavand: • Altitude: 5671 metros. • País: Irã • Maior pico do Oriente Médio. • Maior vulcão da Ásia. • Segundo maior vulcão do hemisfério norte. Sites com mais informações: http://damavandmt.blogspot.com/ http://www.damawand.de/

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