O diagnóstico soava definitivo: um câncer na próstata daria a Lucas Freitas menos de dois anos de sobrevida. A doença vinha em um momento de serenidade - prestes a cruzar a barreira dos 30 anos, ele estava apaixonado pela publicitária Sandra Chemin e esperava uma filha, a primeira de ambos. Era necessário remanejar os planos, tentar encaixar em dois anos o que se imaginava fazer em uma vida inteira. Em uma noite, os dois deitados na banheira do apartamento que dividiam, ela perguntou o que ele faria com tão pouco tempo. Lucas falou de seu desejo de escrever ficção, mas confessava-se pouco inspirado para a tarefa. Deveria acumular certa experiência e, para isto, queria navegar pelo mundo. Eles não eram totalmente ignorantes no assunto - já haviam velejado em monotipos, aqueles barcos pequenos que não se afastam muito da praia. Mas manejar um barco capaz de atravessar mares durante tempestades era outra história. Não havia problema - eles aprenderiam.
Nas semanas seguintes, o casal se ocupou em “empacotar” a vida que levava em São Paulo e procurar o tal barco, ao mesmo tempo em que enfrentava a dura rotina de exames e consultórios médicos. Até que o resultado de uma nova biópsia trocou o câncer por uma infecção cabeluda, mas reversível. Em um mês, Lucas estava curado. “Nesta altura, a cabeça já havia mudado.” O câncer ficara para trás. O desejo de rodar o mundo de barco, não. Sandra e Lucas voltaram ao trabalho - ela como vice-presidente da Ogilvy Interactive (braço da agência de propaganda Ogilvy), ele como jornalista. Quando a filha Clara completou 1 ano, o casal bancou a experiência. “Fizemos a despedida no meu aniversário. Brincamos que era a festa do ‘triplo T’: trinta de julho, meus trinta anos e tchau”, diz Lucas.
Nas Ilhas Jersey, mais conhecidas por oferecer benesses fiscais do que vender produtos náuticos, Lucas e Sandra compraram um barco usado de 39 pés. Deram o sugestivo nome de Santa Paz, exatamente o que sentiam agora. Com a ajuda de comandantes contratados, zarparam da costa francesa, passaram pela Espanha e alcançaram Portugal. Era o momento de arriscar a primeira viagem-solo, sem tutores e com Clara a bordo. Antes, porém, a família decidiu voltar (de avião, claro) ao Brasil para romper os últimos laços: o apartamento foi alugado e o carro, vendido. A partir dali, a vida seguiria de porto em porto.
De Portugal à Grécia foram meses de viagem. A família aportou em Ítaca, ilha nas águas calmas do mar Jônico, onde reinou Ulisses - ou Odisseu, para a mitologia grega. “Por coincidência, fiz a viagem lendo a Odisseia [o épico de Homero que descreve o regresso de Ulisses a sua terra natal]”, diz Lucas.
Trégua grega A estada na costa grega durou 30 dias, período longo para quem tinha se acostumado a mudar constantemente nos últimos meses. Aquele havia sido um ano intenso para a família: relacionamento novo, o diagnóstico errado, pais estreantes e navegantes de primeira viagem. “Percebemos que era hora de parar um pouco com a ebulição emocional.” A aventura marítima deu uma pausa. Na trégua em terra firme, os três acabaram se tornando amigos dos moradores locais. Um dia, voltando da rua, encontraram uma senhora chorando ao lado do barco. Emocionada, ela contou que era brasileira, soltou algumas palavras num português enferrujado e adotou a família como se fosse sua: levava pão para o barco antes de o sol nascer e ensinava, pacientemente, o processo de extrair azeite de olivas. “Sinto saudade até hoje daquele azeite”, diz Lucas.
Com o barco parado e o tempo correndo, Lucas e Sandra refizeram os planos. “Quando você está na lida corporativa, um ano é uma barbaridade de tempo”, diz ele. Para rodar o mundo em um barco, não. Os planos para a segunda temporada em alto-mar tiveram de ser adiados. Em Menorca, Espanha, Sandra descobriu que estava grávida e o casal decidiu ter o segundo filho (seria outra menina) ao lado dos parentes. Chegava o momento de o Santa Paz conhecer o Brasil. A volta foi dividida em etapas: Europa, Ilhas Canárias, Cabo Verde e Fernando de Noronha. Sem Clara a bordo (a menina viajou de avião com a avó), o casal cruzou o Atlântico. Júlia nasceu e a família fixou residência em Paraty.
Educação a bordo Na cidade carioca, o casal retomou a carreira. Sandra virou consultora de empresas do terceiro setor e Lucas organizava expedições ou workshops dentro do Santa Paz. Na teoria, Paraty deveria durar seis meses. Na prática, foram quatro anos. A vida começou a assentar e a possibilidade de retornar ao mar para completar a volta ao mundo diminuiu. “O problema é que comecei a me sentir como o paizão de pijama na sala”, afirma Lucas. Sandra queria continuar em terra firme. O paizão decidiu, então, navegar sozinho. Foram mais cinco meses pela costa brasileira com clientes, em expedições.
A vida seguia assim. Ela na terra, ele no mar, voltando a Paraty quando a saudade apertava. Até que no Natal de 2009 Sandra tirou férias e foi encontrá-lo com as filhas em Trinidad & Tobago com data para voltar ao Brasil. A saudade do mar, porém, foi maior. De lá, a família completa continuou a viagem ao mundo. Agora, o Santa Paz está na Polinésia Francesa. Sandra e Lucas se alternam nos papéis de comandantes do barco e professores de Clara e Júlia - a “educação a bordo” foi o jeito encontrado para seguir viagem sem comprometer a formação das meninas.
Em quatro anos, quando o barco tiver singrado os principais oceanos do mundo, a família deve retornar ao Brasil - mais pela questão financeira do que pela vontade. As expedições, a renda do aluguel de imóveis e os investimentos financeiros do casal não cobriram totalmente a aventura marítima. Navegar pelo mundo ainda é uma forma de viver gastando, e não ganhando dinheiro. “Teremos de voltar para repor nossas reservas”, diz Lucas. E depois? Quem navega, sabe: o mar sempre volta a chamar. Acompanhe a expedição pelo site oficial: www.santapaz.com
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