AVENTURA
Por: Elias Luiz  |  12.06.2011  •  07:00

Cidade Inca se torna um dos locais mais visitados do mundo

Hiran Bighman era um desses caras que muda de opinião de acordo com o sabor dos acontecimentos. Um sujeito, diríamos, pouco confiável. Mas foi essa característica maleável de seu caráter que lhe garantiu o posto de um dos maiores descobridores do século 20. Em 24 de julho, completam-se 100 anos que esse norte-americano mostrou para o mundo a até então cidade perdida de Machu Picchu, escondida entre uma floresta densa e as montanhas dos Andes, no Peru.

Para lembrar a data comemorativa de um dos lugares mais enigmáticos do planeta, o caderno Viagem esteve na cidade e também em Cusco. Se, inicialmente, o pouco oxigênio incomoda, o que o olhar e os sentidos registram se torna compensador.

Para o arqueólogo peruano Fernando Astete, do Instituto Geográfico Nacional del Peru e também diretor do complexo de Machu Picchu, Hiran Bighman não foi um descobridor, já que a existência do lugar era de conhecimento de muitos. “Inclusive, estava nas terras de um fazendeiro, Agustin Lizárraga, e tinha quatro famílias de camponeses morando nas ruínas”, assegurou Astete. “Mas ele teve seus méritos”, emendou, acrescentando que a forma correta de escrever o nome da lenda é Machu Picchu, assim mesmo, tudo junto.

Além de um século na vitrine do turismo e da ciência, Machu Picchu começou a receber de volta as peças arqueológicas saqueadas por Hiran Bighman e enviadas para a Universidade de Yale (EUA). São 42 mil delas, que começaram a chegar no último dia 5 de abril. As peças saíram do Peru na época e, pelo acordo, voltariam pouco tempo depois. O trato levou 100 anos para ser cumprido. Uma prova inequívoca de que Bighman tinha em seu DNA aquilo que é comum nos descobridores: a ganância.

Sonho mais caro

Só não mudaram as pedras. De resto, é tudo novo em Machu Picchu. Quem foi há 10, 15 anos no mais famoso parque arqueológico do Peru sente a diferença. No panorama anterior, em função das facilidades e do baixo preço, o lugar era povoado de mochileiros, em números que pareciam fora de controle; um formigueiro de roupas coloridas, sorrisos e aquela alegria contagiante dos vinte e poucos anos. Muitos desses frequentadores vinham da não menos famosa trilha inca, um caminho que corta por três dias as montanhas até chegar na cidade perdida.

Tanto a trilha quanto Macchupichu continuam seguindo como sonho de consumo de milhões de jovens no mundo - presumivelmente mochileiros - que têm como meta ter contato com essas pedras e seus múltiplos significados. No imaginário do aventureiro, a cidadela inca surge como um objetivo a ser alcançado. Mochila nas costas e aquele sonho na cabeça.

Ir para Machu Picchu tornou-se bem mais caro. Se nos bons tempos pagavam-se pouco menos de US$ 100 para fazer a trilha inca e ainda passar o dia na cidadela, hoje não se faz esse pacote por menos de 400. Isso porque, numa atitude condizente com o bom senso, o governo peruano resolveu aumentar os preços e controlar a frequência, limitando o número de visitantes por dia, inclusive na trilha inca. Numa conta simples, diminuiu o impacto provocado por milhares e milhares de visitantes e não perdeu o faturamento com os ingressos. Você está em solo sagrado Cusco foi a capital do império inca e atualmente é um dos pontos de partida para quem quer explorar Machu Picchu. A cidade tem pouco mais de 400 mil habitantes e uma arquitetura singular, com casas e ruas com mais de 400 anos de história. Bem servida de hotéis, restaurantes, bares e lojas, tem uma noite eletrizante, todos os dias da semana, com embalos que começam pouco depois das 22h e se estendem até os primeiros raios de sol. Os preços são bem compatíveis com os praticados no Brasil, sem exploração.

Um cuidado bem necessário diz respeito aos táxis. Tanto em Cusco quanto em todo o Peru eles não são controlados pelas autoridades. A maioria da frota é de carros bem antigos, alguns verdadeiros milagres sobre rodas por ainda conseguir se movimentar. A dica é pedir opinião dos moradores sobre a conveniência ou não de ir em um ou outro. Pedir pela recepção do hotel ou restaurante pode ser boa alternativa. Também, como no resto do país, eles não têm taxímetro e o preço da corrida deve ser combinado antes. Geralmente, são bem mais baratos que no Brasil.

A nordeste de Cusco, o Vale do Rio Urubamba é conhecido como Vale Sagrado dos Incas. Lá estão, nas alturas (sempre acima de 2 mil metros ou muito mais), pequenos pueblos (povoados) e diversas ruínas de santuários, fortalezas e outras construções de pedras, de diferentes épocas dos incas. E também muitas fazendas e camponeses na lida diária com a agricultura. Vale Sagrado porque sua terra é extremamente fértil, uma bênção para os pratos mais fartos. Foi um dos principais pontos de produção pela riqueza de suas terras e o lugar onde se produz, até hoje, o melhor grão de milho (choclo) no Peru.

Saiba mais Os incas foram uma grande civilização que dominou uma extensa faixa de terras pelo território sul-americano, notadamente na região dos andes. O centro do império ficava na região de Cusco e teve como primeiro grande líder Manco Capac. Por volta do século 15, os incas aceleraram um processo de expansão territorial que buscou os planaltos encravados entre as montanhas andinas e as planícies do litoral do Oceano Pacífico. Sob o comando do imperador Pachacuti Yupanqui (aquele que teria ordenado a construção de Machu Picchu), outras populações foram militarmente subordinadas ao seu poderio. “O Inca” (imperador) era venerado como o descendente do deus-sol Inti Raymi. No ano de 1571, os remanescentes desta civilização foram subordinados após a morte de seu líder, Tupac Amarú I, perpetrada pelos espanhóis invasores. Foi o último sopro desse povo.

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