BIKE
Por: Elias Luiz  |  20.07.2009  •  00:18

São mais de 700Km à pé ou de bike por estradas rústicas e asfalto passando por lugarejos isolados. Mesmo com todo desconforto fazer o Caminho de Santiago atraí cada vez mais pessoas do mundo todo.

Uma pesquisa rápida entre as pessoas que estão no Caminho de Santiago revela que o que as inspirou a iniciar esta jornada foi a leitura do livro do Paulo Coelho, conhecido no Brasil com o título de Diário de um Mago, com outros títulos em diferentes idiomas. Surpreso? Não dá para afirmar com certeza se a edição do livro em outros idiomas foi responsável pela descoberta do Caminho de Santiago ou pela revitalização ou até mesmo pela superlotação do mesmo. Por outro lado ainda que geograficamente próximos ao Caminho muitos europeus jamais ouviram falar nesta via de peregrinação.

Chamar o Caminho de Santiago, atualmente, de uma via de peregrinação e as pessoas que o frequentam de peregrinos, é apenas uma generalização, pois, o que o Caminho de Santiago menos tem é peregrinos de fato. Mesmo porque seria difícil selecionar, entre tantos caminhantes, quem são os verdadeiros peregrinos e nem é esse o objetivo de quem administra o Caminho de Santiago. Não se faz uma rigorosa investigação para saber quais são os verdadeiros motivos de cada viandante, apenas uma estimativa.

O Caminho de Santiago é uma via aberta para quem quiser e puder ir desfrutar dela como quiser e pelo tempo que quiser. Se for a passeio, ou uma oportunidade para conhecer pessoas e fazer amizades ou namorar. Se for em busca de autoconhecimento ou de superação. Se for para pensar na vida, para ter tempo para si mesmo antes de tomar uma decisão importante, isso tudo, embora incomode os mais antigos, pouco importa para a maioria que sobrevive do Caminho.

Há pessoas de todos os continentes transitando pelo Caminho. Falam o tempo todo. Impressionantemente, fala-se mais dialeto que um idioma padrão. Quando em grupos os espanhois falam seu dialeto da sua província e não espanhol que você estudou para falar no Caminho. Mas não deixe de estudar espanhol, pois, falar o idioma deles o torna mais simpático, já que não os obriga a falar o nosso ou o inglês.

Quem vai fazer o Caminho de Santiago por motivação religiosa precisa estar consciente que o que menos vai encontrar é religiosidade no Caminho. As igrejas e catedrais estão lá, nem sempre abertas, os padres e freiras são raros. Silêncio, nem mesmo nas igrejas poderá ser encontrado. A maioria das pessoas que fazem o Caminho sequer entra nas igrejas. Não teem religião ou não seguem a religião católica. Mas isso não as impede de estar ali. Para o peregrino religioso, o Caminho pode ser uma provação e uma lição de como viver na prática e no dia a dia os preceitos cristãos. Se a pessoa se apegar a ideias pré-concebidas poderá odiar a experiência, mas se estiver aberta para o que for aparecendo poderá deixar muito do que trouxe consigo para trás e voltar para casa mais leve. De certa forma o Caminho depende dos turistas para sobreviver. E não se deve menosprezá-los, pois, graças a eles o Caminho está ativo. Do contrário poderia não existir mais.

O Caminho de Santiago tem muitos caminhos, diferentes pontos de partida. Na verdade, pode-se começar o Caminho desde onde se mora. Todavia, o percurso mais famoso e mais frequentado é o chamado Caminho Francês que pode iniciar-se na cidade de Saint Jean Pied-Port (Fr) ou em Roncesvalles (Es).

Para quem opta por fazer o caminho longo deve estar preparado para andar em média 27 Km por dia durante pelo menos 30-34 dias. Há determinadas épocas que são mais propícias para ir ao Caminho. Em geral recomenda-se o final de maio e junho e depois final de setembro até meados de novembro. Meses antes e depois a temperatura já está mais baixa e nem todos os albergues estarão abertos. O período de verão é desaconselhável devido à superlotação. Quem optar pelos meses de julho, agosto e setembro terá que enfrentar o calor, a falta de lugar para pernoitar, mais barulho e os preços altos.

A Associação dos Amigos de Santiago concederá o certificado de peregrino (Compostelana) a quem fizer os últimos 100Km à pé e os últimos 200Km de bike. Portanto não é necessário fazer todo o percurso do Caminho Francês. Há quem diga que fazer apenas 100Km não é fazer o Caminho, então é possível fazer o Caminho em etapas. Um pouco a cada ano. Por outro lado, oferecer uma alternativa àqueles que não podem ou não tem condições de ficar tanto tempo ausentes de suas tarefas é uma solução aceitável. Ela permite que muitas pessoas, de todas as idades, possam ter a experiência única de chegar à Santiago de Compostela e abraçar o Santo.

Seja qual for o objetivo, ele será constantemente testado. A única mágica possível é estar 100% aberto. O Caminho é, na verdade, invisível.

Ele está lá fisicamente, mas só existe para quem o trilhar passo a passo. Se for em busca de algo extraordinário, se for tentar repetir a experiência de algum livro, poderá se decepcionar.

O que fica do Caminho é a sensação de que se superaram alguns obstáculos para transpô-lo: noites mal dormidas ao som da sinfonia do ronco, dormir em beliches com mais de cem pessoas no mesmo ambiente. Tomar banho rápido porque tem uma fila na porta que também precisa tomar banho. Lavar a roupa no banheiro, comer sanduba por um mês, respirar fumaça de cigarro enquanto está comendo no restaurante ou no bar, acordar cedo porque a maioria acorda e começa a mexer nas coisas, suportar dor muscular, bolhas nos pés, sol, poeira, chuva, vento gelado,longos trechos sem uma alma viva, nem sombra, nem banco para sentar, nenhum bar para tomar um café con leche, uma cervesa, um refri bem gelado, un vaso de vino , água de fonte, ou comer um bocadillo, um menu del peregrino. E chegar a vilarejos onde não há nada, nem ninguém, ou nada haveria se os peregrinos não passassem por aquele lugar. Ser tratado como um invasor pelos Bascos e com carinho pelos burgueses e castelhanos, e no fim ser ignorado pelos galegos.

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Rafael SilvaLeitor de Rocky Mountains

"Adorei Elias! Senti emoção, medo, achei que você é maluco, senti saudades, fiquei com vontade de fazer a trilha, e no final desisti… mas não de fazer trilhas tá! Só desse final perigoso! Parabéns pelo livro, pela coragem e determinação! Parabéns por nos inspirar, por fazer olhar o mundo de diferentes formas. Por nos mostrar que devemos sair da rotina, sentir a natureza, viajar… e o que mais precisamos é ter um coração em paz e bons amigos!"

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"Obrigada Elias, o livro é sensacional! A riqueza de detalhes impressiona, devorei o livro ontem a noite, em muitos momentos me emocionei e me senti caminhando contigo a cada parágrafo que ia lendo. Você conseguiu passar a emoção vivida, e isso é sensacional pra nós leitores! Não vejo a hora de estar lá!"

Anelize Damy Leitora de Tour du Mont Blanc

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