Religiosos promovem 'escalada pela paz' na 2ª maior montanha da África. Além da subida, o desafio de superar conflitos que levaram à guerra.
Sem fôlego, exausto e congelando de frio, Alex Kachu tinha apenas mais alguns passos pela frente.
Após dois dias de caminhada através de florestas e lamaçais, ele viu o pico da montanha bem ali, logo acima dele, assustador como um gigante, um dente preto borrado pelo sol.
Mas Kachu, estudante colegial de 18 anos que cresceu numa favela, estava exausto. Ele havia passado a noite anterior numa gelada casa de pedra infestada de ratos. Ele havia vivido de biscoitos nos últimos dois dias. Ele havia sido encharcado até os ossos por uma mistura de chuva, granizo e neve, clima atípico para a linha do Equador na África.
“Não estou me sentindo muito bem”, disse ele.
E ninguém mais estava.
Esse foi o momento decisivo da escalada pela paz, evento organizado por um grupo de padres italianos neste mês para reconciliar os grupos étnicos rivais que massacraram uns aos outros depois das eleições no Quênia, em dezembro.
A idéia era unir cerca de 25 pessoas de diferentes classes sociais e etnias - como kambas, kikuyus, luos e luhyas, para mencionar alguns - e vencer um obstáculo juntos. Esse obstáculo era o cume do Monte Quênia, todos os 4.876 metros dele, a segunda maior montanha na África depois de Kilimanjaro, na Tanzânia. O Monte Quênia é considerado difícil, mas viável para amadores. Embora o topo seja escarpado e nevado, nenhum equipamento especial é necessário para alcançá-lo.
Isso era uma coisa boa, já que a maioria dos escaladores, como Kachu, nem chegavam a ser montanhistas. Eram estudantes, músicos, treinadores de futebol, ambientalistas locais e havia até mesmo um membro do parlamento. Muitos vieram das cidades pobres ao redor de Nairóbi, capital do Quênia, e nunca haviam estado num lugar tão alto, ou tão frio, antes. Eles se apresentaram para a escalada em jaquetas finas e calças jeans, bonés de beisebol e luvas de algodão. Durante a subida, alguns envolveram seus pés em sacos plásticos para mantê-los quentes e os enfiaram em botas emprestadas e úmidas.
Quando o grupo saía do estacionamento de uma igreja em Nairóbi, o reverendo Daniele Moschetti, organizador da escalada, acenou com a cabeça e disse, “Rezem por nós”.
O Padre Dan, como é conhecido o organizador, havia trabalhado nas favelas de Nairóbi por 11 anos. Ele disse ter testemunhado em primeira mão a violência que explodiu depois que as eleições fraudulentas em dezembro afundaram o Quênia em sua crise mais profunda desde sua independência em 1963. Mais de 1.000 pessoas foram mortas e estima-se que um milhão tenha sido desalojada
em batalhas motivadas por política, disputas de terras, diferenças sociais e antigas tensões étnicas. Um governo de poder compartilhado eventualmente trouxe fim ao derramamento de sangue. Mas as tensões - e memórias - ainda estão frescas.
“Aquilo não foi um conflito”, disse Padre Dan. “Aquilo foi uma guerra.”
Mas ninguém falava de verdade sobre a guerra enquanto se dirigiam à montanha. A viagem de ônibus foi cheia de piadas, como o músico chamado Gidi Gidi, que dizem ter trazido uma enorme mochila que era três vezes maior que a de todos os outros.
“O que você tem aí dentro, Gidi Gidi, um forno?” perguntou Jacob Mulee, treinador de futebol e ex-estrela do esporte conhecido como Treinador Fantasma por sua habilidade de flutuar suavemente pelo campo.
Na noite anterior à escalada, Padre Dan fez o grupo assistir a um filme ambiental, “Uma Verdade Inconveniente”. Proteger o meio-ambiente do Quênia era outra faceta da escalada pela paz, e Padre Dan explicou como as geleiras do Monte Quênia vinham se derretendo numa velocidade alarmante.
E assim que o grupo começou a marchar para a lateral da montanha, Padre Dan passou suas mãos pelas grandes árvores pingando musgo e os búfalos bufando nuvens de vapor e disse, “É isso que estamos perdendo - a natureza.”
Aquela natureza logo se tornou cruel. Começou a garoar, depois a chover, então um vendaval, e depois a nevar. A neve caía em flocos grossos e molhados.
“É horrível”, disse Byron Oluoch, um jovem conselheiro voluntário que nunca havia visto neve.
O caminho ficou mais íngreme, margeado por pedras escorregadias e lama. A maioria das pessoas estava suando e sentindo frio ao mesmo tempo. A vegetação rareou. As grandes árvores desapareceram. Frágeis arbustos amarelos preenchiam os declives, ao lado de estranhas plantas esponjosas no formato de microfones tamanho gigante.
A 4.328 metros, que ainda não é alto o bastante para dar dor de cabeça, mas bem perto disso, uma longa casa de pedra apareceu. Era o acampamento Mackinder, campo de base para fazer a subida.
A casa de pedra era fria e rodeada de bancos duros como rocha. Ratos passeavam pelo solo de concreto, mordiscando farelos de biscoitos.
“Os ratos me lembram de casa”, disse Kachu.
O grupo se sentia doente. Estômagos revirados. Dedos sem sensibilidade. Cabeças enevoadas. A maioria das pessoas disse se sentir sujo, exausto, faminto e desgastado. O Monte Quênia não é nenhum Everest, mas a subida rápida pode ser perigosa, e todo ano as equipes de resgate quenianas retiram alpinistas fatigados dos declives, algumas vezes com helicópteros.
Hora para mais uma conversa motivadora do padre Dan.
Às 2h30 da madrugada seguinte, abastecidos com alguns biscoitos secos e garrafas térmicas de chá, 23 dos 26 escaladores saíram em direção a Point Lenana, o terceiro pico mais alto do Monte Quênia, a 4.985 metros.
Estava congelante, com cristais de gelo sendo triturados sob os pés. O céu estava perfeitamente limpo, brilhando de estrelas.
O grupo se moveu devagar e laboriosamente.
“É melhor não haver outra guerra”, disse o Treinador Fantasma. “Pois eu não farei isso de novo.”
A noite estava silenciosa, exceto pelas difíceis respirações. A altitude havia atingido praticamente a todos. Até mesmo Padre Dan estava desbotando.
“Todos precisam conhecer seu limite”, disse ele. “Eu cheguei ao meu.”
Ele se virou e desapareceu na escuridão. Mais tarde ele explicou que seus pés pareciam cubos de gelo. Caso tivesse continuado, Padre Dan teria visto o fruto de seu trabalho.
Ele teria visto o grupo dando os difíceis passos finais juntos, freqüentemente de mãos dadas, ajudando uns aos outros sobre as pedras. Ele teria visto Ras Luigi, um forte cantor de reggae, oferecendo um firme braço de apoio a Amina Darani, uma mulher muçulmana que estava fraca por ter jejuado para o ramadã. E o Treinador Fantasma esfregando gentilmente as mãos de Brenda Mulinya, uma repórter da televisão local que não conseguia parar de chorar, dizendo que nunca havia sentido tanto frio.
No pico rochoso, Kachu parou triunfalmente, segurando duas bandeiras - a bandeira nacional do Quênia e outra que dizia “paz.”
O sol nasceu. As planícies abaixo se estenderam por centenas de quilômetros. E um cobertor de nuvens se espalhou por uma terra que claramente merece ser salva.





