Explorador amaricano afirma que já utilizou invento semelhante, em 2003
Julio Fiadi e seu trenó habitável
Recentemente, o brasileiro Julio Fiadi tentou realizar a travessia ao Polo Sul, que consiste em partir de uma praia qualquer até o Polo Sul geográfico. Até hoje, apenas 14 pessoas realizaram esse grande feito em travessia solo.
Para isso, Julio contaria com uma forma inovadora em sua travessia. Após suas experiências ao caminhar o último grau do Polo Sul e do Polo Norte, Fiadi teve a ideia de fazer de seu trenó não apenas um compartimento de carga, mas também transformá-lo em sua casa durante a expedição.
Esta seria a primeira vez que um equipamento desse porte seria utilizado em uma travessia ao Polo Sul. A ideia inovadora de Julio Fiadi chamou a atenção de muitas pessoas em todo o mundo, principalmente dos grandes aventureiros, pois poderia estar aí uma nova forma de realizar travessias mais confortáveis e seguras.
Como todo equipamento inovador, Julio Fiadi enfrentou problemas em sua primeira tentativa de travessia ao Polo Sul. Durante o início da expedição, a porta começou a apresentar falhas e, com a baixa temperatura, congelava, tornando-se praticamente impossível abri-la. Para evitar o risco de ficar trancado dentro do próprio invento, Julio resolveu cancelar a expedição, voltar à prancheta e descobrir uma forma de solucionar o problema. Por isso, foi obrigado a adiar a expedição para 2008.
O Trenó
A redução do peso a ser transportado é fator decisivo para o sucesso de qualquer expedição polar, ainda mais quando a tração será feita por um único homem. Sem cães, sem motores. Utilizando-se da mais avançada tecnologia disponível em materiais compostos, como kevlar, fibra de carbono e Divinycell (o mesmo material empregado atualmente na indústria aeronáutica e nos carros de Fórmula 1), foi possível desenvolver um casulo rígido e extremamente leve, capaz não só de transportar todos os alimentos, combustíveis e equipamentos necessários à expedição, mas também de servir de abrigo durante os 60 dias da jornada. Projetado por Alexandre Camargo a partir das experiências de Julio Fiadi nas expedições aos dois polos da Terra, o trenó foi construído pelo engenheiro Lorenzo Souza, nas instalações da Holos Brasil, com matéria-prima e tecnologia fornecidas pela Barracuda Advanced Composites.
Cameron McPherson Smith e seu trenó habitável
"Estou ansioso para ver como Julio Fiadi se sairá com sua 'cápsula'!", diz Cameron.
"Apenas uma observação: vejo que Julio Fiadi tentará utilizar um trenó habitável em sua expedição à Antártica. Isso imediatamente chamou minha atenção, porque eu utilizava um trenó semelhante em minhas travessias da plataforma de gelo Vatnajökull, na Islândia, entre 2001 e 2004."
Minha primeira tentativa de cruzar sozinho a plataforma de gelo Vatnajökull, na Islândia, durante o inverno, durou frustrantes 72 horas. No início de 2001, meu pequeno acampamento na base do Vatnajökull estava sendo castigado por massas de ar e ventos com força de furacão. Pensei: "Será que não existe uma maneira melhor de enfrentar essa situação?"
Após regressar dessa tentativa malsucedida, fui conversar sobre essas fortes rajadas de vento no Vatnajökull com meu amigo islandês Halldor Kvaran, de Reykjavik. "O vento sopra forte e constantemente nessa época do ano", disse ele. "Por que você acha que nunca tentaram atravessar a plataforma de gelo sozinho durante o inverno? O problema não é o frio, é o vento. O que você precisa é de uma cabine portátil." Após vários desenhos, Halldor começou a construção em sua oficina e, quando retornei em 2003, o trenó habitável estava pronto. À primeira vista, achei muito estranho, pois parecia mais um sarcófago de fibra de vidro. Eu seria a cobaia e teria que descobrir se ele realmente funcionava em minha expedição ou se era apenas um caixão sobre esquis.
Em minhas expedições de 2003 e 2004, descobri que realmente era possível utilizar um trenó habitável. Ele era leve, fácil de montar e transportar, impermeável e resistente a rajadas de vento superiores a 113 km/h, que assolam a plataforma de gelo durante o inverno. Apesar das muitas dificuldades encontradas — felizmente, caso contrário eu não teria nada para contar em meu livro — o vento não era uma delas. O vento não conseguia destruir a estrutura de fibra de vidro, e montar minha cabine levava apenas alguns minutos. A vida no interior do trenó habitável era relativamente confortável e aquecida, depois que resolvi alguns problemas importantes.
A seguir estão algumas observações sobre o desempenho do trenó habitável, bem como algumas notas gerais para futuros projetos.
Design
O trenó habitável é composto por três componentes principais: um casco inferior, que forma a base, e outro casco idêntico ligado a ele por dobradiças em uma das extremidades. Quando aberto, o casco superior se eleva, formando a estrutura principal do abrigo. Em uma das extremidades dos cascos, suspensa por barras, fica a tenda.
No casco inferior, que serve como base, há seis escotilhas, formando compartimentos de armazenamento independentes sob o piso. Isso permite acomodar e organizar os suprimentos, por exemplo, mantendo o combustível do fogareiro separado dos alimentos. As escotilhas ficam no nível do piso, permitindo que o aventureiro durma confortavelmente sobre elas. Ligando os cascos superior e inferior existem três paredes de resistente tecido corta-vento. Assim que a parte superior do casco é levantada, a tenda é automaticamente montada.
A parte superior do casco é mantida aberta por tubos ajustáveis, de acordo com a altura do aventureiro. A tenda é presa ao casco inferior e possui uma porta fechada por zíper. As fotos ao lado oferecem uma visão mais clara do projeto.
Prós
Muitas expedições com trenó enfrentam sérios problemas na hora de montar o acampamento e armar suas barracas. Com as mãos frias, usando várias luvas e após um longo dia de caminhada, essa tarefa pode se tornar complicada e demorada. É cansativo trabalhar com pequenas estacas para prender a barraca à neve, e é fácil perder uma delas durante uma tempestade. Também é comum ocorrerem descuidos com o fogareiro dentro da barraca. Apenas os mais disciplinados entre nós aventureiros jamais ignoraram algum procedimento de segurança quando estavam realmente cansados — e eu certamente não sou um deles.
Por todas essas razões, a principal vantagem do trenó habitável era sua rapidez e facilidade de montagem. Em um ou dois minutos eu levantava o casco e armava a tenda, ficando rapidamente protegido do frio e do vento. O trenó também continha praticamente tudo o que eu precisava, embora em algumas etapas eu utilizasse uma pequena mochila de ataque, contendo suprimentos para vários dias.
Outra vantagem é que o sledhut — trenó habitável — era muito seguro contra o vento. Eu normalmente ancorava a parte dianteira, apontada para a direção predominante do vento, utilizando um parafuso de gelo ou uma estaca apropriada. A parte traseira era presa aos meus esquis fincados na neve, algo que nunca gostei muito de fazer. Em minha expedição de 2004, passei mais de 70% do tempo aguardando uma melhora do clima, pois os ventos frequentemente atingiam velocidades superiores a 110 km/h. Nessas condições, em que eu sequer poderia permanecer do lado de fora, o sledhut mantinha-se estável. Embora o tecido da tenda muitas vezes tremulasse violentamente, nada de mais grave aconteceu.
Além disso, o sledhut permanecia suspenso acima da neve por estar apoiado sobre esquis. Isso tornava tudo mais agradável, pois o abrigo não ficava em contato direto com a neve e também evitava o acúmulo de neve sobre a estrutura, como normalmente acontece em uma barraca convencional. Dessa forma, eu não precisava sair constantemente para remover o excesso de neve. Apenas uma vez, por descuido, acampei próximo a um grande declive. A neve foi se acumulando gradualmente e, quando percebi, estava completamente soterrado. Mas essa foi uma exceção e, em condições normais de tempestade, nunca precisei sair do abrigo para retirar neve acumulada.
O sledhut também mantinha o interior muito aquecido. O casco inferior ficava cerca de 30 centímetros acima da neve, o que reduzia significativamente a transferência de calor. Pensando no conforto, meu amigo Halldor revestiu o piso com 20 mm de espuma isolante, tornando-o mais confortável e melhor isolado do casco. No teto também foi aplicada espuma, transformando-o em um excelente isolante térmico. Embora a temperatura durante a expedição nunca tenha caído abaixo de -23°C e, portanto, não fosse tão extrema quanto em muitos destinos polares, estou certo de que mesmo em temperaturas de -40°C, como as que encontrei anteriormente na costa norte do Alasca, o sledhut teria sido muito mais quente do que qualquer barraca convencional.
O sledhut também foi desenvolvido para resistir muito bem aos chamados "WHUMP", fenômeno causado pelo vazamento de gás no interior da tenda e sua ignição por uma pequena fagulha, provocando uma combustão instantânea. Isso já aconteceu com diversos exploradores. Mesmo o experiente Mike Horn teve recentemente sua barraca destruída por um incêndio causado pelo vazamento de combustível pressurizado. O sledhut possui piso e teto construídos em fibra de vidro e/ou madeira compensada, revestidos por espuma isolante não inflamável. Além disso, o tecido da tenda recebeu tratamento com material resistente ao fogo.
Finalmente, com o sledhut, pela primeira vez tive um conjunto trenó-barraca totalmente organizado. As seis escotilhas de armazenamento permitiam manter tudo em ordem, e os alimentos não tinham contato algum com o combustível. Para mim, isso era um grande alívio. Uma barraca desorganizada sempre me incomodou e reduzia minha eficiência durante a expedição.
Contras
Como qualquer protótipo, o sledhut tinha seus problemas. Primeiro, por ser tão quente, enfrentei sérios problemas de condensação. Cozinhar em seu interior fazia a água escorrer pelas paredes, chegando literalmente a chover dentro do abrigo. O sledhut possuía algumas aberturas de ventilação, mas por várias razões elas não eram muito eficientes. Eu certamente as revisaria caso voltasse a utilizar o sledhut. Também gostaria que ele fosse um pouco maior, para reduzir os riscos de intoxicação por monóxido de carbono durante o preparo dos alimentos."
O sledhut era muito apertado, apenas um pouco mais largo do que meus ombros. Sempre que eu me movia em seu interior, meu ombro, cotovelo ou joelho acabava batendo no casco gelado.
Outro problema era que o espaço reduzido dificultava diversas atividades. Mas, para dizer a verdade, acabei me acostumando. O ser humano pode se adaptar a praticamente qualquer situação e, como aquele era meu único abrigo, eu simplesmente não tinha escolha.
Para uma expedição solo, o sledhut tinha um tamanho adequado. Em uma equipe, porém, cada integrante precisaria acampar sozinho, a menos que fosse possível conectar várias unidades. Halldor e eu chegamos a considerar essa possibilidade, criando um sistema de acampamento com vários sledhuts acoplados entre si. No entanto, tínhamos apenas um protótipo para testar durante minha travessia. Quando imagino essa configuração, diversos problemas me vêm à mente e continuo acreditando que o sledhut é mais adequado para expedições individuais.
O sledhut também é ideal para neve e gelo glacial. Há algum tempo vi que Jim McNeill havia divulgado um projeto de trenó habitável para suas expedições em ambientes glaciais, mas não sei se chegou a ser construído. Para aventureiros solitários em áreas abertas, como partes da Antártica, vastas regiões do interior do Canadá ou da Sibéria, o conceito do sledhut certamente merece ser considerado.
Notas para futuros Sledhuts
Eu nunca idealizei o sledhut como uma tentativa de bater recordes. Na verdade, desde 2002 nunca considerei seriamente meu feito sob essa perspectiva, nem pensei em quebras de recordes ou algo semelhante.
Ainda assim, o sledhut mostrou-se uma excelente ideia, embora pudesse ser mais leve se fosse construído com um casco de Kevlar. Algumas janelas adicionais também seriam úteis. O sledhut possui duas, uma em cada lado, feitas de plástico transparente flexível costurado ao tecido das paredes, mas mais janelas certamente melhorariam a visibilidade. Eu sempre quis uma escotilha na parte inferior para recolher neve, derretê-la e cozinhar sem precisar abrir a escotilha principal. Um reservatório grande e bem isolado para água também seria interessante, embora eu consiga imaginar algumas razões pelas quais isso poderia criar mais problemas do que soluções.
Outro aspecto a ser considerado para evitar sair do sledhut é atender ao chamado da natureza. Tornei-me especialista em me equilibrar sobre um saco plástico em uma posição extremamente desconfortável dentro do abrigo. Desculpem tocar nesse assunto, mas todos sempre perguntam sobre isso! Alguém poderia, por favor, encontrar uma solução para esse problema? Por fim, a instalação de um farol externo no sledhut também seria extremamente útil.
Outras pequenas modificações poderiam ser feitas, mas a verdade é que o sledhut cumpriu muito bem sua função durante minha expedição. Muitos exploradores realizaram grandes jornadas com equipamentos muito mais simples e sobreviveram. Já vi fotografias de trenós da década de 1930 bastante semelhantes ao meu sledhut, com pequenas tendas montadas sobre a carga. Quando começamos a imaginar novos projetos de sledhut, a criatividade pode nos levar muito longe. Descobri que construir meu próprio sledhut me aproximou ainda mais da expedição, o que foi extremamente gratificante. Ele me manteve diretamente envolvido durante todo o ano, ocupado com o constante processo de resolver problemas, transformar esboços em soluções práticas e acompanhar cada etapa da construção. Foi um período muito divertido.
Quando voltei à Islândia, em novembro de 2004, para fotografar e filmar meu curta-metragem e produzir material para um documentário sobre minhas expedições, reencontrei o sledhut pela primeira vez após nove meses. Minha reação inicial foi pensar: "Como consegui sobreviver dentro desse espaço tão apertado? Mal consigo me movimentar ou respirar aqui dentro." Mas logo me recordei de todo o processo e percebi que a rotina de viver em um sledhut havia se tornado uma das melhores lembranças da expedição.
Agradecimento especial a Halldor Kvaran, que construiu o sledhut e gentilmente me permitiu utilizá-lo. Ele vive em Reykjavik, na Islândia, é ex-presidente do Icelandic Alpine Club, possui ampla experiência em expedições ao Vatnajökull e atualmente continua sendo o proprietário do sledhut.
Nota Final da redação
O projeto de Julio Fiadi representa uma evolução dos conceitos já existentes de trenó habitável. Ainda assim, apresenta características inovadoras, algumas delas antecipadas por Cameron, como a utilização de Kevlar e a ampliação das áreas envidraçadas. Julio Fiadi também incorporou o conceito de energia limpa, utilizando energia solar captada por meio de painéis fotovoltaicos.
Outra grande inovação é que o trenó de Fiadi elimina a necessidade de montagem do abrigo. Embora o projeto de Cameron já fosse relativamente simples, Fiadi levou o conceito um passo adiante: basta abrir a porta e o aventureiro já está em seu abrigo, sem necessidade de qualquer montagem adicional.
Por outro lado, essa inovação também desperta certa preocupação entre exploradores. Em condições de fortes ventos laterais, existe a possibilidade de o trenó tombar, pois sua aerodinâmica não é tão favorável quanto a do modelo desenvolvido por Cameron.
O projeto de Julio Fiadi demonstra um caminho promissor que merece ser aperfeiçoado. Em 2008, Julio Fiadi retornará à Antártica para dar prosseguimento à sua expedição.





