Como nos ensinou o poeta Waly Salomão, a memória é uma ilha de edição. Ela retém pedaços, apaga outros, distorce os contextos. Depois de acontecido, parece entrelinhas de um sonho que acabamos de acordar, aonde temos uma ideia geral, mas os detalhes necessitam de esforço de rememoração. No calor de quarenta graus desse verão, lembrando os dias na patagônia chilena competindo a Patagonian Expedition Race (PER), tudo se apresenta meio alucinado e tão distante que não parece que foi apenas dois meses que aconteceu.
A ansiedade antes, os oito anos esperando para ter coragem de ir, todos os dias da vida antes exposto a natureza e as intempéries, vão se tornando anedotas da nossa própria trajetória. Dos sonhos que escolhemos. Dos caminhos que trilhamos. Daquilo que vamos retendo como a fonte de significado da nossa existência. Mas por que tanto sofrimento para dar sentindo ao mundo? Por que precisamos estar expostos a um dos piores frios úmidos do mundo, com ventos massacrantes para poder dizer que estávamos realmente felizes durante aqueles dias?
A PER é considerada por muitos corredores de aventura como a prova mais dura e selvagem do mundo: o clima e o isolamento dos trekkings são o que caracterizam essa prova. Muitos dos maiores competidores vivos nunca vieram nessa prova. Outros se tornaram especialista nela. Não tem premiação em dinheiro e custa caro. Talvez aí reside alguma explicação pela ausência. O desconforto, a lentidão e o isolamento a razão para outros querem voltar sempre.
Poderia fazer uma narrativa linear contando sobre as etapas da prova, da largada a chegada. Podia falar sobre a superação que tivemos que ter no relacionamento interno da equipe e nas dores para chegar ao final. Podia falar sobre as longas sessões planas e monótonas na bicicleta, sendo recompensados pela luz do luar. Enfim, podia falar sobre a remada épica que fizemos ao nascer do sol no Estreito de Magalhães com golfinhos, pinguins e baleias. Mas não, minha memória reteve o trekking, apesar de lembrar desses outros trechos da prova.
No primeiro, perto do parque nacional Torres del Paine, com várias passagens de montanha, já percebemos o que nos aguardaria. Logo após a largada começou a nevar. Não existia trilha no caminho que tínhamos que seguir. Os pés afundavam trinta centímetros na neve, mas sorriamos. Conseguimos acertar o primeiro PC (Ponto de Controle) ainda com luz. Decidimos seguir noite a dentro sem dormir mesmo vendo equipes experientes pararem. Ao cruzar o colo do cordão do Prat, a neve congelou entre as pedras soltas. Uma rampa com mais de 40º de inclinação, qualquer escorregão poderia ter custado a vida. Os olhos vidrados nos fazia seguir nossos próprios passos lutando para se salvar sozinho. Mesmo quando nos juntamos nós quatro no cume (Eu, Fausto, Diogo e Paulinha), ao lado dos fotógrafos que faziam a cobertura da prova, riamos. Isso, estávamos felizes, comemorávamos como se tivéssemos ganhado a prova. Mas ainda faltava muito para o fim, sabíamos.
No segundo trekking, fomos introduzidos a turba. Começava com um rasga mato buscando os caminhos de vaca entre o mato cheio de espinhos. As árvores altas dificultavam a visão, deixando a orientação, no mínimo, mais interessante. Quando visualizamos a turba, o espaço alagado limpo formado pelo degelo, foi uma espécie de vitória. Depois de três horas andando nos demos conta da dureza que aquele terreno representava, com os pés afundando em água gelada o tempo todo. Falando dos pés, era quase possível manter eles secos por mais de quinze minutos. Isso dificulta muito, aos poucos a sola começa a deteriorar pela umidade. Decidimos, mais uma vez, seguir noite adentro. Pagamos caro. Nesse momento descobrimos por que as equipes paravam. Rasgar mato durante a noite, com a visibilidade de cinco metros, era algo macabro – e lento.
Dormimos no meio de árvores, a chuva caiu impiedosa durante a noite. Espremidos quatro pessoas numa barraca para dois. Saímos pela manhã embaixo de chuva. Concertamos um erro de orientação e entramos no caminho correto. A organização havia sido enfática no brefing, só existia uma passagem no rio que deveríamos cruzar. Achamos a descida no local perfeito. Chegamos na junção de dois rios. O ponto exato. Mas um labirinto de trilhas feita pelo gado nos deixou uma hora de aflição sem conseguir encontrar o caminho para acessar a montanha do outro lado. Até que decidimos subir sem trilha, rasgando mato, seguindo caminhos mal marcados de gado e, enfim, saímos na turba alta. Emocionados. As lágrimas escorreram de medo e tensão. Temos tempo limite para fazer cada sessão da prova, não há margem para erro. Sorriamos novamente.
O terceiro trekking seria a parte aonde saberíamos se conseguiríamos fazer a prova completa ou não (até então nenhuma equipe brasileira tinha conseguido terminar essa prova na sua primeira tentativa). Cem quilômetros cruzando a selvagem e isolada península do Brunswick. Os escarpados cumes gelados dos andes criaram um túnel de vento entre o Seno Ontway e o Estreito de Magalhães, somado a turba nas partes baixas, fizeram que nenhum ser humano escolhesse viver ali. Rasga mato duro, turba inclemente, chuva, frio e o medo de um acidente. São recordações que nunca nos esqueceremos. Mais acostumados com o terreno, começamos a ousar, preferindo ir pelo cume das montanhas ao invés da turba. A visão do alto compensava tudo.
Durante a segunda noite, tivemos que dormir no meio da turba. Fomos atingidos por uma tempestade de vento que se tivéssemos em menos de quatro pessoas dentro da barraca ela sairia voando. Rezamos, em silêncio, para as varetas não quebrarem. Um resgate ali seria impossível, só de helicóptero. E para voar não poderia ter vento. Isso poderia demorar vários dias. Não podíamos errar em nada. Mas essa apreensão mantinha o foco. Um medo totalmente diferente, pois apesar de ser um risco real que corríamos, não dava ansiedade, apenas apreensão, atenção, obrigava utilizar todos os recursos técnicos necessários. Subimos o último pico com um pôr do sol recompensador. E, mais uma vez, rindo.
Para terminar a prova o organizador ainda nos reservou mais uma surpresa. Pensamos vir um trekking fácil para chegarmos no Club Andino de Sky de Punta Arenas. Saímos num final de tarde bonito e com sol. Algo raro para aqueles dias chuvosos. Tentamos avançar pela noite, mas, mais uma vez, tivemos que aceitar que apenas com luz se anda na Patagônia. No outro dia, nosso último dia, chuva. Normal. O ritmo era lento, estávamos destruídos, mas sabíamos que chegaríamos ao final, mas quando? Naquela situação, com nove dias com zero conforto, tudo parecia uma eternidade. Apesar de encontrarmos estradas e trilhas nesse trecho, o mapa oferecido pela organização não nos ajudava a orientar. Com um esforço conjunto de interpretação conseguimos encontrar o caminho para chegar no último cordão de montanha. O sol saiu no cume. Deitamos chorando e beijamos o chão em agradecimento. Rimos.
Minha memória editou esses momentos como algo presente na alma. Uma prova é o fato de dois meses depois, nesse calor, eu ainda sonhar que estou no meio da turba. A lembrança do medo e da alegria ser mais presente que o desconforto e a dor. Foram dias felizes, no sentido que felicidade é uma espécie de ausência de sentimentos – ausência de passado e de futuro. Ali não tínhamos outra escolha além de viver o presente, cada escolha de orientação, cada comida quente, foi um esforço necessário para viver. Não podíamos pensar nem no que tinha passado, nem no que estava por vir. Tínhamos que avançar etapa por etapa sem pensar no todo. Sobretudo, tínhamos que rir do nosso desconforto. Caso contrario, talvez ainda tivéssemos lá. Ou teríamos abandonado...
Acho que o grande problema de hoje é isso, excesso de passado e futuro. Ansiedade. Conforto. O conforto não te irrita? Eu começo a ficar muito confortável em casa e, sem que perceba, já estou completamente irritado. Acho que isso é herança de um tempo passado, quando ainda éramos nômades, a única coisa que tínhamos que fazer era andar e desbravar para viver. Não tínhamos que ficar esperando nenhuma planta crescer. Rezar para nenhum deus mandar chuva. Implorar para algum rei um quinhão de farinha. Apenas andávamos e vivíamos. E foi isso que vivemos lá. Por isso é a última corrida selvagem do planeta.





