A recente e trágica avalanche no Broad Peak fez reacender uma impressão que tenho dos montanhistas e entusiastas brasileiros: quanto nós conhecemos da história e dos feitos do esporte no Brasil? Parece que somos uma fanbase de montanhistas internacionais e nem sabemos de onde viemos. Ou sabemos?
Antes de começar, gostaria de deixar clara minha profunda tristeza com o ocorrido. Uma vida sempre será preciosa. Já escrevi sobre a avalanche de 2014 no Everest para o Mountain Voices, episódio que acompanhei de perto em uma das temporadas mais sombrias da maior montanha do mundo.
Apenas para contextualizar, escalo desde 2006 e atuo como guia e instrutor desde 2011. Infelizmente, esse e outros acidentes acabaram se tornando relativamente comuns. No ano passado, por exemplo, tivemos diversos óbitos pela falta do nó na ponta da corda durante o rapel.
Sabe aquelas pessoas que se mudam para os Estados Unidos ou para a Europa e ficam mandando os preços do mercado? “Nossa, aqui uma lata de Coca-Cola custa muito menos do que aí no Brasil!”
Dois fatos recentes me fizeram ter a mesma impressão sobre o montanhista brasileiro:
1 — Alex Honnold escalando um prédio na Netflix
Acho o Alex um cara sensacional, um grande esportista. Seu projeto social é incrível, ele é vencedor do Piolet d’Or e até do Oscar. Mas solar um prédio? Não me pegou. Não assisti e nem pretendo assistir. Entendo o show business, mas, gente, isso não tem nada a ver com escalada!
Vi a comunidade de montanhistas vibrar e comemorar. Mas onde quero chegar? Acho legal essa fanbase “gringa”, porém garanto que 95% das pessoas não conhecem quem, com muito custo, ergueu as fundações do nosso esporte no Brasil.
Vou dar um exemplo que sempre apresento em meu curso: três brasileiros concorreram ao Piolet d’Or. Você sabe quem são? Não vale consultar o Google nem a inteligência artificial.
O montanhista brasileiro conhece nomes como Edmund Hillary, Tenzing Norgay, George Mallory, Andrew “Sandy” Irvine, Rob Hall, Scott Fischer, Reinhold Messner, Jacques Balmat, Michel-Gabriel Paccard, Walter Bonatti, Gaston Rébuffat, Ueli Steck, Tommy Caldwell, Alex Honnold e Simone Moro, entre tantos outros. Quantos desses nomes você conhece?
Agora, se eu citar Orlando Lacorte, Domingos Giobbi, José Teixeira Guimarães, Raul Carneiro, Alexandre e Américo de Oliveira, Joaquim Olímpio Carmeliano de Miranda, Giuseppe Toselli, Almy Ulisséa, Roberto Menezes, Silvio Mendes, Paulo Macaco, Ricardo Menescal, Henrique Paulo Schmidlin, o “Vitamina”, Patrick White e Roberta Nunes, entre outros, quantos desses nomes você conhece?
Todos leem No Ar Rarefeito, de Jon Krakauer, mas quase ninguém lê A Escalada Brasileira, de Antonio Paulo Faria. Isso exemplifica bem a impressão que tenho.
2 — A avalanche no Broad Peak e Nims Dai
Novamente: é triste para caramba, isso é inegável. Eu também me encantei com o documentário 14 Picos, e é incontestável que existe uma era antes e outra depois de Nims Dai. Ele elevou ainda mais os nepaleses como a elite do montanhismo de altitude.
Nos últimos dois anos, perdemos três grandes montanhistas: Marcelo Delvaux, Rodrigo Raineri e Edson Vandeira. Pessoas importantíssimas para o nosso esporte. Não vi um centésimo da comoção provocada pela morte de Nims Dai. Não que isso seja uma métrica, mas, poxa, eram brasileiros que encontrávamos nas montanhas do Brasil e do mundo e que abriram caminho para muito do que usufruímos hoje.
Será que, para ser reconhecido pelo montanhista brasileiro, é preciso ter aparecido na Netflix? É assim que se constrói um legado? Ou realmente não sabemos quem impulsiona o esporte dentro do nosso país?
O que vocês acham de, em um próximo texto, eu indicar várias obras e documentários 100% brasileiros para compartilhar um pouco de nossa linda e brilhante história dentro do montanhismo?





