REFLEXÃO
Lisete Florenzano
Por: Lisete Florenzano  |  12 de fevereiro de 2012  •  17:30

Aeroporto de Adis Abeba... Onde é isso afinal? Esta é a capital da Etiópia. Acabamos de chegar, depois de alguns longos vôos.

Fiquei por um tempo parada esperando nosso check in, observando as pessoas que passavam. E que visão! Homens com trajes que pareciam ter saído das Mil e Uma Noites, com turbantes e túnicas... Mulheres negras, com roupas maravilhosamente estampadas, balançando os quadris com todo o swing e classe. Mulheres com suas burcas, todas de preto, com aquele ar pesado em volta delas... Negros altos e imponentes, com seus trajes variando do branco até o dourado. Turistas, no meio daquela profusão de rostos e cores, cansados de algum longo vôo.

O que mais me chamou a atenção, depois de tudo isso, foi como o mundo é grande. Não em tamanho, mas sim em diversidade. Esse é o tempero, é o que dá a graça, a beleza em todas as viagens. Talvez seja a parte mais difícil de explicar, de colocar em palavras...

O início

Há exatamente um ano atrás, iniciei uma nova fase na minha vida. Foram vários inícios: novo relacionamento, novo trabalho e, além de tudo, uma nova maneira de viver. Iria trabalhar como guia de trekking, o que significava duas coisas muito importantes. Uma, eu trabalharia “outdoor”, o que sempre foi uma paixão para mim. Outra consequência dessa escolha, é que eu não moraria em lugar nenhum. É isso mesmo... Não teria casa.

Para isso acontecer tive que abandonar a minha vida convencional e “segura”. Sou engenheira mecânica de formação e estava trabalhando numa empresa, dentro da minha área e com ótimas chances de crescimento profissional dentro dela. Tinha meu apartamento, meu carro, minha família morando na mesma cidade que eu, amigos. Uma vida muito confortável, tranquila. Mas eu não estava feliz. Eu sempre tive uma certeza, de que devemos trabalhar naquilo que gostamos. Se não existe essa afinidade com o que fazemos na vida, tudo vira um peso.

Isso sempre foi algo importante para mim, mas que a maioria das pessoas nunca entendeu bem. A pergunta que me faziam era: não está feliz com o que? O parâmetro era que se eu tinha um emprego estável e ganhava bem, eu devia estar feliz com minha vida. Mas isso não acontecia...

Resolvi que queria tentar uma nova vida, buscando um trabalho que me trouxesse satisfação. Conversei com alguns amigos que trabalham com atividade experiencial e resolvi que era com isso que eu queria me envolver.

Por acaso, acabei encontrando um amigo que não via há 12 anos e que também já havia mudado radicalmente de estilo de vida. Depois de conversarmos por horas a fio, veio o convite: vamos trabalhar juntos como guia de trekking? Uau... Refleti muito sobre a decisão a tomar, mas creio que sempre soube que iria. Afinal, o máximo que poderia acontecer era não dar certo e ter que voltar.

Assim, a cada mês estou em um país diferente, guiando clientes por trilhas em lugares remotos nas montanhas ou então estou de férias – em geral, também nas montanhas. Eu e meu namorado vivemos basicamente em hotéis (quando estamos nas cidades) ou acampados (quando estamos nas trilhas). Nepal, Rússia, Mongólia, Marrocos, Tanzânia, Argentina – são alguns dos países onde trabalhamos.

A viagem

Em geral as pessoas pensam que estou em férias “eternas”. O que não é verdade. Meu trabalho é como qualquer outro, com dias bons e dias nem tão bons assim. Trabalho do momento que acordo até a hora em que vou dormir. A grande diferença é que gosto do que faço. Gosto de andar o dia inteiro. Claro, se o dia está com o céu azul e a temperatura amena, ótimo. Mas, se estiver nevando... bom, para mim também tem sua beleza. Gosto de estar com os clientes e ver como cada um lida com os desafios de cada dia. Como vão crescendo e aprendendo sobre si mesmos.

Não ter casa foi um grande desafio. É o tipo de conceito tão enraizado que é difícil imaginar não tê-lo. Durante as viagens, passo por inúmeras lojinhas com milhares de coisas lindas – dá vontade de comprar tudo! Mas daí vem a pergunta: vou colocar onde?

A princípio não me sentia a vontade em hotéis. Quando podíamos ficar em apart hotel, com uma cozinha e uma varanda, era como estar em casa. Nas trilhas, onde geralmente acampamos, me sinto bem. Não me incomoda o fato de não dormir em cama e ter apenas um colchonete inflável e um saco de dormir, ou de ter apenas as roupas e coisas que possamos carregar nas mochilas. Sim, sinto falta de um bom banho quente e de ter um banheiro bacana... Mas sei que quando acaba a trilha vamos para uma cidade e ficamos bem instalados em um hotel. Com banheiro!

Claro, essa vida tem o seu preço. Sinto falta da minha família e dos meus amigos. Muitas vezes recebo os convites para o aniversário de um, casamento de outro. Mas estou longe, sem a menor chance de ir. Acho que esse é o maior preço a pagar pela opção de fiz. Por outro lado, valorizo muito mais essas pessoas queridas e quando estou por perto tento ver todo mundo.

Mas creio que a grande “viagem” é essa oportunidade que tenho de estar em países, em sua maioria, remotos e com sua cultura preservada. Poder estar no Nepal, vivenciando uma cultura hindu / budista e na sequência cair de pára-quedas no Marrocos, país muçulmano. É chegar na Tanzânia, África, depois de passar alguns meses na Ásia, e sentir o calor humano, os sorrisos fáceis e a musicalidade do “swahili”, o idioma local. É aceitar que somos todos diferentes, cada um com seu estilo de vida, e que, tirando alguns extremismos, não existe a maneira “certa” ou “errada”. Existem culturas diferentes.

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