Quando Hillary Dawa Sherpa desapareceu durante a descida do Everest, no fim de maio, poucos acreditavam que ele pudesse ser encontrado com vida. A temporada estava praticamente encerrada, os campos estavam sendo desmontados e a Cascata de Gelo do Khumbu começava a ser desativada. Sem rádio, sem oxigênio suplementar e completamente sozinho na montanha, o experiente cozinheiro sherpa parecia ter se tornado mais uma vítima do Everest.
Mas seis dias depois ele reapareceu. Ferido, exausto e rastejando em direção ao Campo Base.
A reconstrução dos acontecimentos, baseada nos relatos do próprio Hillary Dawa Sherpa e do cliente polonês Mariusz Chmielewski, revela uma história ainda mais impressionante do que se imaginava inicialmente.
Linha do tempo
- 27 de maio — saída do Campo 4 para o ataque ao cume
- 29 de maio — Descida do Campo 4 para o Campo 3
- 30 de maio — Dawa alcança o Campo 3
- 31 de maio — Dawa chega ao Campo 2
- 2 de junho — queda na greta
- 4 de junho — resgate próximo ao Crampon Point
O ataque ao cume
27 e 28 de maio
A equipe era formada pelo britânico Chris Thrall, pelo polonês Mariusz Chmielewski e pelos nepaleses Hillary Dawa Sherpa e Pasang Kaji Sherpa.
Mas Hillary Dawa não deveria estar naquela função. Segundo seu próprio depoimento, ele havia sido contratado inicialmente para trabalhar como cozinheiro no Campo 2. Em algum momento da expedição, porém, a empresa decidiu utilizá-lo como guia de altitude após a saída de outro sherpa da equipe por problemas de saúde.
Mais tarde me pediram para atuar como guia de um cliente polonês. Aceitei a proposta apenas pelo bônus de cume.
O ataque ao cume começou na noite de 27 de maio, quando a equipe deixou o Campo 4 rumo ao topo do Everest.
Segundo Mariusz, Hillary Dawa carregava praticamente todos os cilindros de oxigênio destinados ao Balcony, a cerca de 8.400 metros de altitude, onde normalmente ocorre a troca dos cilindros antes da parte final da escalada.
Durante a subida, o britânico Chris Thrall e Pasang Kaji avançaram mais rapidamente. Hillary Dawa permaneceu próximo de Mariusz, principalmente porque transportava uma carga muito mais pesada.
Já na manhã de 28 de maio, ao chegarem ao Balcony, ocorreu uma conversa que mais tarde ganharia importância.
Quantas vezes você já esteve no cume?
A resposta o surpreendeu.
Segundo o polonês, Hillary respondeu que nunca havia estado no cume da montanha.
Considerando que estava acompanhado por um sherpa que carregava uma mochila pesada e que nunca havia alcançado o topo do Everest, Mariusz decidiu que seguiria sozinho acima do Balcony. Pediu para que Hillary permanecesse ali enquanto tentava avançar.
Pouco depois, problemas com o equipamento, ventos crescentes e preocupações com a quantidade de oxigênio disponível fizeram o polonês desistir da escalada por volta dos 8.450 metros.
Ele retornou ao Balcony, encontrou Hillary Dawa aguardando e iniciou a descida.
Segundo o relato do polonês, Hillary permaneceu no Balcony aguardando o retorno de Chris Thrall e Pasang Kaji antes de começar sua própria descida.
A descida começa a dar errado
29 de maio
Após passarem a noite no Campo 4, a equipe iniciou a descida na tarde de 29 de maio em direção aos campos inferiores.
Mariusz afirma que recebeu apenas um cilindro parcialmente cheio para a descida e rapidamente ficou sem oxigênio. Também enfrentava problemas com a bateria da lanterna de cabeça.
Mesmo nessas condições, seguiu descendo sozinho.
Pouco depois encontrou Chris Thrall e os dois continuaram juntos. Hillary Dawa vinha atrás.
Foi naquele momento que os relatos se encontram.
Segundo Chris Thrall, já abaixo do Campo 4, na região da Yellow Band, Hillary sentou-se para descansar. Quando foi questionado se estava bem, respondeu que sim e pediu que os demais continuassem descendo.
Foi a última vez que alguém o viu.
Sem rádio e sem oxigênio
29 e 30 de maio
Mais tarde, o próprio Hillary Dawa explicaria o que aconteceu após a separação do grupo.
Perdi meu rádio comunicador enquanto descia sozinho do Colo Sul para a região da Yellow Band e também fiquei sem oxigênio suplementar.
Sem comunicação e sem oxigênio, ele continuou descendo lentamente em direção ao Campo 3.
Enquanto isso, a situação dos outros integrantes da equipe também estava longe de ser confortável.
Segundo o polonês Mariusz Chmielewski, ele próprio já havia ficado sem oxigênio durante a descida a partir do Campo 4 e também enfrentava problemas com a bateria da lanterna frontal. Em determinado momento, precisou parar na encosta para comer enquanto permanecia preso à corda fixa. Foi ali que Chris Thrall o alcançou.
Chris ainda tinha uma lanterna funcionando e um cilindro de oxigênio. Durante a descida, Mariusz pediu diversas vezes dois ou três minutos de oxigênio emprestado para conseguir continuar. Chris cedeu o oxigênio em alguns momentos e os dois seguiram juntos montanha abaixo.
A essa altura, Hillary Dawa já não estava com eles.
Segundo Mariusz, Chris contou que havia se separado do sherpa mais acima na montanha. Hillary parecia estar bem naquele momento e apenas pediu para que os demais continuassem descendo.
Sem rádio e sem telefone via satélite, Chris e Mariusz prosseguiram durante a noite em meio à escuridão, ao vento e a uma tempestade de neve que começava a ganhar força.
Ainda durante a noite de 29 para 30 de maio, os dois alcançaram o Campo 3. Ali encontraram uma barraca abandonada. Chris conseguiu colocar um fogareiro para funcionar, derreteu neve e preparou uma sopa. Exausto após horas de descida sem oxigênio, Mariusz dormiu por cerca de quarenta minutos.
Mas Hillary Dawa não apareceu.
Segundo o polonês, foi naquele momento que a preocupação começou a aumentar. Eles não tinham qualquer forma de contato com o sherpa desaparecido e não faziam ideia do que poderia ter acontecido na montanha.
Após cerca de uma hora e meia no Campo 3, os dois decidiram continuar a descida para economizar o pouco oxigênio que ainda restava. Em meio à tempestade e à visibilidade extremamente reduzida, seguiram para o Campo 2, onde chegaram na manhã de 30 de maio.
Foi ali que informaram à empresa que Hillary Dawa havia ficado para trás durante a descida e estava desaparecido.
Enquanto isso, sozinho na montanha, Dawa continuava lutando para descer.
Levei várias horas para chegar ao Campo 3 no dia 30 de maio.
Quando finalmente alcançou o campo, encontrou apenas barracas abandonadas.
Naquela noite, permaneceu sozinho.
Comi alguns chocolates e bebi água.
Era tudo o que tinha disponível.
O Campo 2 abandonado
30 e 31 de maio
Após deixarem o Campo 3 na manhã de 30 de maio, Chris Thrall e Mariusz Chmielewski alcançaram o Campo 2.
Foi ali que comunicaram à Himalayan Traverse Adventure que Hillary Dawa havia ficado para trás durante a descida e estava desaparecido.
Segundo o relato do polonês, nenhuma equipe de busca foi enviada naquele momento.
Após permanecerem algumas horas no Campo 2, os dois iniciaram a descida em direção ao Campo Base atravessando a Cascata de Gelo do Khumbu. A progressão foi lenta devido à neve recente e à visibilidade reduzida pela neblina.
Mariusz afirma que chegaram ao Campo Base apenas por volta das 4 horas da manhã de 31 de maio.
Enquanto isso, Hillary Dawa continuava sozinho na montanha.
Sem rádio, sem oxigênio suplementar e avançando lentamente entre os campos altos, ele só conseguiu alcançar o Campo 2 no final da tarde de 31 de maio.
O cenário encontrado por ele mostrava que a temporada havia praticamente terminado.
Passei a noite lá, procurei restos de comida e permaneci dentro de uma barraca. Não vi ninguém no Campo 2 quando cheguei.
A frase talvez seja uma das mais impressionantes de toda a história.
Enquanto o desaparecimento já havia sido comunicado ao Campo Base e muitas pessoas acreditavam que ele estivesse morto, Hillary Dawa ainda lutava sozinho para descer a montanha.
Sozinho na montanha
1º de junho
Após passar a noite no Campo 2, Hillary Dawa retomou a descida na manhã de 1º de junho em direção ao Campo 1.
A essa altura, a temporada de escalada do Everest já havia terminado oficialmente. A maioria das equipes encontrava-se no Campo Base ou já estava deixando a região. Enquanto Hillary Dawa descia sozinho, a rota da Cascata de Gelo do Khumbu começava a desaparecer. Escadas e cordas já estavam sendo removidas, tornando a travessia cada vez mais perigosa para ele, o único que ainda permanecia na montanha.
Enquanto isso, Dawa seguia sozinho.
Sem rádio comunicador, sem oxigênio suplementar e sem saber se alguém havia percebido seu desaparecimento, ele avançava lentamente por uma montanha vazia.
Durante aqueles dias, uma pergunta não saía de sua cabeça.
Durante grande parte do tempo, fiquei me perguntando por que a Himalayan Traverse Adventure não mobilizou nenhum apoio para me procurar, já que eu estava sozinho na montanha.
Segundo o próprio Dawa, a sensação era de abandono. Enquanto tentava alcançar os campos inferiores, ele não encontrou qualquer equipe de apoio procurando por ele e não teve contato com nenhum integrante de sua expedição.
A cada metro perdido em altitude, aumentavam suas chances de sobrevivência. Mas a cada hora que passava, diminuíam as chances de encontrar alguém na montanha. O Everest estava se esvaziando rapidamente e Hillary Dawa seguia sua longa descida sem imaginar que o pior ainda estava por acontecer.
A queda na greta
2 de junho
Após deixar o Campo 2 no dia 1º de junho, Hillary Dawa continuou sua descida solitária pela Cascata de Gelo do Khumbu.
A temporada já havia terminado oficialmente e a desmontagem da rota estava em andamento. Em um dos setores mais complexos da travessia, formado por uma longa sequência de escadas fixadas sobre uma enorme greta, uma das duas passagens existentes já havia sido removida. A outra permanecia instalada e permitiu que Dawa continuasse avançando em direção ao Campo Base.
O acidente aconteceu mais adiante, já próximo ao Crampon Point, um dos últimos obstáculos antes do final da Cascata de Gelo.
Segundo relatos divulgados posteriormente por familiares, a escada que normalmente permitia atravessar aquela greta já havia sido retirada durante a desmontagem da rota. Ao chegar ao local, Dawa encontrou apenas o vazio entre uma borda e outra.
Na tentativa de continuar a descida, tentou cruzar a abertura saltando.
Ele não conseguiu completar o salto.
A queda foi inevitável.
Caí em uma greta a partir da última escada instalada pelos Icefall Doctors naquele trecho.
O sherpa despencou para dentro da fenda e sofreu uma fratura na perna direita. Ferido, sem equipamentos de resgate e sem qualquer forma de comunicação, ficou preso em uma das regiões mais perigosas de toda a rota do Everest.
Depois de sobreviver à perda do rádio comunicador, à falta de oxigênio suplementar e a vários dias sozinho na montanha, Hillary Dawa agora enfrentava uma situação ainda mais dramática.
Ninguém sabia exatamente onde ele estava. Ninguém estava procurando por ele.
E escapar daquela greta profunda parecia praticamente impossível.
Foi ali que sua luta pela sobrevivência entrou na fase mais crítica.
O milagre
3 e 4 de junho
Preso dentro da greta, com a perna direita fraturada e sem qualquer possibilidade de pedir ajuda, Hillary Dawa passou quase dois dias lutando para sobreviver. Sem acesso a comida, ele relatou posteriormente que sobreviveu apenas mastigando gelo.
Mesmo naquela situação, não perdeu completamente a esperança.
Enquanto permaneci preso durante duas noites, algo dentro de mim dizia que alguém me veria durante a descida a partir do Campo 1 e me ajudaria a sair dali.
No dia 3 de junho, ele chegou a ouvir um helicóptero sobrevoando a região.
O resgate, porém, não aconteceu.
Ninguém conseguiu localizá-lo dentro da greta.
A salvação viria apenas no dia seguinte.
Segundo o próprio Dawa, uma avalanche criou uma rampa de gelo no interior da fenda.
Felizmente, uma avalanche criou uma rampa de gelo no interior da greta. Então tentei sair por ela. Consegui escapar e comecei a rastejar em direção ao Campo Base do Everest.
Depois de quase dois dias preso, Dawa finalmente encontrou uma rota de saída.
Ainda ferido, debilitado e incapaz de caminhar normalmente, começou a rastejar em direção ao Campo Base.
Poucas horas depois, na manhã de 4 de junho, integrantes da equipe de gestão de resíduos do SPCC avistaram uma figura se movendo lentamente nas proximidades do Crampon Point.
À medida que se aproximaram, perceberam que se tratava de Hillary Dawa Sherpa.
Seis dias após desaparecer na montanha, ele estava vivo.
Ferido, desidratado e exausto, mas vivo.
Contra todas as probabilidades, Hillary Dawa Sherpa havia sobrevivido.
As perguntas que continuam sem resposta
A sobrevivência de Hillary Dawa Sherpa já entrou para a história do Everest.
Mas sua história também levantou uma série de questionamentos.
Por que nenhuma equipe de busca foi enviada quando seu desaparecimento foi comunicado?
Por que pessoas ligadas à expedição já falavam em sua morte enquanto ele ainda tentava descer sozinho da montanha?
Por que um sherpa desaparecido permaneceu dias sem uma operação organizada de resgate?
Até hoje, não há respostas definitivas para essas perguntas.
O episódio gerou críticas à condução da situação e levantou dúvidas sobre os protocolos adotados após o desaparecimento de Hillary Dawa.
Enquanto ele lutava para sobreviver sozinho na montanha, muitos já acreditavam que não havia mais chances de encontrá-lo com vida.
O retorno
4 a 11 de junho
Após ser localizado pela equipe do SPCC na manhã de 4 de junho, Hillary Dawa foi retirado da montanha e levado para atendimento médico.
Inicialmente foi transportado de helicóptero para Surke. Mais tarde, seguiu para Katmandu, onde foi internado no Hospital HAMS.
Os exames confirmaram uma fratura na perna direita e congelamentos em alguns dedos da mão direita.
Depois de quase uma semana desaparecido, os médicos consideraram sua recuperação surpreendentemente positiva.
Após alguns dias na Unidade de Terapia Intensiva, ele foi transferido para um quarto comum, onde passou a receber visitas de familiares e amigos.
Mesmo depois de tudo o que havia vivido, manteve o bom humor.
Ao receber alta hospitalar, na noite de 11 de junho, fez apenas um pedido aos jornalistas que o aguardavam na saída.
Por favor, não tirem minha foto. Estou indo para casa agora.
O que Hillary Dawa enfrentou
- Perdeu o rádio comunicador
- Ficou sem oxigênio suplementar
- Passou dias sozinho na montanha
- Sobreviveu com chocolates, água e gelo
- Caiu em uma greta
- Fraturou a perna direita
- Permaneceu preso por quase dois dias
- Foi dado como desaparecido
- Sobreviveu seis dias até o resgate
Depois de seis dias desaparecido, uma queda em uma greta, uma perna quebrada, congelamentos e uma semana sobrevivendo praticamente sozinho na montanha mais alta do planeta, Hillary Dawa Sherpa finalmente voltou para casa.
Sua história passa a integrar uma curta lista de episódios que desafiam a lógica e reforçam por que o Everest continua sendo um lugar onde sobrevivência, experiência, sorte e acaso muitas vezes caminham lado a lado.





