Há um momento em que o mundo deixa de parecer real.
Tudo funciona, tudo responde, tudo é imediato. As telas nos acompanham o tempo todo, mediando relações, emoções e até experiências. Vivemos conectados, informados, estimulados — e, ainda assim, algo falta. Falta silêncio. Falta risco. Falta verdade. A paisagem urbana, iluminada e eficiente, cria a ilusão de controle, mas nos afasta lentamente daquilo que nos torna humanos: o contato direto com o imprevisível.
Em Blade Runner, a sociedade é distópica, dominada por tecnologias avançadas e por androides que imitam emoções humanas. A pergunta central do filme não é sobre máquinas, mas sobre nós. O que ainda nos diferencia quando tudo passa a ser simulado? Quando sentimentos, memórias e experiências podem ser reproduzidos artificialmente?
A aventura nasce exatamente desse incômodo.
Como escritor e aventureiro, crio expedições longas justamente para romper com esse mundo filtrado pelas telas. Caminhar por semanas, atravessar montanhas, enfrentar o cansaço, o frio e o silêncio é uma forma consciente de retorno às raízes. Na natureza, nada simula nada. O frio é frio. O cansaço é real. O erro cobra seu preço. E, por isso mesmo, cada decisão importa.
Talvez seja por isso que tanta gente se sinta deslocada nas cidades e inteira nas montanhas. A aventura não é fuga do mundo moderno. É reconexão. Um retorno ao corpo, ao tempo lento, à atenção plena. Um espaço onde não há replicações, apenas presença.
Enquanto o mundo insiste em nos transformar em espectadores atrás de telas, a aventura nos devolve o papel principal.
E você, quando foi a última vez que viveu algo sem filtros?
E, se você ainda não assistiu a esse clássico dos anos 1980, aproveite: está no HBO Max. E, já que falamos de jornadas, se ainda não garantiu o meu novo livro Via Alpina: compre agora.





