Hoje, li no portal Extremos sobre a constatação de que o corpo de Bernardo Collares não foi encontrado no local onde foi deixado por sua companheira de escalada, Kika Bradford, em janeiro deste ano. Dúvidas sobre o que pode ter acontecido não são objeto deste artigo, por isso não focarei nelas. Uma coisa que sempre me chama a atenção quando acontecem tragédias são os comentários, como o de ser aquele o lugar ideal para a pessoa descansar, cercada pelo meio ambiente que amava. Que tal pensarmos na morte "ideal" que gostaríamos de ter (já que é um evento inevitável)? Será tão bom assim, nessa passagem, ficar sozinho e machucado e, se consciente, saber que não tem como sair dali, mas ao mesmo tempo na esperança de que pode ser que consiga, pode ser que o socorro chegue, pode ser que... Porque uma coisa é certa: ninguém quer morrer, por mais que tenha o discurso de que se algo acontecer, tudo bem, estamos aí correndo risco mesmo. Se isso fosse verdade, por que lutar até o fim para sair daquela situação? Não seria o caso de simplesmente se entregar?
Por fim, que tal pensarmos no impacto de um evento traumático desse, principalmente para familiares, obrigados de uma hora para a outra a enfrentarem todas as dificuldades (burocráticas e na maioria das vezes também [ou principalmente] financeiras) para se deslocarem e tratarem sobre o assunto morte, num país estrangeiro ou não, em meio à dor da perda e impossibilitados (quando não há resgate) de se despedirem daquela pessoa e fazerem um fechamento emocional e afetivo. Basta lermos o relato da mãe de Bernardo para entendermos melhor o que isso significa. E agora, com essa novidade de que o corpo sumiu de onde estava?
E para completar, os que ficam têm de lidar também com questões legais, pois sem corpo não há atestado de óbito automático, o que significa batalha jurídica (e tudo o que sabemos que ela envolve) para provarem a morte irreconhecida pelo Estado, mas pela qual choram, lamentam e gostariam de vivenciar de forma reservada.
Seria esse o legado final que alguém deseja que as pessoas que ficam vivenciem depois que ela se for?
Desejo que Bernardo tenha levado o melhor de sua existência neste planeta; que Kika se recupere desse trauma e que ele não afete seu amor pelas montanhas; e que os familiares do Bernardo encontrem muita força para enfrentarem toda a burocracia envolvida em sua morte, todas as dificuldades advindas dela aqui e em outro país, toda a angústia para saberem o que realmente aconteceu depois que ele foi deixado ferido naquele platô e que n'algum momento encontrem o silêncio e o sossego que precisam para se despedirem dele em paz, guardando no coração as melhores lembranças do que compartilharam juntos.





