Cursos da OBB "Outward Bound Brasil". Vez ou outra eu me lembrava deles, mas passava. Ora era falta de tempo, ora era falta de dinheiro. Uma hora dessas consigo fazer um, pensava. E foi o que finalmente aconteceu em janeiro de 2007, quando me inscrevi no FEAL - formação de educadores ao ar livre -, que aconteceu na Serra do Cipó (MG), porção da cadeia da Serra do Espinhaço que se estende da Bahia a Minas Gerais.
O ponto de encontro e QG da OBB na região é a pequena Lapinha, aos pés dos paredões da serra, onde cheguei de ônibus na companhia de várias pessoas que saíram comigo da cidade de São Paulo, depois de chacoalharmos os últimos quilômetros em estrada de terra cercada por belas paisagens que já davam uma prévia do que teríamos durante o curso. Lá, fomos recebidos por instrutores e outros participantes que já haviam chegado.
"Outward bound" é uma expressão náutica que designa o momento em que um navio deixa o porto seguro e se expõe aos desafios do mar aberto. A entidade de mesmo nome, sem fins lucrativos, foi criada em 1941 em Aberdovery, País de Gales, por Kurt Hahn e Sir Lawrence Holt. Inicialmente, o curso era voltado para marinheiros jovens e inexperientes que, como parte do treinamento, eram expostos a tarefas progressivamente mais desafiadores ao ar livre, sem interferência de máquinas e instrumentos complexos, para que percebessem seu potencial e desenvolvessem autoconfiança. Como consta no primeiro parágrafo do manual que recebi: "Soltar as amarras das pessoas de seus abrigos seguros, como lar, família e rotinas familiares para crescer por meio de experiências, dificuldades e aventuras é a base da Outward Bound".
O formato de seus treinamentos fez tanto sucesso que acabou sendo levado para várias partes do mundo. Hoje, são mais de 30 escolas em diferentes países, adaptadas a cada cultura, população e condição socioeconômica, sem perder a essência desde sua fundação: todas as suas atividades são feitas ao ar livre, pois Hahn e Sir Holt acreditavam que o contato direto com a natureza, aprendendo a lidar com seus desafios e admirando sua beleza, é fundamental para a educação e o fortalecimento do indivíduo, e que a educação também tinha que considerar o desenvolvimento integral de cada um. Seus valores? Desenvolvimento de caráter, responsabilidade social e ambiental, solidariedade e serviço, aventura e desafio, aprendizado por meio de experiência direta e, embalando tudo isso, a busca pela excelência em qualquer ação.
Desde o momento da inscrição no curso, sabia que seria uma experiência, entre outros aspectos, desafiante. Apesar de adorar atividades em contato com a natureza, nunca havia carregado mochila cargueira com muito peso, por exemplo, e eu sabia que isso aconteceria. Eu conhecia a Serra do Cipó, tinha noção dos altos e baixos que nos esperavam e teríamos de levar tudo o que utilizaríamos, mais comida para os primeiros sete dias, quando, então, seríamos reabastecidos, além de nossos pertences pessoais, de forma que, mesmo respeitando os limites de cada um, ninguém ficasse sobrecarregado.
Nosso grupo era formado por duas instrutoras - Claudia Vidigal, a Cau, e Silvia Guimarães, a Shubi - e 11 estranhos - de diferentes partes do Brasil - dispostos a vivenciar da melhor forma possível nossa experiência de 13 dias. Após o quebra-gelo inicial para nos apresentarmos ao grupo, começamos a separar comida, equipamentos e pertences pessoais que levaríamos. De repente, com a ajuda das instrutoras, vimos que havíamos levado excesso de tudo: roupas, calçados, acessórios e produtos de toalete e higiene. A partir daquele momento o que valia era a máxima do urso Balu, amigo do Mogli: necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais.
Primeira instrução: como organizar sua mochila. Depois que a minha estava pronta, um pequeno susto: ao levantá-la para acomodá-la em minhas costas para o início da caminhada, confirmei que realmente nunca havia carregado tanto peso. E nem era tanto assim, talvez uns 15 kg, no máximo, e que nem se comparava ao que meus outros companheiros estavam levando - algumas mochilas eu não consegui tirar do chão mesmo com as duas mãos. Hora de colocar botas e tênis na trilha. Estava feliz por estar ali e me propus a realmente viver um dia de cada vez ao lado daquelas pessoas, aberta para o que acabou sendo uma das experiências inesquecíveis em minha vida.
Logo após nossa saída da Lapinha, no meio da tarde, nuvens carregadas começaram a pairar sobre nossas cabeças, enquanto as primeiras interações com conversas e risadas acompanhavam os passos cadenciados em ritmos diferentes. Meu preparo físico àquela época não estava dos melhores, mas eu sabia que atitude mental e paciência seriam necessárias para que eu pudesse superar limites físicos e desafios que chegariam naturalmente.
Por que um curso desse? Porque eu queria aprender. Não optei por fazê-lo para ensinar outras pessoas, levar grupos para atividades ao ar livre. No máximo, compartilhar com amigos. Queria aprimorar minhas habilidades nesse meio natural, aprender outras, estar melhor preparada para as próximas vezes que eu saísse em um trekking, por exemplo. Nesse aspecto, meu objetivo foi atingido plenamente.
A chuva quase não deu sossego nos 13 dias em que caminhamos os cerca de 100 km pela serra. Acho que só não choveu um dia. Houve momentos de estiagem, quando aproveitava para fotografar. Minha lombar não agüentou o peso e me incomodou todos os dias. Em um deles, tive de pedir arrego ao resto da galera e dividir o peso que eu deveria carregar. Havia chegado ao meu limite. Não faltou companheirismo e compaixão, aspectos que também eram trabalhados em meio a tantos outros. A verdade é que de certa forma nos revezávamos no colo que dávamos uns aos outros.
Paisagens incríveis que fotos, por melhores que sejam, não conseguem mostrar na totalidade, ar puro, as várias espécies de flores da serra, cooperação na montagem das barracas depois de um longo dia de caminhada, às vezes com chuva na cabeça, a reunião de todos na 'cozinha' sob a tarpe vermelha, as brincadeiras e a troca constante entre instrutores e participantes recompensavam o esforço e o cansaço que foram sendo acumulados com o passar dos dias. Instruções sobre a arte de instruir, de se comunicar, de resolver conflitos, de desenvolver e estimular trabalho em grupo e de liderar foram sendo transmitidas em vários momentos ao longo dos dias e das noites, mescladas com atividades práticas, como orientação com uso de mapa e bússola e treinamento do olhar para reconhecer acidentes geográficos, preparação de refeições com ingredientes diversos, aulas ao ar livre, higiene, primeiros socorros, animais peçonhentos, como se proteger de insetos e raios - e tivemos realmente a oportunidade de praticar essa parte, pois foram muitos raios duplos, triplos, quádruplos...
Falta de banho diário, principalmente graças à chuva, foi constante - é bom não esquecer que um dos propósitos do curso é o de tirar a pessoa de sua zona de conforto. Quando ele acontecia nos riachos e cachoeiras, era sem sabonete ou xampu para não poluir a água. Para necessidades fisiológicas, a latrina tinha de ser cavada na terra sob determinada profundidade, longe de água corrente e, em caso de uso de papel higiênico, este deveria ser acondicionado apropriadamente e levado pelo usuário e não enterrado. Todo e qualquer lixo, orgânico ou não, tinha de ser recolhido, acondicionado e carregado por todo o percurso, fazendo valer a máxima do "leave no trace" (não deixe rastros). Utilização de álcool gel antes de qualquer atividade que envolvesse preparação de alimentos era obrigatória, bem como o uso de calçados fechados na cozinha. Montagem e desmontagem de barracas e da cozinha com ou sem chuva eram atividades que deveriam ser realizadas por todos. Lavagem de vasilhas sem utilização de detergente foi realmente uma novidade, bem como lavagem de roupa sem sabão em pó. Ênfase no respeito pelos lugares que percorríamos, evitando abrir trilhas quando havia alguma já demarcada, e travessias seguras de rios e riachos, com ajuda de todos e observando regras estritas de segurança, foram constantes em todos os dias.
Outras experiências não têm como ser divididas neste texto. Foi surpreendente ver como precisamos de tão pouco para vivenciarmos tanto, para estabelecermos um contato tão direto com a natureza. Parece que em alguma parte de nós mora, esquecido, um lado selvagem que se regozija com essa proximidade, ao mesmo tempo em que a teme por saber que seu poder sobre nós é total. De vez em quando me pego com vontade de vivenciar aquilo tudo de novo e, depois dessa experiência, todas as vezes que vou fazer trekking me sinto mais segura e preparada. Tenho saudade de mato, de longas caminhadas, de sentar em alguma pedra e ficar com o olhar perdido na imensidão e na beleza de lugares como a Serra do Cipó. Felizmente, ainda existem vários deles espalhadas por este planeta. Lamentei apenas uma coisa: não ter visto o céu estrelado naqueles 13 dias. Graças a outros passeios que fiz por lá, conheço aquele céu em noites limpas e sei que é um show à parte. Mas janeiro é mês das muitas vezes torrenciais, mas sempre bem-vindas chuvas.
A você, leitor, recomendo que se tiver oportunidade, participe dos programas oferecidos pela OBB que, entre outros pontos positivos, prima por ter em seu staff pessoas competentes para levar grupos para vivenciar seus projetos. Esses instrutores fazem com que nos sintamos seguros e acolhidos e, mesmo em um ambiente a princípio inóspito, permitem que tenhamos medo, que demonstremos nossos receios, inseguranças e limites, e nos oferecem suporte para os ultrapassarmos de acordo com a nossa bagagem e nossa abertura interna. Vi isso acontecer comigo e com vários de meus companheiros. Depois que tiver sua experiência, com certeza seu contato com a natureza em seu aspecto mais selvagem será bem mais tranqüilo, respeitoso e de reverência. E isso naturalmente se estenderá à sua forma de interagir com o que lhe cerca onde você estiver. Afinal, este é o ponto principal de toda a vivência proposta: de que levemos conosco, aonde formos, todo o aprendizado, colocando-o em prática em qualquer situação.
Para saber mais sobre a OBB visite o site em português www.obb.org.br ou www.outwardbound.org, em inglês.





