Aplicação de uma marca de pegada amarela com estêncil em um tronco.
Trekking

Tropeçando na própria pegada

Uma trilha precisa de marcas que orientem, não de símbolos que compliquem o caminho.

Imagem meramente ilustrativa

O Brasil criou uma identidade visual para suas trilhas, mas adotou um sistema de marcação mais complexo do que o necessário. Enquanto países com milhares de quilômetros de trilhas sinalizadas e décadas de experiência acumulada apostam na simplicidade, a Rede Brasileira de Trilhas colocou o pertencimento e o potencial comercial entre os critérios para escolher um símbolo que deveria, acima de tudo, orientar os caminhantes.

Depois de percorrer milhares de quilômetros por trilhas de longa distância em diferentes países, aprendi que uma boa sinalização precisa atender a quatro princípios fundamentais: simplicidade, legibilidade, durabilidade e facilidade de manutenção. Na Suíça, percorri centenas de quilômetros na Via Alpina seguindo as tradicionais faixas branco-vermelho-branco, similares as que encontrei nas trilhas da Bavária, na Alemanha. Na Suécia, atravessei a Kungsleden seguindo marcas vermelhas pintadas em pedras e árvores. No Canadá, percorri a Great Divide Trail, onde os chamados blazes, marcas de geometria simples, orientam os caminhantes mesmo em regiões remotas, onde a manutenção representa um enorme desafio.

Essa experiência me levou a questionar o modelo adotado pela Rede Brasileira de Trilhas, principalmente depois de ler o artigo “Os caminhos que levaram à padronização da sinalização na Rede Brasileira de Trilhas”, publicado em abril de 2021 por Pedro da Cunha e Menezes e José Carlos Sícole Seoane, e assistir ao vídeo “Sinalização rústica: Como usar as pegadas amarelas e pretas para sinalizar as Trilhas Brasileiras”, no qual Pedro explica a origem do modelo brasileiro. Ambos os materiais mostram que a escolha das pegadas amarelas e pretas não foi motivada apenas por critérios técnicos de orientação, mas também pela intenção de criar uma identidade visual capaz de gerar pertencimento e estimular a comercialização de produtos turísticos.

Essa reflexão também encontra eco nas dezenas de mensagens que recebo e nas conversas que mantenho com pessoas ligadas ao universo da aventura. Muitas compartilham críticas a diferentes aspectos do nosso segmento, mas poucas estão dispostas a se posicionar publicamente. Entre elas, há inclusive pessoas influentes no meio, que preferem o silêncio por acreditarem que nada vai mudar, por receio de se expor ou simplesmente por considerarem determinados problemas parte da nossa cultura. Respeito essa escolha, mas penso de forma diferente. Se temos experiência para identificar o que não funciona, também precisamos ter disposição para questionar e contribuir para que as coisas melhorem.

O erro começou antes das pegadas

A história da sinalização brasileira passou pela influência americana. Durante visitas técnicas aos Estados Unidos, os responsáveis pelo projeto conheceram o sistema utilizado na Appalachian Trail, baseado em retângulos brancos pintados em árvores e outras superfícies. Segundo Pedro da Cunha e Menezes, os próprios americanos recomendaram que o Brasil não reproduzisse aquele modelo, por considerá-lo pouco intuitivo para uma rede de trilhas. A solução encontrada foi adotar setas, consideradas universais e facilmente compreendidas por qualquer caminhante, independentemente do idioma.

Na minha avaliação, o primeiro equívoco começou justamente nessa escolha. As setas amarelas são amplamente conhecidas no Caminho de Santiago, uma rota histórica de peregrinação que atravessa cidades, vilarejos e áreas rurais. Embora também seja percorrida por caminhantes de longa distância, sua tradição e suas características são diferentes das grandes travessias de montanha. Na Europa existem há décadas outros modelos consolidados de sinalização, baseados em faixas coloridas e marcas geométricas simples, que encontrei pessoalmente nas trilhas da Suíça e da Bavária.

Na Bavária, placas amarelas indicam destinos, tempos de caminhada e números das rotas junto à trilha.
Na Bavária, placas amarelas indicam destinos, tempos de caminhada e números das rotas junto à trilha.
Foto: Elias Luiz | Extremos

O que mais me chamou a atenção foi a explicação apresentada por Pedro da Cunha e Menezes no vídeo da Rede Brasileira de Trilhas. Ao relatar as visitas técnicas à Europa, Pedro afirma que os europeus recomendaram abandonar as setas, não por problemas de orientação ou manutenção, mas porque elas não despertavam pertencimento nem poderiam ser transformadas em produtos comerciais. Segundo suas próprias palavras:

“Sim, mas a seta não traz pertencimento, as pessoas não se sentem apaixonadas por uma seta e também ela não vira um produto. Ela não vira uma camiseta, ela não vira um chaveiro, ela não vira um adesivo.”

Pedro da Cunha e Menezes

A declaração é reveladora. Naquele trecho da apresentação, os tradicionais sistemas de faixas coloridas utilizados nas trilhas de montanha europeias não entram na discussão. Isso não significa que os responsáveis pelo projeto os desconhecessem, mas chama a atenção que sistemas consolidados há décadas em milhares de quilômetros de trilhas não apareçam naquela justificativa. Por que não priorizar uma comparação técnica sobre eficiência, durabilidade e facilidade de manutenção antes de procurar uma nova identidade visual?

O argumento comercial também está registrado no artigo publicado pela própria Rede Brasileira de Trilhas em 2021. Os autores reconhecem que as setas mostravam corretamente o caminho, mas não geravam pertencimento nem se transformavam em produtos vendáveis. O texto vai além ao defender diferentes logomarcas regionais como forma de estimular a compra de novos produtos durante uma travessia. Pela lógica apresentada, um caminhante poderia adquirir novas camisetas, adesivos e lembranças ao passar por trilhas com identidades próprias.

É justamente aqui que considero ter ocorrido o principal erro de concepção do sistema brasileiro. Uma sinalização não deveria ser escolhida por sua capacidade de vender camisetas, bonés ou souvenirs, mas pela eficiência com que orienta as pessoas e pela facilidade com que pode ser reproduzida e mantida. Nada impede que uma trilha desenvolva produtos, gere renda ou possua uma identidade visual própria. O problema está em confundir a logomarca de uma trilha com a sinalização que precisa conduzir os caminhantes.

Quando a identidade visual atrapalha a orientação

Basta observar o conjunto de pegadas brasileiras para perceber o excesso de informações concentradas em um único símbolo. Em muitos casos, a marca tenta representar três elementos ao mesmo tempo: uma seta, uma pegada e, dentro da pegada, uma ilustração regional com animais, plantas, monumentos ou outros desenhos. O resultado é uma composição visualmente carregada, com detalhes que competem entre si e dificultam uma leitura rápida.

Quadro de pegadas amarelas e pretas da Rede Brasileira de Trilhas, com diferentes ilustrações regionais no interior de cada marca.
Imagem: Rede Brasileira de Trilhas — Os caminhos que levaram à padronização da sinalização na Rede Brasileira de Trilhas.

O problema aumenta quando a seta precisa ser posicionada na horizontal para indicar uma mudança de direção. Nesse momento, a pegada e a ilustração interna também ficam deitadas, perdendo parte de sua legibilidade. Uma arte que pode funcionar em uma camiseta ou adesivo não necessariamente funciona quando pintada em um tronco, a vários metros de distância, sob chuva, neblina ou pouca luminosidade.

Na sinalização de uma trilha, a prioridade deve ser a orientação imediata. O caminhante não deveria precisar interpretar uma composição gráfica elaborada para reconhecer o caminho. Quanto mais simples o símbolo, mais fácil será identificá-lo, reproduzi-lo e restaurá-lo.

Na Via Alpina, uma marca branco-vermelho-branco pintada na rocha sinaliza o percurso em meio à vegetação.
Na Via Alpina, uma marca branco-vermelho-branco pintada na rocha sinaliza o percurso em meio à vegetação.
Foto: Elias Luiz | Extremos

Identidade visual: o modelo americano está muito à frente

Quando comparamos as identidades visuais das trilhas brasileiras com as americanas, a diferença é evidente. Os Estados Unidos desenvolveram uma família de emblemas para suas trilhas nacionais, com formatos semelhantes, proporções equilibradas e espaço para que cada percurso represente sua própria história. Appalachian Trail, Pacific Crest Trail, Continental Divide Trail, Oregon Trail e diversas outras rotas possuem símbolos distintos, mas preservam uma linguagem gráfica comum. Na minha avaliação, o resultado é muito mais profissional, limpo e organizado do que o conjunto de pegadas brasileiras.

E esse padrão não ficou restrito a uma única trilha. O National Trails System reúne diferentes categorias de percursos, com identidades próprias dentro de uma estrutura institucional reconhecível. Outros países também desenvolveram sistemas de identidade visual para seus caminhos, demonstrando que é possível criar uma marca nacional sem exigir que cada desenho regional se transforme na principal marcação pintada ao longo de toda a trilha.

Emblema de National Trails System — 50 anos
Emblema de Appalachian Trail
Emblema de Continental Divide Trail
Emblema de Pacific Crest Trail
Emblema de Captain John Smith Chesapeake
Emblema de El Camino Real de los Tejas
Emblema de Iditarod
Emblema de Lewis and Clark
Emblema de Nez Perce (Nee-Me-Poo)
Emblema de Oregon Trail
Emblema de Pony Express
Emblema de Trail of Tears
Emblema de Washington-Rochambeau

O aspecto mais importante, entretanto, está na separação entre identidade visual e orientação. O próprio National Park Service, na documentação oficial da Potomac Heritage National Scenic Trail, estabelece que o emblema da trilha não deve substituir os blazes ou outras marcas quando a orientação direcional for necessária. Isso não impede que os logotipos apareçam em placas e marcadores, mas reconhece que identificar uma trilha e mostrar o caminho são funções distintas.

É justamente essa distinção que considero ausente na concepção brasileira. Enquanto os americanos conseguem trabalhar com emblemas elaborados sem obrigar que toda a sinalização dependa deles, o Brasil incorporou a identidade regional à própria marca pintada em campo. O resultado é um sistema no qual a criatividade gráfica acaba impondo dificuldades desnecessárias à orientação e à manutenção.

O custo oculto da complexidade

A diferença entre os sistemas aparece principalmente na aplicação. Uma faixa ou um retângulo simples pode ser pintado rapidamente com pincel, sem exigir desenhos internos ou moldes elaborados. Já uma pegada personalizada depende de um estêncil específico, posicionamento cuidadoso e aplicação precisa para preservar seus detalhes.

Em determinadas situações, o trabalho pode envolver até três pessoas para executar uma única marca: uma segurando o molde, outra aplicando a tinta e uma terceira auxiliando na fixação e no posicionamento. Embora isso não represente necessariamente todas as equipes, demonstra o esforço que um símbolo complexo pode exigir. Agora imagine repetir esse procedimento centenas ou milhares de vezes ao longo de uma trilha e retornar anos depois para fazer a manutenção.

Existe também a questão da durabilidade. Parte dessas marcações é aplicada com tinta spray, cuja resistência depende da formulação, da superfície e das condições ambientais. Há relatos de caminhantes que percorreram trilhas no entorno de Brasília e encontraram marcas bastante apagadas já no ano seguinte. Esses relatos precisam ser documentados e não permitem generalizar o problema para toda a rede, mas reforçam a necessidade de avaliar a vida útil dos materiais utilizados.

O Brasil possui dimensões continentais, diferentes biomas, longos períodos de chuva, forte exposição solar e grandes dificuldades de manutenção. Em um sistema que depende significativamente de voluntários, cada minuto adicional de pintura representa trabalho acumulado. A eficiência não pode ser medida apenas pela aparência de uma marca recém-aplicada, mas também pelo tempo e pelo custo necessários para mantê-la legível durante anos.

A melhor sinalização do mundo?

Outro ponto questionável do artigo publicado pela Rede Brasileira de Trilhas é a afirmação de que a sinalização brasileira seria “provavelmente, a melhor do mundo”. Trata-se de uma declaração ousada, especialmente quando não é acompanhada por estudos comparativos de eficiência, legibilidade, durabilidade, produtividade e custos de manutenção. O reconhecimento institucional e os elogios recebidos têm valor, mas não substituem indicadores técnicos.

Quanto tempo leva para pintar uma pegada personalizada em comparação com uma faixa simples? Qual delas permanece legível por mais tempo? Quantos quilômetros uma equipe consegue sinalizar por dia? Quanto custa manter cada modelo depois de cinco ou dez anos? E, principalmente, qual oferece melhores resultados de orientação em campo?

Não é necessário percorrer os 390 quilômetros da Via Alpina ou os 440 quilômetros da Kungsleden para perceber a diferença. Basta caminhar um único dia por essas trilhas para compreender o quanto o Brasil ainda precisa evoluir. Na Suíça, as tradicionais faixas branco-vermelho-branco são facilmente identificadas em pedras e árvores, acompanhadas por placas direcionais padronizadas, instaladas em postes metálicos. Na Suécia, marcas vermelhas orientam os caminhantes por centenas de quilômetros, seguindo critérios de cor, posicionamento e visibilidade. São sistemas que demonstram planejamento, simplicidade e preocupação com a manutenção.

Na Kungsleden, na Suécia, a pintura vermelha sobre uma pedra destaca o caminho na paisagem aberta.
Na Kungsleden, na Suécia, a pintura vermelha sobre uma pedra destaca o caminho na paisagem aberta.
Foto: Elias Luiz | Extremos

Em minhas caminhadas, observei marcas de tinta com camadas espessas, aparentemente muito resistentes às condições climáticas. São pinturas que transmitem a impressão de terem sido feitas para permanecer legíveis durante anos, enfrentando chuva, neve, sol e grandes variações de temperatura. Na Suíça, a qualidade das placas metálicas e de seus suportes também chama a atenção. Não se trata apenas de indicar uma direção, mas de construir um sistema durável, cuja manutenção possa ser planejada a longo prazo.

Na Via Alpina, placas direcionais fixadas em um poste metálico informam destinos e tempos de caminhada, com marcas para trilhas de montanha e rotas alpinas.
Na Via Alpina, placas direcionais fixadas em um poste metálico informam destinos e tempos de caminhada, com marcas para trilhas de montanha e rotas alpinas.
Foto: Elias Luiz | Extremos

E estou falando apenas de sinalização. Se ampliarmos a comparação para a infraestrutura das trilhas, o abismo se torna ainda maior. A Kungsleden, situada em uma região subártica de difícil acesso, conta com pontes metálicas, pontes suspensas, cabanas de montanha, abrigos de emergência e barcos a remo disponibilizados gratuitamente em determinados pontos para travessias de rios e lagos. Além disso, possui quilômetros e quilômetros de passarelas de madeira elevadas, conhecidas na Suécia como spänger, que atravessam áreas pantanosas e terrenos alagados. São estruturas extensas, construídas com pranchas, travessas e suportes, que facilitam a passagem e protegem a vegetação do pisoteio. Tudo isso exige planejamento, transporte de materiais, instalação e manutenção periódica em uma das regiões mais remotas do norte da Europa. E estamos falando de uma única trilha, que atravessa aproximadamente 440 quilômetros de território sueco.

Isso não significa que os sistemas suíço e sueco sejam perfeitos ou que dispensem manutenção. Significa que representam décadas de experiência, investimento e aperfeiçoamento, com soluções desenvolvidas para funcionar em condições naturais extremamente exigentes. Antes de classificar a sinalização brasileira como uma das melhores do mundo, seria necessário demonstrar, com dados, que ela oferece resultados comparáveis.

Sem respostas fundamentadas nessas questões, a superioridade do sistema brasileiro permanece uma opinião, não uma conclusão técnica.

Caminhante com mochila azul sobre uma passarela de madeira na Kungsleden, entre montanhas e vegetação de outonoLeia também · TrekkingComo a Suécia cuida de suas trilhasConheça a responsabilidade, a infraestrutura e a manutenção permanente por trás do modelo sueco.Ler artigo

A sinalização deve mostrar o caminho, não vender o caminho

A Rede Brasileira de Trilhas merece reconhecimento por mobilizar voluntários, gestores e instituições em torno de uma rede nacional de caminhos. Esse trabalho é importante e contribui para ampliar o acesso às trilhas no país. Mas reconhecer seus méritos não significa aceitar todas as decisões tomadas durante seu desenvolvimento.

Acredito que o Brasil tenha invertido uma prioridade fundamental ao permitir que objetivos de pertencimento e comercialização influenciassem diretamente a escolha do símbolo utilizado em campo. Uma marca turística pode ser elaborada, regionalizada e comercialmente atraente. Uma marca de orientação deve ser, antes de tudo, simples, imediatamente reconhecível, durável e fácil de manter.

O país não precisa destruir a identidade visual construída ao longo dos últimos anos. Precisa reconhecer que a logomarca de uma trilha e a sinalização que orienta seus caminhantes não precisam ser a mesma coisa. Os exemplos internacionais mostram que é possível preservar a identidade regional sem transformar cada marca pintada na natureza em uma peça de divulgação.

Depois de tantos anos percorrendo trilhas pelo mundo, continuo convencido de que a melhor sinalização é aquela que cumpre sua função sem chamar a atenção para si mesma. Ela aparece quando precisamos, confirma a direção correta e desaparece novamente na paisagem.

A melhor sinalização do mundo não é aquela que vende mais camisetas ou aparece em mais fotografias. É aquela que permite percorrer uma trilha inteira com segurança, sem precisar perguntar para onde seguir.

Fontes e referências

Artigo · Rede Brasileira de TrilhasOs caminhos que levaram à padronização da sinalização na Rede Brasileira de Trilhas

Rede Brasileira de Trilhas: Pedro da Cunha e Menezes e José Carlos Sícole Seoane. Publicado em 16 de abril de 2021.

Vídeo · YouTubeSinalização rústica: Como usar as pegadas amarelas e pretas para sinalizar as Trilhas Brasileiras

Rede Brasileira de Trilhas (YouTube). Apresentação de Pedro da Cunha e Menezes sobre a origem e os critérios de escolha da sinalização brasileira.

Orientação · National Park ServiceTools for Route Marking & Graphic Identity — Potomac Heritage National Scenic Trail

National Park Service (Estados Unidos). Orientações oficiais sobre identidade visual, emblemas e marcação direcional.

Legislação · National Trails SystemNational Trails System Act

National Trails System, de 1968. Legislação federal americana que estabelece a estrutura do sistema nacional de trilhas.