Placas amarelas de sinalização nas montanhas da Via Alpina, na Suíça.
Trekking

Sinalização de trilhas: quando o simples funciona

Via Alpina, Kungsleden e Great Divide Trail: o que a sinalização das trilhas na Suíça, na Suécia e no Canadá pode ensinar ao Brasil.

Via Alpina · Suíça · Foto: Elias Luiz | Extremos

Depois de percorrer a Via Alpina, na Suíça, a Kungsleden, na Suécia, e a Great Divide Trail, nas Rocky Mountains canadenses, encontrei três sistemas de sinalização bastante diferentes, mas que seguem princípios semelhantes: simplicidade, padronização, visibilidade e facilidade de manutenção. Três experiências que podem ajudar a refletir sobre a maneira como estamos sinalizando nossas trilhas no Brasil.

Em 2024 percorri cerca de 390 quilômetros pela Via Alpina, de Vaduz, em Liechtenstein, a Montreux, atravessando a Suíça de leste a oeste em uma caminhada que se transformaria no meu sexto livro, Via Alpina – A Travessia da Suíça. Durante 20 dias passei por cidades, pequenas vilas, florestas, pastagens e 14 dos grandes passos dos Alpes. O cenário mudava diariamente, assim como os cantões e até os idiomas, mas havia algo que permanecia exatamente igual: a maneira como as trilhas eram sinalizadas.

Depois de alguns dias caminhando, eu já não precisava pensar para entender aquelas marcações. Uma placa amarela indicava os destinos e o tempo de caminhada. Uma marca branco-vermelho-branco pintada sobre uma pedra indicava uma trilha de montanha. Se encontrasse branco-azul-branco, sabia que estava diante de uma rota alpina mais exigente. Era uma linguagem extremamente simples que, depois de aprendida, funcionava em praticamente qualquer lugar do país.

Isso me chamou atenção porque uma rede de trilhas dessa dimensão não pode depender da maneira como cada cidade, parque ou região decide sinalizar seus caminhos. Precisa existir um padrão. E na Suíça ele existe, com normas nacionais que estabelecem como a sinalização deve funcionar e um manual específico que orienta desde o planejamento e a instalação até o controle e a manutenção das marcações.

Mãe e filha belgas seguem à minha frente por um trecho alpino da Via Alpina. Minutos antes, a placa destacada no círculo inferior indicava o início de uma trilha branco-azul-branco. Mais adiante, a marcação pintada sobre a rocha, ampliada no círculo superior, confirma a categoria e o caminho a seguir.
Mãe e filha belgas seguem à minha frente por um trecho alpino da Via Alpina. Minutos antes, a placa destacada no círculo inferior indicava o início de uma trilha branco-azul-branco. Mais adiante, a marcação pintada sobre a rocha, ampliada no círculo superior, confirma a categoria e o caminho a seguir.
Foto: Elias Luiz | Extremos

UMA LINGUAGEM PARA O PAÍS INTEIRO

A Suíça divide suas trilhas de caminhada em três categorias principais, identificadas pelas cores utilizadas nas placas e nas marcações encontradas pelo caminho. As trilhas comuns utilizam o amarelo, as trilhas de montanha são identificadas por branco-vermelho-branco e as trilhas alpinas, tecnicamente mais exigentes, utilizam branco-azul-branco. Portanto, antes mesmo de ler qualquer informação, a cor já transmite ao caminhante informações sobre o tipo de percurso que encontrará.

Durante a Via Alpina, grande parte do meu percurso seguia pelas trilhas de montanha. As faixas brancas e vermelhas apareciam pintadas sobre pedras, árvores, muros e outros pontos do caminho. Nos trechos onde a direção era evidente, as marcações apenas confirmavam que eu continuava na rota correta. Quando surgia uma bifurcação ou mudança importante de direção, apareciam novas indicações.

O interessante é que eu não precisava encontrar escrito Via Alpina em cada pedra para saber que estava no caminho. A rota utiliza a rede de trilhas existente na Suíça e sua identificação específica pode aparecer nas placas, mas a sinalização básica continua obedecendo à mesma linguagem utilizada nas demais trilhas do país.

Essa talvez seja uma das maiores qualidades do modelo suíço — e sua importância fica ainda mais evidente quando se considera a escala da rede: a Suíça tem cerca de 65 mil quilômetros de trilhas de caminhada, segundo a Schweizer Wanderwege, a associação nacional de trilhas do país. Quando um caminhante aprende o significado de uma marca em uma determinada região, consegue reconhecer aquela mesma linguagem em qualquer outra parte do país. Não é necessário aprender novamente como funciona a sinalização cada vez que se inicia uma nova trilha.

Poste de sinalização em Gaflei, Liechtenstein, com placas amarelas, placa azul para Drei Schwestern, números de rotas e indicação de altitude.

Em Gaflei, a 1.483 metros de altitude, em Liechtenstein, este poste reúne diferentes elementos do sistema de sinalização no ponto de partida da Via Alpina, cujo percurso segue depois pela Suíça:

  • Placa azul: indica uma trilha alpina tecnicamente mais exigente. Neste caso, aponta para Drei Schwestern e utiliza a ponta branco-azul-branco.
  • Placas amarelas: apresentam os destinos, a direção e o tempo estimado de caminhada. O fundo amarelo é utilizado tanto nos caminhos comuns, em geral menos exigentes tecnicamente, como nos caminhos de montanha; portanto, a cor do fundo, sozinha, não define a dificuldade. No padrão suíço, a ponta amarela identifica um caminho comum, enquanto a ponta branco-vermelho-branco identifica um caminho de montanha. Na fotografia, as pequenas setas da Via Alpina nº 1 têm a ponta branca, sem a faixa vermelha. Elas identificam o itinerário, mas essa ausência não permite concluir que toda a Via Alpina seja fácil: a rota percorre trechos de diferentes categorias, e é preciso observar também as placas de destino e a sinalização ao longo do caminho.
  • Ponta branco-vermelho-branco: identifica caminhos de montanha, que exigem firmeza nos passos e atenção ao terreno.
  • Placa marrom: aponta para o Mittelpunkt von Liechtenstein (Bargälla), o centro geográfico de Liechtenstein. A cor marrom identifica um ponto de interesse, não a dificuldade da trilha.
  • Painéis verdes com os números 1, 994 e 998: identificam itinerários: 1 é a Via Alpina; 994 é a Fürstensteig; e 998 é o Triesenberger Philosophenweg, o Caminho dos Filósofos de Triesenberg. Os números não representam graus de dificuldade: a categoria do trecho é indicada pela sinalização do caminho.
  • Placa branca: informa o nome do local, Gaflei, e a altitude de 1.483 metros.
  • Símbolo do ônibus: indica a possibilidade de conexão com transporte público no destino assinalado.
  • Painel informativo na parte inferior: com a figura do caminhante e a faixa branco-azul-branco, apresenta informações sobre as exigências das trilhas alpinas.

Em um único poste, o caminhante pode localizar-se, escolher o destino, estimar o tempo de caminhada, reconhecer a categoria do caminho e acompanhar uma rota específica.

Foto: Elias Luiz | Extremos

AS FAMOSAS PLACAS AMARELAS

Quem já caminhou na Suíça provavelmente conhece suas famosas placas amarelas. Elas estão por toda parte e, depois de algum tempo, tornam-se uma presença tão natural na caminhada que praticamente deixamos de perceber a quantidade de informações que carregam.

Eu adoro essas placas. Para mim, elas representam como as trilhas deveriam ser sinalizadas no mundo: simples, claras, padronizadas e eficientes. Gosto tanto delas que criei uma pequena maquete, que mantenho em meu escritório. Basta bater os olhos nela para minha mente vagar pelas trilhas e montanhas da Suíça.

As placas podem informar o local onde estamos, a altitude, os próximos destinos, a direção e o tempo estimado de caminhada. Quando existem vários destinos na mesma direção, eles aparecem na sequência do percurso: primeiro o destino mais próximo, depois os destinos intermediários e, por último, o destino final da rota. Símbolos também podem indicar transporte público e outras informações úteis. O manual prevê placas com indicação de destinos nos pontos de partida e de chegada, nos destinos intermediários e nas bifurcações da rede de trilhas.

A própria aparência da placa informa a categoria da trilha. Nas trilhas comuns, a placa é amarela. Nas trilhas de montanha, continua amarela, mas a ponta da seta recebe a sequência branco-vermelho-branco. Nas trilhas alpinas, a placa é azul e a ponta utiliza branco-azul-branco. Assim, antes mesmo de ler os destinos, o caminhante já consegue reconhecer a categoria do caminho que seguirá.

Nada disso é deixado ao acaso. As cores são definidas por códigos do sistema RAL e até as letras obedecem a um padrão. A tipografia indicada é a ASTRA-Frutiger Standard, com altura de referência de 30 milímetros e proporções estabelecidas na norma. Isso ajuda a explicar por que placas instaladas em regiões diferentes da Suíça mantêm praticamente a mesma aparência.

A construção também segue critérios técnicos. O manual recomenda placas de alumínio duro polido, com 5 milímetros de espessura. Uma das técnicas utilizadas é a serigrafia, com aplicação das diferentes cores e posterior proteção contra a radiação ultravioleta. Na comparação apresentada pelo manual, essa solução tem custo relativamente alto, mas uma vida útil observada de aproximadamente 30 anos. É uma referência de durabilidade, não uma garantia para toda placa instalada. O documento também apresenta a impressão digital sobre uma película de alto desempenho como alternativa mais econômica, porém com durabilidade menor.

Os suportes seguem a mesma lógica. Sempre que possível, as placas podem aproveitar estruturas já existentes. Quando é necessário instalar um poste próprio, uma das soluções previstas é um tubo de ferro galvanizado, protegido na parte superior por uma tampa de alumínio e devidamente ancorado no terreno. Também podem ser utilizados postes de madeira impregnada, embora o manual desaconselhe enterrá-los diretamente no solo, sem fundação, por causa da menor durabilidade.

Durante minha travessia da Via Alpina, bastava chegar a um cruzamento e procurar uma dessas placas. Em poucos segundos eu sabia para onde seguir, quais localidades estavam adiante e quanto tempo aproximadamente levaria para alcançá-las. Toda essa informação estava concentrada em um objeto relativamente pequeno, feito para permanecer durante muitos anos nas condições encontradas nos Alpes.

E novamente estamos falando de padronização. Não é cada município que decide o tamanho da placa, a cor, a fonte das letras ou como as informações serão organizadas. A norma SN 640 829a define o padrão técnico. Já o Handbuch Signalisation Wanderwege — manual de sinalização das trilhas (PDF, em alemão) apresenta orientações práticas para quem planeja, instala, controla e mantém o sistema. Os detalhes de materiais e fabricação citados aqui constam da segunda edição, ligeiramente revisada, publicada em 2013.

Placas amarelas orientam a caminhada entre as encostas dos Alpes suíços.
Placas amarelas orientam a caminhada entre as encostas dos Alpes suíços.
Foto: Elias Luiz | Extremos
No início da Via Alpina, uma placa reúne os destinos e os tempos de caminhada até Montreux.
No início da Via Alpina, uma placa reúne os destinos e os tempos de caminhada até Montreux.
Foto: Elias Luiz | Extremos
A sinalização amarela acompanha o percurso também na chegada a Montreux.
A sinalização amarela acompanha o percurso também na chegada a Montreux.
Foto: Elias Luiz | Extremos

O MANUAL É COMPLEXO. A SINALIZAÇÃO NÃO

Esse é um ponto que considero fundamental. Quando encontramos uma faixa branco-vermelho-branco pintada sobre uma pedra nos Alpes, aquilo pode parecer extremamente simples. E realmente é. Mas essa simplicidade não significa improvisação.

O cuidado que aparece na fabricação das placas também vale para as marcas pintadas pelo caminho: onde colocá-las, como torná-las visíveis e quando renová-las. Quem trabalha com a implantação precisa conhecer essas regras e aplicá-las às condições do terreno. Para o caminhante, porém, o resultado precisa ser exatamente o contrário: simples e intuitivo.

Foi isso que encontrei durante praticamente toda a Via Alpina. Eu não precisava entender a norma suíça nem conhecer seu manual de sinalização. Precisava apenas aprender uma linguagem básica e, a partir daquele momento, conseguia utilizá-la durante centenas de quilômetros.

**É possível ver Camila sentada e eu de pé, ao lado de uma placa de sinalização no Bunderchrinde Pass, a 2.385 metros de altitude.
É possível ver Camila sentada e eu de pé, ao lado de uma placa de sinalização no Bunderchrinde Pass, a 2.385 metros de altitude.
Foto: Elias Luiz | Extremos
Uma marca branco-vermelho-branco pintada na pedra orienta a caminhada em um trecho de floresta na Suíça.
Uma marca branco-vermelho-branco pintada na pedra orienta a caminhada em um trecho de floresta na Suíça.
Foto: Elias Luiz | Extremos
Um caminhante segue por um trecho rochoso dos Alpes, sob neblina.
Camila segue por um trecho rochoso dos Alpes, sob neblina.
Foto: Elias Luiz | Extremos

OUTRO BOM EXEMPLO ESTÁ NA SUÉCIA

Recentemente escrevi aqui no Extremos sobre como a Suécia administra suas trilhas e toda a infraestrutura que existe por trás delas. Mas existe um aspecto daquele sistema que merece uma análise específica: a sinalização.

Conheço bem a Kungsleden. Em 2017 percorri seus cerca de 450 quilômetros, de Abisko a Hemavan, uma aventura que se transformou no meu segundo livro. Em setembro deste ano retornei à trilha e percorri novamente pouco mais de 200 quilômetros pelo trecho norte, entre Abisko e Kvikkjokk.

Se na Suíça a sinalização impressiona pela uniformidade encontrada em uma enorme rede que atravessa praticamente todo o país, na Kungsleden existe outro desafio. Estamos no norte da Suécia, em uma região onde o mesmo território muda completamente entre o verão e o inverno. Uma pedra perfeitamente visível em agosto pode desaparecer sob a neve alguns meses depois. Isso obrigou os suecos a desenvolver sistemas diferentes para cada situação.

Para consultar os critérios técnicos por trás dessa sinalização, o Naturvårdsverket disponibiliza dois documentos complementares. Eles tratam das trilhas de montanha suecas, não apenas da Kungsleden:

Caminhantes passam por placas azuis em um dia de chuva na Kungsleden.
Caminhantes passam por placas azuis em um dia de chuva na Kungsleden.
Foto: Elias Luiz | Extremos

UMA MARCA LARANJA MOSTRA O CAMINHO

Durante o verão, a sinalização encontrada nas trilhas estatais das montanhas suecas é extremamente simples. As rotas podem ser marcadas com tinta laranja-avermelhada sobre pedras, árvores ou postes, enquanto montes de pedras também são utilizados em terrenos abertos. Na Kungsleden encontrei essas marcas durante toda a caminhada.

O documento técnico utilizado na gestão do sistema estatal estabelece critérios até para a distância entre as marcações. Em terrenos abertos de montanha, a orientação é que seja possível enxergar o próximo marco nos dois sentidos e que, normalmente, a distância não ultrapasse 50 metros. Em áreas de floresta ou terrenos alagados, as marcas podem ser feitas em árvores e postes, novamente seguindo critérios de visibilidade.

O Naturvårdsverket estabelece ainda que a marcação deve ser discreta, mas claramente visível, aparecer em fluxo regular e permitir que o visitante acompanhe a trilha nos dois sentidos. O padrão nacional recomenda atualmente a cor laranja NCS S 0580-Y50R. Pode parecer exagero definir até o código exato de uma tinta utilizada sobre uma pedra, mas é justamente esse tipo de detalhe que cria um padrão e permite que a mesma sinalização seja reproduzida anos depois.

Uma pedra pintada de vermelho confirma o traçado da trilha na Suécia.
Uma pedra pintada de vermelho confirma o traçado da trilha na Suécia.
Foto: Elias Luiz | Extremos
Marcação sobre uma pedra em um trecho aberto da Kungsleden.
Marcação sobre uma pedra em um trecho aberto da Kungsleden.
Foto: Elias Luiz | Extremos

QUANDO A NEVE COBRE O CAMINHO

A sinalização sueca fica ainda mais interessante quando observamos as rotas utilizadas durante o inverno. As pequenas marcas encontradas nas pedras durante o verão podem simplesmente desaparecer sob a neve. Para resolver o problema, as trilhas de inverno utilizam postes altos com os conhecidos X vermelhos, uma das imagens mais características das montanhas suecas.

Esses X permanecem na paisagem durante o verão e eu os encontrei inúmeras vezes ao percorrer a Kungsleden. Dependendo do trecho, a rota de inverno acompanha a trilha utilizada pelos caminhantes. Em outros locais, os caminhos são diferentes porque aquilo que funciona durante o verão não necessariamente será o melhor percurso quando rios e lagos estiverem congelados e toda a paisagem estiver coberta pela neve.

Novamente existe um padrão técnico. A orientação do sistema estatal estabelece como os X devem ser instalados sobre os postes e, em condições normais, a distância entre as marcações não deve ultrapassar 40 metros. De um ponto deve ser possível identificar claramente o seguinte, tanto para quem segue em uma direção quanto para quem percorre o caminho no sentido contrário. Em mudanças de direção, a distância entre as marcações é reduzida.

A Suécia mostra, portanto, que até uma solução aparentemente rudimentar pode ser resultado de bastante planejamento. Uma marca de tinta sobre uma pedra e um X colocado sobre um poste parecem elementos extremamente simples, mas fazem parte de um sistema pensado para funcionar em milhares de quilômetros e sob condições ambientais muito diferentes.

Um poste com X vermelho marca a rota de inverno da Kungsleden e permanece visível na paisagem de outono.
Um poste com X vermelho marca a rota de inverno da Kungsleden e permanece visível na paisagem de outono.
Foto: Elias Luiz | Extremos

NAS ROCKY MOUNTAINS, MENOS PODE SER MAIS

Minha terceira experiência aconteceu nas Rocky Mountains canadenses, quando percorri a Great Divide Trail. A travessia se transformaria mais tarde no meu livro Rocky Mountains – GDT. Ali encontrei uma realidade diferente tanto da Via Alpina quanto da Kungsleden.

A Great Divide Trail atravessa extensas áreas selvagens e sua sinalização não é contínua ao longo de toda a rota. Há setores que utilizam trilhas estabelecidas dentro de parques e áreas protegidas, outros possuem sinalização específica da GDT e existem trechos onde praticamente não há marcação. Saber usar mapa e GPS e ter capacidade de navegação faz parte da experiência. A própria Great Divide Trail Association deixa claro que o caminhante não deve depender exclusivamente da sinalização para completar a rota.

Em determinados setores aparecem as chamadas blazes, pequenas marcas retangulares de tinta laranja aplicadas principalmente nas árvores. O padrão histórico dessas marcas na GDT é extremamente simples: aproximadamente 5 centímetros de largura por 15 centímetros de altura. Elas costumam ser aplicadas pouco acima da altura dos olhos e posicionadas para serem facilmente identificadas por quem segue a trilha.

Uma marca retangular laranja, ou blaze, indica o caminho entre as árvores na Great Divide Trail.
Uma marca retangular laranja, ou blaze, indica o caminho entre as árvores na Great Divide Trail.
Foto: Elias Luiz | Extremos
Placas e marcas pintadas em uma árvore orientam a caminhada na Great Divide Trail.
Placas e marcas pintadas em uma árvore orientam a caminhada na Great Divide Trail.
Foto: Elias Luiz | Extremos

Mas existe um detalhe nessa história que considero especialmente interessante. No artigo Blazing the Trail, publicado pela Great Divide Trail Association, Dave Higgins relata que, no passado, alguns trechos chegaram a receber marcações demais, inclusive onde o caminho já era evidente. O resultado era uma espécie de poluição visual. Sua recomendação é utilizar apenas a quantidade necessária de blazes, aproximando as marcas quando existe dificuldade de navegação e espaçando-as onde o caminho é facilmente reconhecido.

Até a escolha da tinta foi pensada para durar. Segundo a história da sinalização da GDT, optou-se por tinta à base de óleo pela resistência às condições encontradas nas Rocky Mountains e pela possibilidade de permanecer visível durante muitos anos quando aplicada corretamente. A cor laranja também se mostrou eficiente quando a neve começava a cobrir a paisagem.

A GDT acrescenta, portanto, outra lição importante a essa discussão. Uma boa sinalização não significa necessariamente muita sinalização. Dependendo da proposta da trilha, preservar a necessidade de navegação também pode fazer parte da experiência. O importante é que exista um critério para decidir onde marcar, como marcar e quando simplesmente não é necessário acrescentar mais uma marca à paisagem.

Um monte de pedras com marcação laranja ajuda a orientar o caminho em um trecho aberto das Rocky Mountains canadenses.
Um monte de pedras com marcação laranja ajuda a orientar o caminho em um trecho aberto das Rocky Mountains canadenses.
Foto: Elias Luiz | Extremos

TRÊS PAÍSES, SISTEMAS DIFERENTES E A MESMA LÓGICA

Comparar Via Alpina, Kungsleden e Great Divide Trail é interessante justamente porque seria impossível utilizar exatamente o mesmo sistema nos três lugares. As condições naturais são diferentes e até a proposta de cada travessia é diferente. A Suíça possui uma rede extremamente ramificada conectando cidades, vilas, vales e montanhas. A Kungsleden atravessa enormes áreas remotas do norte da Suécia e precisa conviver com uma transformação radical entre verão e inverno. A GDT percorre regiões selvagens das Rocky Mountains onde, em determinados trechos, a própria navegação faz parte do desafio.

As soluções também são diferentes. Na Suíça, as cores ajudam a identificar diferentes categorias de trilhas e uma enorme rede de placas organiza os destinos. Na Suécia, uma marca laranja orienta as caminhadas de verão enquanto os grandes X vermelhos permanecem visíveis durante o inverno. No Canadá, pequenas blazes laranjas aparecem onde são necessárias, sem a pretensão de transformar toda a Great Divide Trail em um caminho permanentemente marcado.

Mas existe um princípio que une esses três exemplos: a sinalização não precisa ser complicada para funcionar. Por trás de uma pequena faixa de tinta pode existir um manual, uma norma, décadas de experiência, critérios de aplicação e uma estrutura permanente de manutenção. A complexidade está na organização do sistema, não necessariamente na marca que o caminhante encontra na trilha.

Outro ponto em comum é que a sinalização foi pensada para permanecer no terreno. Quem cria o sistema precisa imaginar como aquela marca será refeita depois que o sol, a chuva, a neve, a vegetação ou simplesmente o tempo fizerem seu trabalho. É justamente aí que simplicidade e manutenção passam a caminhar juntas.

Caminhantes seguem por uma trilha entre campos floridos e montanhas dos Alpes suíços.
Caminhantes seguem por uma trilha entre campos floridos e montanhas dos Alpes suíços.
Foto: Elias Luiz | Extremos

E NO BRASIL?

O Brasil avançou nos últimos anos ao criar uma identidade nacional para suas trilhas. A Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso e Conectividade adota um sistema encontrado em diferentes regiões do país, tendo como elemento mais conhecido as pegadas amarelas e pretas utilizadas para indicar os percursos.

Considero importante termos uma linguagem nacional. Se um caminhante aprende determinada sinalização em uma região, o ideal é que consiga reconhecê-la quando estiver caminhando em outro estado. Foi exatamente isso que experimentei na Suíça e, guardadas as enormes diferenças geográficas, também encontrei essa lógica nas montanhas suecas.

Mas acredito que podemos discutir se a solução brasileira não poderia ser mais simples. Nossas pegadas possuem um desenho complexo e poluído, para algo que precisa ser reproduzido milhares de vezes no campo e, principalmente, receber manutenção durante décadas. A aplicação com molde exige no mínimo duas pessoas, para preparação da superfície e cuidado para que o desenho permaneça reconhecível. Com o desgaste provocado pelo sol, pela chuva e pela umidade, os detalhes podem desaparecer e aquilo que era uma pegada pode acabar se transformando em um borrão.

Em algumas trilhas, essas marcações aparecem também sobre pequenas placas de madeira ou compensado, fixadas em árvores ou postes de madeira. É uma filosofia bastante diferente daquela que encontrei na Suíça, onde postes metálicos e placas de alumínio são projetados para longa durabilidade, enquanto as marcações intermediárias continuam extremamente simples. Na Suécia e no Canadá encontrei a mesma preocupação: uma marca de tinta precisa ser fácil de reconhecer, aplicar e refazer.

A experiência canadense acrescenta ainda outra questão: será que precisamos sinalizar tudo? Na Great Divide Trail, quando o caminho é evidente, novas blazes podem ser desnecessárias. Quando existe uma bifurcação, mudança de direção ou trecho de difícil identificação, a sinalização passa a ser fundamental. Menos marcas também significam menor custo, menos manutenção e menor interferência visual na natureza.

Ao mesmo tempo, aqui no Brasil são realizados congressos, seminários e encontros relacionados às trilhas de longa distância . Esses eventos custam milhões de reais, e têm sua importância, mas precisamos perguntar se o mesmo esforço está chegando efetivamente às trilhas. Quando há recursos públicos envolvidos, a prestação de contas também precisa ser acessível. Quanto é investido na sinalização? Quanto na manutenção? Quantos quilômetros estão realmente sinalizados e em boas condições? E existe transparência suficiente para que qualquer cidadão consiga acompanhar onde os recursos públicos e privados estão sendo utilizados?

Uma rede de trilhas não é construída apenas na inauguração. Sol, chuva, vegetação e o próprio tempo exigirão manutenção permanente. Por isso, talvez devêssemos pensar menos na fotografia da inauguração e mais na pessoa que precisará voltar àquele lugar daqui a cinco ou dez anos para refazer aquela marca.

Precisamos ter certeza de que estamos construindo uma rede de trilhas e não apenas uma rede de congressos.

Passarelas conduzem a caminhada por um corredor definido na Kungsleden.
Passarelas conduzem a caminhada por um corredor definido na Kungsleden.
Foto: Elias Luiz | Extremos

NÃO PRECISAMOS REINVENTAR A TRILHA

É evidente que cada país possui sua própria realidade, seu clima, sua vegetação e as características particulares de suas trilhas. Mas isso não significa que precisamos começar do zero quando existem países e organizações administrando redes de trilhas há décadas e acumulando experiências que podem, e devem, servir de referência.

A Suíça mostra como uma linguagem nacional permite que o caminhante atravesse diferentes regiões sem precisar reaprender a sinalização. A Suécia mostra como um sistema simples pode funcionar em condições extremas e durante diferentes épocas do ano. A Great Divide Trail mostra que sinalizar bem também significa saber onde realmente é necessário colocar uma marca.

Nos três casos existe ainda uma preocupação que considero fundamental: a sinalização foi pensada para ser mantida. Esse talvez seja um dos pontos mais importantes quando discutimos a implantação de grandes redes de trilhas no Brasil.

Criar uma identidade visual e produzir um manual são apenas o começo, mas é justamente nessa etapa que algumas das decisões mais importantes são tomadas. Se um sistema nasce complicado, caro ou difícil de manter, esses problemas serão replicados por centenas ou milhares de quilômetros.

Por meio deste portal de aventura e do podcast Extremos, conheci os principais brasileiros ligados às trilhas de longa distância, pessoas com enorme experiência prática e que já percorreram algumas das mais renomadas e difíceis trilhas do mundo. O que me causa estranheza é que nenhuma delas tenha sido convidada a contribuir na elaboração do plano, nas discussões ou nas decisões da RedeTrilhas. Uma rede nacional teria muito a ganhar ouvindo quem conhece, na prática, diferentes sistemas de trilhas ao redor do mundo.

E o trabalho não termina quando a tinta seca. Milhares de marcas, placas e estruturas estarão espalhadas por milhares de quilômetros e alguém precisará garantir que continuem funcionando anos depois.

Depois de percorrer a Via Alpina, a Kungsleden e a Great Divide Trail, em ambientes completamente diferentes, fiquei com uma convicção ainda maior: não precisamos inventar tudo novamente. Podemos observar o que funciona, entender por que funciona e adaptar as melhores soluções à nossa realidade. Simplicidade, padronização, visibilidade, durabilidade e facilidade de manutenção não pertencem a nenhum país. São princípios de uma boa sinalização.

Podemos ter manuais detalhados, normas técnicas rigorosas e uma enorme estrutura de planejamento por trás de uma rede de trilhas. Tudo isso é necessário. Mas, quando colocamos a mochila nas costas e começamos a caminhar, a sinalização precisa continuar sendo simples.

Porque uma boa sinalização não é aquela que chama atenção para si mesma. É aquela que mostra o caminho e permite que o caminhante continue olhando para a paisagem.