Quem é responsável por uma trilha? Quem coloca as placas, constrói as pontes, instala as passarelas sobre áreas alagadas e volta anos depois para substituir tudo aquilo que o tempo destruiu? Quem decide como uma trilha deve ser sinalizada? E, principalmente, quem garante que ela continuará existindo daqui a 10, 20 ou 50 anos?
São perguntas que raramente fazemos quando colocamos uma mochila nas costas e começamos a caminhar. Mas depois de percorrer trilhas em diferentes partes do mundo, aprendi que uma grande rota não existe apenas porque há um caminho aberto na montanha. Por trás dela precisa existir organização.
Na Suécia, país com uma enorme tradição de vida ao ar livre, esse assunto é tratado de maneira bastante séria. O país possui milhares de quilômetros de trilhas e criou uma estrutura que envolve governo, administrações regionais, municípios, associações, voluntários e organizações ligadas ao turismo e às atividades outdoor.
Conhecer como esse sistema funciona pode ser uma boa referência para um país como o Brasil, que possui um potencial gigantesco para caminhadas de longa distância, mas ainda busca uma estrutura mais consolidada para muitas de suas trilhas.
A Kungsleden faz parte de um sistema estatal
Em setembro deste ano retornei à Kungsleden, no norte da Suécia, nove anos depois de percorrer pela primeira vez seus 450 km, de Abisko a Hemavan, uma aventura que se transformou no meu segundo livro, Kungsleden: Uma Caminhada no Ártico.
Desta vez, percorri pouco mais de 200 quilômetros, o trecho norte da Kungsleden, entre Abisko e Kvikkjokk. Durante a caminhada, além das paisagens do Ártico, algo voltou a chamar minha atenção: a impressionante infraestrutura existente em uma região tão remota.
Pontes atravessam rios, passarelas de madeira cruzam áreas alagadas, placas indicam destinos e distâncias e marcações orientam os caminhantes. No inverno, quando boa parte da paisagem desaparece sob a neve, outro sistema de sinalização assume essa função.
Nada disso está ali por acaso.
A Kungsleden, com aproximadamente 450 quilômetros entre Abisko e Hemavan, integra o sistema estatal de trilhas das montanhas suecas. O Naturvårdsverket, a Agência Sueca de Proteção Ambiental, é o órgão responsável pelo sistema, enquanto a administração prática fica a cargo das Länsstyrelser, as administrações dos respectivos condados.
Esse sistema estatal possui cerca de 5.500 quilômetros de trilhas sinalizadas nas montanhas. Além deles, existem aproximadamente outros 2.500 quilômetros de trilhas nas regiões montanhosas próximas a comunidades e instalações turísticas.
A STF não é dona da Kungsleden
Para quem caminha pela Kungsleden, é fácil imaginar que toda aquela estrutura pertence à Svenska Turistföreningen (STF). A associação tem uma presença marcante nas montanhas suecas e administra muitas das cabanas e estações de montanha utilizadas pelos caminhantes. Mas a trilha propriamente dita integra o sistema estatal.
Fundada em 1885, a STF é uma associação sueca sem fins lucrativos criada para incentivar o turismo e aproximar as pessoas da natureza e da cultura do país. Hoje reúne cerca de 185 mil associados e mantém uma rede de aproximadamente 250 hospedagens, entre cabanas de montanha, estações de montanha, albergues e hotéis espalhados pela Suécia.
Para nós, brasileiros, uma forma de entender seu papel é pensar nos tradicionais clubes excursionistas, como o Centro Excursionista Brasileiro (CEB), mas imaginar uma organização de alcance nacional, com uma grande base de associados e uma extensa rede de hospedagem e serviços voltados à vida ao ar livre. A comparação ajuda a entender o conceito, embora no Brasil não tenhamos uma instituição com exatamente a mesma estrutura e dimensão da STF.
Na Kungsleden, portanto, é importante distinguir a infraestrutura pública da trilha dos serviços oferecidos aos caminhantes. A forte presença da STF nesses serviços não significa que ela seja dona da rota.
Nas trilhas estatais de montanha, a infraestrutura vai muito além do caminho e de sua sinalização. Ela inclui pontes, passarelas de madeira sobre áreas alagadas, abrigos de emergência e até barcos para a travessia de rios e lagos. Somente na Kungsleden existem sete travessias obrigatórias de barco, com diferentes tipos e tamanhos de embarcações, dependendo da extensão e das características de cada travessia. Em alguns locais são pequenos barcos a remo, enquanto nos lagos maiores a travessia é realizada em embarcações motorizadas.
É uma estrutura pensada para permitir que alguém caminhe centenas de quilômetros por regiões remotas com um sistema minimamente previsível.
Construir uma trilha é a parte fácil
Talvez este seja o ponto mais interessante do modelo sueco.
Criar uma trilha não significa simplesmente abrir um caminho, colocar algumas placas e fazer uma inauguração.
Uma trilha começa de verdade depois disso.
Madeira apodrece. Pontes precisam ser substituídas. Vegetação cresce. Placas desaparecem. Rios mudam. Áreas alagadas aumentam. O número de caminhantes cresce. A erosão transforma o terreno.
E tudo precisa ser novamente avaliado e reparado.
Mikael Proos, do Naturvårdsverket, chama atenção justamente para esse problema. Historicamente, muitas vezes é mais fácil conseguir recursos para construir algo novo do que para manter aquilo que já existe.
Mas é a manutenção que determina se uma trilha continuará funcionando ao longo das décadas.
Essa talvez seja uma das maiores lições que podemos trazer para o Brasil.
Uma trilha não é um projeto. É um compromisso permanente. O foco não pode ser simplesmente buscar a liberação de verba pública para realizar uma ação qualquer. O processo precisa ser o contrário: primeiro pensar, planejar e estruturar uma trilha para que ela funcione e permaneça funcionando, depois buscar os recursos necessários. Não adianta querer exibir milhares de quilômetros de trilhas se a sinalização é precária e a manutenção, muitas vezes, inexistente.
Não basta criar uma identidade visual, instalar placas e inaugurar um percurso. É preciso pensar em simplicidade, durabilidade e, principalmente, manutenção. No Brasil, demos um importante passo ao buscar uma sinalização nacional, mas talvez seja hora de questionar se nossas elaboradas pegadas amarelas e pretas, muitas vezes trabalhosas de aplicar e instaladas até em pequenas placas de madeira, são realmente a solução mais simples e duradoura para orientar alguém na natureza. Afinal, uma boa sinalização precisa, antes de tudo, resistir ao tempo e mostrar o caminho.
Não existe um único modelo
Nem todas as trilhas suecas pertencem ao governo.
Fora do sistema estatal das montanhas, a situação muda bastante. Existem trilhas administradas por regiões, municípios, associações, organizações locais, grupos voluntários e até iniciativas privadas.
Trilhas dentro de áreas protegidas normalmente ficam sob responsabilidade das administrações regionais. Há ainda grandes rotas regionais criadas principalmente nas décadas de 1970 e 1980, além das antigas rotas de peregrinação, algumas delas com participação da Igreja da Suécia.
Ou seja, o interessante não é existir apenas um responsável.
O fundamental é existir um responsável claramente definido.
Alguém precisa responder pela trilha.
Um padrão para todo o país
Nos últimos anos, a Suécia começou a avançar também em outro ponto fundamental: criar uma linguagem comum para suas trilhas.
O Naturvårdsverket desenvolveu o Nationella ramverket för vandringsleder, o Marco Nacional para Trilhas de Caminhada.
Ele estabelece critérios e orientações para quem cria e administra trilhas em qualquer região do país.
O trabalho envolve sinalização, marcações, serviços, informações ao visitante, acessibilidade, qualidade e experiência do caminhante. A intenção é fazer com que administradores de diferentes regiões trabalhem utilizando referências comuns.
Parece um detalhe. Não é.
Quando um caminhante encontra uma determinada sinalização e compreende seu significado, deveria ser capaz de reconhecer essa mesma linguagem em qualquer outra região do país. Nesse aspecto, a Suíça está muito mais avançada, como pude constatar ao percorrer os 390 km da Via Alpina, experiência que deu origem ao meu sexto livro, Via Alpina: A Travessia da Suíça.
Padronização também é segurança.
Manutenção também significa preservar a natureza
Outro conceito interessante é que manter uma trilha não significa necessariamente torná-la mais confortável.
Em setembro, por exemplo, uma das trilhas mais frequentadas das montanhas de Jämtland recebeu intervenções porque, em alguns pontos, o caminho havia chegado a impressionantes 20 metros de largura.
O motivo é simples. Quando o terreno fica ruim, caminhantes começam a passar pelas laterais. Outros fazem o mesmo. Aos poucos, uma pequena trilha se transforma em uma enorme faixa de terreno degradado.
A solução adotada em alguns trechos foi concentrar novamente os caminhantes em um corredor estreito, utilizando cascalho e técnicas de drenagem.
Segundo a administração regional, o objetivo não é transformar uma trilha de montanha em um passeio confortável, mas proteger o terreno, controlar a erosão e preparar as rotas para um número maior de visitantes e para eventos climáticos mais extremos.
Isso muda completamente a maneira de enxergar infraestrutura em áreas naturais.
Uma passarela de madeira não está necessariamente ali para evitar que o caminhante molhe a bota.
Ao longo da Kungsleden, são quilômetros e quilômetros de passarelas de madeira, chamadas de spänger pelos suecos, construídas principalmente sobre áreas alagadas e terrenos sensíveis. Além de facilitarem a passagem dos caminhantes, elas concentram o tráfego em uma faixa estreita, reduzindo o impacto sobre a vegetação e evitando que a trilha se espalhe pelo terreno.
E tudo isso custa dinheiro
Entre 2022 e 2027, o governo sueco destinou 50 milhões de coroas suecas por ano ao desenvolvimento de trilhas de caminhada e trilhas de montanha por meio do Naturvårdsverket.
Para o período entre 2026 e 2028 foram destinados outros 50 milhões de coroas por ano para recuperação e melhoria das trilhas.
Mesmo assim, as próprias autoridades suecas reconhecem que existe manutenção atrasada e necessidade de mais recursos.
Esse talvez seja outro ponto importante.
Nem mesmo um país com longa tradição outdoor considera que o problema das trilhas está resolvido.
O sistema precisa ser constantemente revisto, financiado e melhorado.
O que podemos aprender com isso no Brasil?
O Brasil não precisa copiar a Suécia.
Nossa realidade geográfica, ambiental, administrativa e econômica é completamente diferente. Temos Mata Atlântica, Cerrado, Amazônia, Caatinga, Pantanal e ambientes de montanha com características próprias.
Mas alguns princípios são universais.
Uma trilha de longa distância precisa ter responsabilidade definida, planejamento, padrão de sinalização, manutenção permanente, financiamento e integração entre poder público, comunidades locais, voluntários e iniciativa privada.
E precisa ser encarada como infraestrutura.
Temos um território extraordinário e algumas das paisagens mais impressionantes do planeta. Temos parques nacionais, serras, cânions, chapadas, caminhos históricos e inúmeras possibilidades de criação e consolidação de grandes rotas.
O que muitas vezes ainda falta é transformar caminhos em sistemas duradouros.
Depois de caminhar por tantos quilômetros na Suécia, talvez a maior lição não esteja nas placas, nas pontes ou nas passarelas que encontramos pelo caminho.
Está em algo muito menos visível.
Por trás de uma grande trilha existe alguém responsável por ela.
E quando uma trilha é planejada para durar décadas, quem ganha não é apenas o caminhante.
Ganha a natureza, ganha a comunidade que vive ao redor dela e ganha o próprio país.
Fonte: Revista Turist / Svenska Turistföreningen e Naturvårdsverket.





















