Ao longo dos últimos 20 anos, percorri algumas das trilhas mais famosas do planeta. Entre elas estão o Trekking ao Campo Base do Everest, no Nepal, o Tour du Mont Blanc, nos Alpes, a Kungsleden, na Lapônia sueca, a Great Divide Trail, nas Montanhas Rochosas canadenses, os Dientes de Navarino, no extremo sul da Patagônia, o Circuito O, em Torres del Paine, e a Via Alpina, uma travessia que cruza alguns dos cenários mais impressionantes da Suíça, além de muitas outras trilhas que ajudaram a moldar minha forma de enxergar a caminhada e a vida ao ar livre.
Estas páginas reúnem os principais temas do universo do trekking, desde os primeiros passos no planejamento de uma caminhada até aspectos mais avançados relacionados a equipamentos, navegação, segurança, alimentação e preparação física e mental. Também abordam temas como resiliência, foco, diferentes níveis de dificuldade, livros de referência e relatos produzidos em campo ao longo de mais de duas décadas percorrendo algumas das trilhas mais famosas do mundo. O conteúdo inclui ainda um dicionário com cerca de 400 verbetes, reunindo os principais termos deste segmento do mundo da aventura.
Não há liberdade maior que uma mochila nas costas!
Elias Luiz, livro Kungsleden
Trekking é uma caminhada realizada em ambiente natural, normalmente em percursos mais longos e que exigem algum nível de preparo físico, planejamento e autonomia.
Dependendo da trilha, o caminhante pode passar vários dias longe de cidades, carregando mochila, barraca, comida, roupas, fogareiro, sistema de água e equipamentos de segurança.
Embora muita gente utilize trekking e hiking como sinônimos, existe uma diferença sutil entre os dois termos. O hiking costuma estar associado a caminhadas mais curtas, geralmente realizadas em um único dia. Já o trekking normalmente envolve jornadas mais longas, travessias de vários dias e uma necessidade maior de planejamento e organização.
Na prática, porém, essa distinção nem sempre é assim. Nos Estados Unidos, por exemplo, lar de trilhas famosas como a Pacific Crest Trail, a Appalachian Trail e a Continental Divide Trail, o termo hiking é amplamente utilizado tanto para caminhadas de um dia quanto para essas longas travessias, desempenhando muitas vezes o mesmo papel que a palavra trekking em outros países.
Algumas trilhas se tornaram clássicas por atravessarem paisagens extraordinárias, regiões remotas ou territórios de grande importância histórica e cultural. Cada uma delas exige um tipo diferente de preparo, equipamento e planejamento.
A Via Alpina cruza algumas das paisagens mais impressionantes da Suíça. A Kungsleden atravessa a Lapônia sueca. O Tour du Mont Blanc contorna o maciço do Mont Blanc passando por França, Itália e Suíça. A Great Divide Trail segue pelas Montanhas Rochosas canadenses. Já os Dientes de Navarino ficam no extremo sul do continente americano, em uma das regiões mais isoladas da Patagônia.
Algumas trilhas podem ser percorridas em uma ou duas semanas. Outras exigem meses de caminhada, planejamento detalhado e uma enorme capacidade de adaptação.
Completar uma dessas trilhas normalmente exige entre quatro e oito meses de caminhada. Em alguns casos, os caminhantes levam mais de um ano para concluir todo o percurso.
A melhor trilha não é necessariamente a mais famosa. Para quem está começando, o ideal é escolher um percurso compatível com sua experiência, preparo físico, orçamento, tempo disponível e capacidade de lidar com imprevistos.
Trilhas com boa sinalização, acesso fácil, refúgios ou cidades ao longo do caminho costumam ser mais indicadas para iniciantes. Travessias remotas, com clima instável e longos trechos sem apoio, exigem mais experiência e autonomia.
Uma travessia bem-sucedida começa muito antes do primeiro passo. Planejar uma trilha longa envolve estudar mapas, dividir etapas, calcular distâncias, entender o clima, organizar alimentação, prever pontos de água e saber onde será possível dormir.
Também é importante avaliar o próprio ritmo. Em trilhas longas, não adianta planejar apenas com base na quilometragem. O tipo de terreno, o peso da mochila, o ganho de altitude e as condições climáticas podem mudar completamente o esforço de um dia.
O equipamento certo não precisa ser o mais caro, mas precisa ser adequado ao tipo de trilha. Uma caminhada de poucos dias nos Alpes exige escolhas diferentes de uma travessia remota na Patagônia ou nas Montanhas Rochosas canadenses.
A mochila, a barraca, o saco de dormir, o isolante térmico, o fogareiro, o sistema de água e as roupas formam a base de uma boa travessia. Errar nesses itens pode tornar a caminhada desconfortável, pesada ou até perigosa.
A alimentação em uma trilha precisa equilibrar peso, praticidade, calorias e facilidade de preparo. Em travessias longas, cada grama conta, mas economizar demais na comida pode comprometer o desempenho e a recuperação do corpo.
Liofilizados, arroz pronto, massas, sopas, castanhas, chocolates, queijos curados, embutidos e bebidas quentes costumam aparecer com frequência na mochila de quem caminha por vários dias.
Toda trilha envolve algum risco. Em uma caminhada curta, um erro pode gerar desconforto. Em uma travessia remota, o mesmo erro pode se transformar em uma situação séria. Por isso, segurança deve fazer parte do planejamento desde o início.
Saber interpretar o clima, reconhecer sinais de hipotermia, navegar sem depender apenas do celular, calcular o tempo de luz do dia e avisar alguém sobre o roteiro são atitudes simples que podem evitar problemas maiores.
Muitas trilhas podem ser feitas de forma autoguiada, especialmente quando há boa sinalização, mapas confiáveis e estrutura de apoio. Em outras, contratar um guia pode ser a decisão mais segura, principalmente em regiões remotas, áreas de altitude, travessias pouco sinalizadas ou locais com exigências específicas de permissão.
A escolha entre caminhar sozinho, em grupo ou com guia depende da experiência do caminhante, da dificuldade do roteiro e do nível de autonomia necessário. O importante é não confundir liberdade com improviso.
O sofrimento é passageiro, a história fica para sempre!
Elias Luiz, livro Via Alpina
Os livros do Extremos nasceram de experiências reais em algumas das grandes trilhas do mundo. Eles reúnem relatos, fotografias, mapas e reflexões sobre o que significa atravessar uma paisagem a pé, durante semanas.
Cada obra foi escrita a partir de jornadas realizadas em campo e procura transportar o leitor para dentro da trilha. Mais do que apresentar informações práticas, os livros registram experiências, desafios, erros, descobertas e momentos de contemplação com a natureza.
Além dos livros e artigos, o Extremos também reúne conversas, entrevistas e reflexões em áudio sobre caminhadas, expedições, montanhas e grandes jornadas. O podcast permite aprofundar histórias que muitas vezes começaram em uma trilha, em uma viagem ou em uma reportagem.
Quem está começando deve procurar uma trilha compatível com sua experiência. Não é preciso iniciar por uma grande travessia internacional. O mais importante é aprender a caminhar com regularidade, testar equipamentos, entender o próprio ritmo e ganhar confiança em ambientes naturais.
Com o tempo, cada trilha ensina algo novo. A mochila fica mais leve, as escolhas ficam mais simples e o caminhante passa a compreender que o trekking não está apenas no destino final, mas em tudo o que acontece durante o caminho.
Comece por trilhas curtas, com boa sinalização e fácil acesso. Antes de pensar em grandes travessias, o ideal é ganhar experiência aos poucos, testar equipamentos, entender seu ritmo e aprender a caminhar com segurança.
O hiking costuma estar ligado a caminhadas mais curtas, muitas vezes feitas em um único dia. O trekking normalmente envolve jornadas mais longas, travessias de vários dias, mais planejamento e maior autonomia.
Em muitas travessias, mochilas entre 50 e 60 litros atendem bem. O mais importante não é apenas o tamanho, mas o ajuste ao corpo, a distribuição do peso e a capacidade de carregar apenas o necessário.
O ideal é carregar o mínimo possível sem comprometer segurança, alimentação, abrigo e proteção contra o clima. Em trilhas longas, excesso de peso costuma ser um dos maiores erros dos iniciantes.
A magia da vida é que não notamos que o presente será eterno até que o futuro nos cobre o passado.
Elias Luiz