ATUALIZAÇÃO: Segundo algumas informações, Leandro foi localizado e está bem.
Post original: As buscas pelo brasileiro Leandro Gambetta Schirmbeck, de 61 anos, seguem sem resultados positivos em Puerto Williams, no extremo sul do Chile. Ele realizava a travessia do circuito patrimonial Dientes de Navarino e deveria concluir o percurso em 19 de fevereiro. Segundo a família, mantinha contato frequente com a esposa, enviando fotos, vídeos e relatos da caminhada, mas interrompeu a comunicação repentinamente na quarta-feira, gerando preocupação imediata.
Equipes de emergência iniciaram uma operação de busca na região. Na sexta-feira, uma patrulha formada por dois carabineiros e um bombeiro chegou ao setor Laguna Guanaco, sem localizar o turista. Neste sábado, as buscas avançam em direção à Laguna Martillo, com a incorporação de uma segunda patrulha que percorrerá outro trecho do circuito. Um helicóptero dos Carabineros também fará sobrevoo na área, decolando de Punta Arenas ao meio-dia.
A família pede apoio na divulgação do caso e solicita que qualquer informação seja comunicada às autoridades.
Pontos críticos do Circuito Dientes de Navarino
Para limitar as buscas, seria fundamental analisar as últimas fotos enviadas à família. A partir da paisagem, do relevo, da posição do sol e do tipo de terreno, é possível delimitar com maior precisão o setor onde ele possa estar. Caso ninguém tenha cruzado com ele na trilha, a hipótese mais provável é que ele tenha saído da rota principal e esteja fora da linha tradicional do circuito.
- • Dia 1 – Entrada do Parque até Laguna Salto
O trecho inicial possui uma encosta de scree (talude de detritos soltos), caracterizada por inclinação acentuada, solo instável e pedras fragmentadas (última foto). Trata-se de uma travessia em meia-encosta, tecnicamente chamada de travessia lateral em terreno friável. Um escorregão pode projetar o caminhante dezenas de metros abaixo da trilha principal, onde já aconteceu anteriormente uma fatalidade. Em caso de neblina ou vento forte, o risco aumenta. - • Dia 2 – Paso de Los Dientes
Após o passo, há um ponto crítico de navegação. Se o caminhante não fizer a curva à direita (rota correta do circuito), seguirá em direção ao Lago Windhond, no lado oposto da ilha. Essa é uma bifurcação natural de terreno, não necessariamente evidente. Em condições de baixa visibilidade, é possível descer para o vale errado. - • Dia 3 – Trechos sem trilha definida
Grande parte do circuito não possui trilha clara. A progressão é feita sobre rochas, lajes e campos de blocos. A navegação depende fortemente de aplicativo, GPS ou track previamente carregado. Caso a bateria do celular ou GPS tenha acabado, a chance de erro de rota aumenta significativamente, especialmente em áreas com múltiplas lagoas e vales paralelos. - • Dia 4 – Laguna Martillo e Paso Virginia
Há duas opções de percurso: a tradicional, que cruza áreas de turfa e terreno pantanoso, e uma alternativa mais à direita, contornando pela lateral da montanha. Esse setor possui poucas marcações visuais. Sem navegação digital, a orientação torna-se difícil.
É também o dia do Paso Virginia, considerado um dos pontos mais delicados da travessia. O início da descida apresenta inclinação acentuada, terreno instável e exposição ao vento. - • Dia 5 – Descida para Bahía Virginia
Embora tecnicamente menos perigoso, é um trecho onde é fácil se perder em meio à vegetação densa, áreas de pastagem e múltiplas trilhas secundárias abertas por animais. Após vários dias de esforço, a fadiga pode comprometer a atenção e a navegação.
Nota do Editor: Esta observação não é um alarde relacionado ao caso em questão, mas um alerta responsável a futuros interessados em percorrer essa travessia. No meu livro Patagonia, uma caminhada no fim do mundo, já ressalto que nem sempre a dificuldade de uma trilha está na altitude ou na distância, mas no ambiente em que ela se insere.
O Circuito Dientes de Navarino não é tecnicamente uma das trilhas mais difíceis em termos de extensão ou ganho de elevação, porém sua combinação de isolamento extremo, baixa circulação de trekkers, trechos sem trilha definida e clima altamente instável eleva significativamente o nível de risco. É o contexto que impõe o verdadeiro desafio.
Não há cabanas, refúgios estruturados ou pontos intermediários de apoio ao longo do percurso. A travessia é feita integralmente em regime de camping, com uso de barracas, o que amplia a exposição ao clima e exige planejamento logístico cuidadoso.
É um ambiente onde navegação, autonomia e capacidade de tomada de decisão são fundamentais. Pessoalmente, não considero uma travessia adequada para iniciantes, nem para condução comercial tradicional, sobretudo quando o cliente acredita que, por estar acompanhado de um guia, sua segurança está automaticamente garantida. Em ambientes remotos como esse, a responsabilidade é individual e permanente. A cada passo, cada pessoa precisa estar atenta, consciente e preparada para responder por si mesma.
É uma trilha que exige autossuficiência real: preparo técnico, domínio de navegação, capacidade de gestão de risco e margem logística, incluindo dias extras de alimentação para eventuais atrasos provocados pelo clima ou por imprevistos físicos. Em Navarino, autonomia não é opcional, é requisito básico de segurança.





