Imagine caminhar mais de 4.200 quilômetros, enfrentando montanhas selvagens, desertos ardentes e florestas densas, com nada além de uma mochila nas costas e a determinação no peito. Agora, pense em fazer isso em 1970, quando a Pacific Crest Trail (PCT) — a lendária trilha que corta o oeste dos Estados Unidos, da fronteira com o Canadá até o México — mal era um traço no mapa. Foi exatamente essa aventura que Eric Ryback, então um jovem de 17 anos, encarou, tornando-se um dos primeiros a completar a travessia da PCT em uma única temporada. Sua história, repleta de mochilas roubadas, encontros com a morte e transformações pessoais, é um mergulho na essência do que significa explorar o desconhecido.
O Início de Tudo: Uma Ideia Audaciosa
Eric não era um veterano das trilhas quando decidiu encarar a PCT. Recém-saído do ensino médio em Rhinebeck, Nova York, ele já tinha no currículo a Appalachian Trail, uma façanha que o deixou com sede de algo maior. Em 1970, a PCT ainda estava em seus primórdios: não havia placas, os mapas eram rudimentares e trechos inteiros da trilha eram apenas ideias vagas conectando antigas rotas florestais. Mesmo assim, armado com um espírito inquieto e suprimentos básicos, Eric partiu do norte, no Parque Manning, Canadá, rumo ao sul, um trajeto que hoje é feito no sentido inverso pela maioria dos aventureiros.
A jornada começou em junho, sob o sol escaldante do deserto de Mojave. Ele carregava uma mochila de 18 quilos, com comida para semanas, um saco de dormir e uma barraca improvisada. “Eu não tinha ideia do que estava por vir”, ele escreveu mais tarde em seu livro, The High Adventure of Eric Ryback. E não demorou muito para o destino provar que a trilha não perdoa os despreparados.
Mochilas Roubadas e o Primeiro Grande Teste
Apenas algumas semanas depois do início, Eric enfrentou seu primeiro golpe duro. Após montar acampamento perto de uma estrada no sul da Califórnia, ele acordou com uma surpresa cruel: sua mochila, com toda a comida, equipamento e suprimentos, havia sido roubada. “Fiquei com uma garrafa d’água e as roupas do corpo”, ele lembra. Sem opções, caminhou até a cidade mais próxima, onde um casal generoso o ajudou a reabastecer. Esse incidente marcou o tom da aventura: resiliência seria sua maior aliada.
Mas o roubo foi só o começo. Conforme avançava pelas Sierras, enfrentando picos nevados e rios gelados, Eric percebeu que a PCT exigia mais do que pernas fortes — exigia cabeça no lugar. Em um dos trechos mais perigosos, ele quase perdeu a vida ao atravessar um rio caudaloso. “A correnteza me puxou como se eu fosse um graveto. Lutei com tudo que tinha para alcançar a margem”, conta. Foi um lembrete brutal de que a natureza não faz concessões.
A correnteza me puxou como se eu fosse nada. Lutei com tudo para sobreviver.
Encontros Inesperados e a Força da Comunidade
Apesar dos perigos, a jornada de Eric também foi marcada por momentos de calor humano. Em vilarejos remotos, como Sierra City, ele encontrava moradores curiosos e dispostos a ajudar. Um deles, um velho montanhês, ofereceu comida e um lugar para dormir, enquanto contava histórias de ursos e tempestades nas montanhas. Esses encontros, que hoje chamamos de “trail magic” (mágica da trilha), foram essenciais para mantê-lo vivo e motivado.
Mas nem tudo era bondade. Perto da fronteira com Oregon, Eric foi confundido com um fugitivo por um guarda florestal armado, que o interrogou sob a mira de uma arma. “Eu só queria explicar que era um trilheiro, mas o cara não estava para conversa”, ele relata. A tensão durou minutos que pareceram horas, até que o mal-entendido se resolveu. Era mais um capítulo imprevisível numa saga já cheia de reviravoltas.
O Triunfo e a Transformação
Após cinco meses e meio de caminhada — com paradas apenas para reabastecer —, Eric chegou ao Monumento 252, na fronteira com o México, em outubro de 1970. Ele havia perdido quase 10 quilos, queimado as solas de três pares de botas e enfrentado tudo que a trilha jogou em seu caminho: nevascas, calor infernal, fome e solidão. “Quando cheguei ao fim, não senti euforia. Senti paz”, ele reflete. Aquela jornada, que começou como um desafio físico, transformou-se em algo muito maior: uma lição sobre quem ele era e do que era capaz.
Quando cheguei ao fim, não senti euforia. Senti paz.
Eric Ryback abriu caminho para gerações de trilheiros que hoje encaram a PCT, agora uma trilha bem marcada e cultuada. Seu relato, publicado em 1971, inspirou aventureiros e lançou luz sobre um percurso que, na época, era quase mito. Hoje, uma média de 1.300 pessoas completam a PCT a cada ano, e muitas recebem uma medalha de bronze — uma ideia que o próprio Eric criou em 2010 para homenagear os trilheiros, financiando-a por anos antes de passar o bastão à PCTA. Sua história vai além das pegadas na terra: é uma prova de como os extremos — da natureza e de nós mesmos — podem moldar uma vida e deixar um legado eterno.
Curiosidades da sua jornada:
- Distância: 4.265 km (2.650 milhas), do Canadá ao México.
- Duração: 5 meses e meio, de junho a outubro de 1970.
- Equipamento: Mochila de 18 kg, sem tecnologia moderna como GPS ou celular.
- Desafios: Roubo, rios perigosos e confrontos com autoridades.
Pergunta
Você teria coragem de atravessar mais de 4 mil quilômetros com tão pouco, como Eric Ryback fez?