Diário 85

Fodeu!!!
Estou perdido. Agora ferrou tudo... já tentei achar a trilha de onde eu vim, mas acho que me perdi ainda mais... sinto que estou caminhando em círculos. Não é possível, como fui entrar numa enrascada dessa?
Pelos meus cálculos, ainda devo estar no mínimo uns 80km em linha reta do vilarejo mais próximo... isso se eu estiver na trilha certa, e outra coisa... linha reta é o que não existe aqui no Himalaia, estou em uma cordilheira, aqui só tem subidas e descidas.
Maldito Himalaia!
Porque não escolhi um trekking em volta da Ilhabela, no litoral de São Paulo, tranquilo, clima tropical, uma praia e uma cerveja para curtir o por do sol? O que eu vim fazer aqui nesse fim de mundo? (depois explico com mais calma)
Bom, 80km significa uns 5 dias de trekking. Dá para encarar, minha comida ainda deve durar por mais uns 15 dias, se eu racionar acho que dura uns 20 dias.
Poderia, mas não vou acionar o Satelital de emergência... tenho que achar a trilha certa com meus próprios meios... se eu não fizer um novo post em meu diário online nos próximos 3 dias, pelo amor de Deus, acionem o resgate por mim.
Até breve... espero.

Elias Luiz, perdido no Himalaia.

Diário 86

COMUNICAÇÃO
Só para vocês entenderem. Quando tive a grande sacada - ou burrada - de fazer essa trilha, o que eu menos queria era ter acesso a internet. Porra, eu trabalho com isso pelo menos 16 horas por dia, sou diretor de um site de aventura, tudo que eu faço é online, 7 dias por semana.
Estava há 3 anos sem tirar férias, e sentia que precisava de um projeto grande, algo que eu nunca tivesse feito. Já fiz trekking de 14 dias, de 17 dias, viagens de 40 dias… já percorri os Andes, os Alpes a Islândia e até já fiz o trekking ao acampamento base do Everest. Portanto eu conheço o Himalaia, bom, conheço um pouco o Himalaia. Está certo, eu não conheço praticamente nada do Himalaia. Mas queria algo maior e mais autônomo. Queria uma experiência mais intrínseca. Queria sentir o que era caminhar por praticamente 6 meses. Ok, sei que é loucura, minha mãe falou isso. Meu irmão também. Tá bom, meus amigos também falaram.
Mas não adianta, quando você tem uma ideia ou um sonho, tudo parece lógico, você sabe como é, né! Quem nunca?
Eu não queria ficar o dia todo grudado na internet durante a minha expedição, saber notícias do Brasil, até mesmo ficar acessando o Extremos para saber o que estava acontecendo, ou melhor, para ficar vigiando e saber se minha equipe estava trabalhando. Confesso que faria isso. Eu não precisaria disso tudo, já estaria vivenciando aventura 24 horas por dia. Já basta.
Então precisava ter um mínimo de segurança para a viagem, e queria sim ter um meio de contato com o mundo, e meus amigos da Explorersweb me colocaram em contato com uma equipe da Thuraya, empresa de comunicação via satélite. E eles conseguiram adaptar um pacote para o que eu queria. Era algo exclusivo e que por sinal ficaria muito mais barato do que o pacote normal que eles vendem.
O melhor de tudo é que não preciso comprar um satelital, ele é alugado.
Ahhh. Conectado.
Calma lá.
Eles tem pacotes de dados que você pode fazer o diabo a quatro. A meu pedido e para isso eles tiveram que usar um equipamento protótipo deles, o meu sistema só envia sinal. Eu não recebo nada, não recebo emails, não recebo mensagens do whatsapp e não consigo acessar internet, muito menos um GPS. Nem mesmo terei acesso ao Facebook. Amém!
A única coisa que ele faz através de um aplicativo específico é alimentar o meu Diário de Viagem, apenas com textos. Nem foto consigo enviar. Na verdade nem câmera o aparelho tem. Ele tem o formato de um celular, com uma ponta lateral mais pronunciada, que é a antena satelital. A tela é de E ink, para economizar energia e o teclado é físico. Bem simples, robusto e prático.
O custo do equipamento e do plano de dados ficou uma mixaria - nem tanto. E o mais importante, é que gasta muito menos bateria. Mesmo tendo um carregador solar, aqui no Himalaia é muito frio, e não há bateria que aguente.
E sabe porque o protótipo deles não foi lançado? Porque ele foi criado para pessoas que precisam de um equipamento de baixo custo, mas que não te dá acesso a quase nada, além de ter uma boa autonomia. E hoje em dia o que o pessoal mais quer é ficar conectado e ter todo acesso possível.
Hoje em dia os aparelhos mais novos da Thuraya são super avançados e com dezenas de finalidades. O mais novo é apenas uma capa que você acopla em seu iPhone, assim você nem precisa de comprar ou alugar um satelital complexo e caro. Essa capa serve como uma bateria extra e tem uma antena para a comunicação com o satélite. Simples, eficiente e nem tão caro assim, além de você poder usar em seu próprio iPhone com os infinitos aplicativos que há nele.
Mas o que eu aluguei era muito mais simples.
A ideia é periodicamente atualizar este Diário de Viagem, vocês poderão saber o que está acontecendo aqui e eu não saberei o que acontece aí. Perfeito!
Acredito que já deve ter muitos homens querendo comprar um sistema desse para se comunicar com a esposa… só ele fala. Não fiquem ofendidas mulheres, vocês já nasceram com esse sistema default.
Bom, e para emergência há um botão que posso acionar.
Sim, o botão é vermelho.
Ele irá enviar um sinal para um satélite que por sua vez retransmitirá para um segundo satélite que depois enviará o sinal para uma central no coração de Londres. Se eu fizer isso, no centro de uma sala de CPD onde há uma tela enorme de monitoração com o Mapa Mundi e com as condições climáticas em tempo real, irá começar a piscar um ponto vermelho na tela e um som chato e intermitente irá tocar. O ponto vermelho aparece com o código de rastreamento do meu aparelho, que é o ID1971. Quando o operador clicar neste ponto, irá aparecer a minha foto, com os meus dados de localização em latitude e longitude e o meu perfil com telefones e emails que depois provavelmente usarão para informar os meus familiares
Me disseram que após eu enviar o sinal de socorro, eles acionam uma equipe resgate mais próxima de onde eu estiver e no máximo em 48 horas eu estarei dentro de um helicóptero voando para algum lugar seguro.

Diário 88

Deixe eu explicar algumas coisas antes de tudo, para não criar confusão.
Em primeiro lugar, continuo perdido. Que novidade!
Quando eu disse no final da mensagem de ontem que se eu não fizer um post em 3 dias é para acionarem o resgate, este era o aviso para a minha equipe. Estou com um satelital que posso acionar o pedido de resgate. Mas a minha equipe, na redação do Extremos, tem um aparelho que pode fazer praticamente a mesma coisa que o meu. Caso eu desapareça do mapa e não dê notícias, eles podem utilizar aquele aparelho para fazer o pedido de resgate. Lógico, a central saberá que esse pedido veio de Campinas, e saberão que o pedido de resgate na verdade é para mim.
Então eles irão rastrear as minhas últimas mensagens, e através delas conseguem por um processo complicado que não sei explicar, descobrir a localização das minhas últimas mensagens e assim ter uma noção de onde eu vinha e para onde eu poderia estar indo. Lógico que nisso pode ter uma diferença de dias entre a minha última mensagem e meu sumiço. Mas, antes uma localização aproximada, do que nada.
Então não se preocupem, o pedido de acionar o resgate é para a minha equipe.

Importante: Veja que o título de hoje é, Diário 88. O numeral sempre indicará o meu dia de expedição. Sim, já faz 88 dias que estou na trilha e se não estou enganado, hoje é dia 28 de maio, correto?
Só para confirmar, o meu primeiro post no diário online foi o Diário 85.

Diário 89

O PROJETO
Continuo perdido! Mas estou mais calmo, não vai adiantar nada ficar estressado.
Então vou aproveitar para contar sobre esse projeto, vinha guardando ele em segredo, mas agora não adianta mais.
Meu projeto é percorrer a The Great Himalayan Trail, uma trilha de 1.700km pela parte alta do Himalaia, cruzando o Nepal de ponta a ponta de extensão. Considerada a trilha mais linda do mundo, e também de longe a mais difícil.
Um projeto ambicioso.
Além de ser de superação de meus limites, se completar essa trilha, serei o primeiro Americano a percorrê-la, sim, o primeiro de todas as Américas.
Sem dúvida uma motivação a mais!
Mas não a principal!
O que eu queria era uma longa experiência. O meu trekking mais longo foi de 17 dias ao acampamento base do Everest. Lógico, foi muito difícil e desgastante, principalmente castigado pela altitude. Mas naquela expedição eu fazia parte de um grupo. Tinha um guia brasileiro, outro guia sherpa, além de carregadores para levar a minha mochila marinheira. O que eu precisava fazer era levar a minha mochila de ataque e suportar a altitude e os duros dias de trekking. Mesmo parecendo fácil, vi muita gente tendo que desistir.
Mas em um trekking de 17 dias, você já começa no primeiro dia de trilha praticamente desejando e imaginando que depois de duas semanas e meia ela já terminou. Você já começa pensando no fim.
Em uma expedição como essa, que terá por volta de 180 dias - 6 meses -, não tem como você desejar ou imaginar o seu fim... passarei semanas e semanas em meio a trilha e ainda estarei no começo.
É exatamente isso que eu quero nesta expedição.
Pensar somente no meu dia, no momento. Viver só o presente, sem ter a chance de desejar o fim disso tudo.
Preciso desacelerar a minha vida.
Venho em um rítmo alucinante últimamente e tinha noção que com meus próprios meios não conseguiria essa tranquilidade que almejava.
Somente me enfiando de cabeça nos 1.700km da The Great Himalayan Trail eu poderia alcançar essa paz. E espero levá-la comigo quando sair daqui.

Diário 91

Porque eu não trouxe um GPS? Seria tão fácil achar a trilha com ele.
Ok...ok... confesso o motivo.
Odeio GPS.
Pra mim, usar um GPS neste trekking de 6 meses pelo Himalaia seria o mesmo que usar cilindros de oxigênio para escalar o Everest... uma trapaça com a montanha. Se minha expedição fosse para passear, teria ido ao Parque do Ibirapuera.
Que droga! A Jus Prado era expert em achar as trilhas, mas ela desistiu depois de 54 dias de caminhada... estava esgotada física e emocionalmente... acabou ficando em Gokyo…
Não. Não sou nenhum pouco melhor do que ela, inclusive dependia dela para os trechos em que precisaria usar técnicas de escalada, ainda bem que essa parte mais difícil foi logo no início. Fisicamente ela estava até mais preparada do que eu. Talvez eu seja apenas mais teimoso do que ela.
Mas já tenho uma ideia, o mapa que eu tenho é ótimo, com escalada de 1:10.000, uma relíquia que consegui com um amigo que trabalha na ONU - por baixo dos panos. Isso pode me ajudar. A ideia é me guiar pela estrela Polar... da mesma forma que os navegantes do século 18 faziam. Mas acho que minha maré de azar continua, pois já se passaram duas noites depois que eu me perdi e o céu sempre esteve nublado…
Nota: Não estou parado, continuo caminhando por algo que parece uma trilha.
Próximo contato em 3 dias, caso contrário vocês já sabem o que fazer.

Diário 93

Vim aqui hoje apenas para não estourar os 3 dias de prazo para vocês não acionaram o resgate.
Ainda estou vivo, tão vivo quanto perdido.
Parece que o tempo vai melhorar... tem que melhorar!
A tarefa do dia é fazer um astrolábio, lógico, não adianta a Polar aparecer e eu não ter um astrolábio para traçar a minha latitude.
Caramba, porque não convidei o Amyr Klink para fazer essa trilha comigo, ele faria um astrolábio em cinco minutos.
Ok, tenho muito a fazer... até mais... já sabem do combinado né?

Diário 96

Vocês não acionaram o resgate né? Estou aqui ainda. Acho melhor a gente aumentar esse prazo, pois se acontecer alguma coisa comigo, acho que sobrevivo até uma semana sem resgate.
A MELHOR NOTÍCIA DO ANO: O tempo melhorou... e na noite passada o céu estava completamente limpo... ou melhor dizendo, totalmente sujo, abarrotado de estrelas. Cadê a Polar do meio disso tudo?
a Polar apareceu, e depois de quebrar a cabeça e fazer centenas de cálculos, acho que aprendi a usar o astrolábio... fantástico.
Chupa essa GPS.
A PIOR NOTÍCIA DO ANO: Aprendi a me localizar usando o astrolábio e o mapa. Muito bom.
Mas descobri que me afastei 180 km da trilha e agora vim parar no Tibet.
CARAMBA, ESTOU NO TIBET.
Acho que vou tomar um chá com o Dalai Lama.
Bom... juro que não encontrei a cabine para fazer a imigração. Se os chinas descobrirem que estou em suas terras, estou perdido.

Diário 118

Hoje aconteceu uma coisa muita estranha.
Estou com vergonha de contar pra vocês... mas estou numa sinuca de bico.
Não sei, mas acho que agora estou mais apavorado do que quando descobri que me perdi.
Em outras palavras... tô perdido.
O dia amanheceu como todos os outros por aqui. Exceto que por causa da festinha de ontem a noite, acordei tarde e com ressaca. Maldita cerveja artesanal tibetana, nunca fiquei tão bêbado.
Como eu acordei tarde, os homens já tinham saido para as últimas podas antes da colheita da próxima semana, e desta vez não fui ajudá-los. Depois de tomar um... arrghhh... chá com manteiga salgada e comer algo parecido com um pão, esse até que muito gostoso. Resolvi perambular entre as cabanas.
A Tshenga me chamou da porta de uma cabana. Ela é como uma mãezona de todas, mas tem senhoras muito mais velhas que ela. Mas ela é a mais ativa e que cuida de todas.
Entrei na cabana e todas as mulheres estavam sentadas próximo a parede, formavam um grande circulo. Pediu para eu me sentar ali no meio... isso, no meio do circulo.
Já comecei a achar isso estranho.
Bom, vocês sabem que o meu tibetanês é bem ruim, mas tem coisas que são ditas que qualquer ignorante como eu entenderia.
Entre gestos, mímicas e frases, o assunto que se deu foi o seguinte.
Como eu já disse, esse minúsculo povoado está praticamente isolado desde do tempo da revolução de 1953. E acontece que as poucas famílias acabam se misturando entre sí... deixa eu explicar. É normal aqui o casamento com primos, não tem para onde correr, eles não tem escolha, a linhagem está se estreitando e com isso pode acasionar problemas... os filhos tem uma grande chance de nascer com problemas... e quando isso acontece é tradição deles sacrificarem o recém nascido. Um drama.
Então Tshenga me pediu para no próximo final de semana, que também será realizado uma festa colheita... que eu aproveitasse que a Tshongla por acaso também estará fértil... é... é...
Bom...
Me pediu para que eu fizesse um filho com ela. Isso na intensão de diversificar o DNA deles.
Eu daria tudo nesse mundo para ver uma foto da cara que eu fiz nesse momento.
Olha, pensa no mais alto grau de constrangimento! É por ai como me senti. Essa proposta foi feita a mim, rodeado de mais de dez mulheres.
Vou te dizer a verdade... a Tshongla, é uma das moças mais bonitas do vilarejo... jovem, lá pelos seus 22 anos, 1,70m de altura, pele queimada pelo sol e pelo frio, olhos grandes e as bochechas rosadas. Se for pensar só no ato e ainda mais porque estou na seca já há mais de 118 dias... a ideia é até muito tentadora.
Mas pense bem, e se tudo der certo e daqui nove meses nascer o meu filho, como fica a minha cabeça?
Já estarei de volta ao Brasil e com um filho em meio as montanhas do Himalaia?
Complidado... é uma situação muito difícil. Elas me deram até o dia da festa para pensar.
Mas pensando por outro lado, estou perdido, ainda não sei as chances que tenho de sair dessa vivo. Vai que me acontece alguma coisa na trilha e eu não sobreviva? Pensando assim, pelo menos deixarei um herdeiro.

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