Diário 86
COMUNICAÇÃO
Só para vocês entenderem. Quando tive a grande sacada - ou burrada - de fazer essa trilha, o que eu menos queria era ter acesso a internet. Porra, eu trabalho com isso pelo menos 16 horas por dia, sou diretor de um site de aventura, tudo que eu faço é online, 7 dias por semana.
Estava há 3 anos sem tirar férias, e sentia que precisava de um projeto grande, algo que eu nunca tivesse feito. Já fiz trekking de 14 dias, de 17 dias, viagens de 40 dias… já percorri os Andes, os Alpes a Islândia e até já fiz o trekking ao acampamento base do Everest. Portanto eu conheço o Himalaia, bom, conheço um pouco o Himalaia. Está certo, eu não conheço praticamente nada do Himalaia. Mas queria algo maior e mais autônomo. Queria uma experiência mais intrínseca. Queria sentir o que era caminhar por praticamente 6 meses. Ok, sei que é loucura, minha mãe falou isso. Meu irmão também. Tá bom, meus amigos também falaram.
Mas não adianta, quando você tem uma ideia ou um sonho, tudo parece lógico, você sabe como é, né! Quem nunca?
Eu não queria ficar o dia todo grudado na internet durante a minha expedição, saber notícias do Brasil, até mesmo ficar acessando o Extremos para saber o que estava acontecendo, ou melhor, para ficar vigiando e saber se minha equipe estava trabalhando. Confesso que faria isso. Eu não precisaria disso tudo, já estaria vivenciando aventura 24 horas por dia. Já basta.
Então precisava ter um mínimo de segurança para a viagem, e queria sim ter um meio de contato com o mundo, e meus amigos da Explorersweb me colocaram em contato com uma equipe da Thuraya, empresa de comunicação via satélite. E eles conseguiram adaptar um pacote para o que eu queria. Era algo exclusivo e que por sinal ficaria muito mais barato do que o pacote normal que eles vendem.
O melhor de tudo é que não preciso comprar um satelital, ele é alugado.
Ahhh. Conectado.
Calma lá.
Eles tem pacotes de dados que você pode fazer o diabo a quatro. A meu pedido e para isso eles tiveram que usar um equipamento protótipo deles, o meu sistema só envia sinal. Eu não recebo nada, não recebo emails, não recebo mensagens do whatsapp e não consigo acessar internet, muito menos um GPS. Nem mesmo terei acesso ao Facebook. Amém!
A única coisa que ele faz através de um aplicativo específico é alimentar o meu Diário de Viagem, apenas com textos. Nem foto consigo enviar. Na verdade nem câmera o aparelho tem. Ele tem o formato de um celular, com uma ponta lateral mais pronunciada, que é a antena satelital. A tela é de E ink, para economizar energia e o teclado é físico. Bem simples, robusto e prático.
O custo do equipamento e do plano de dados ficou uma mixaria - nem tanto. E o mais importante, é que gasta muito menos bateria. Mesmo tendo um carregador solar, aqui no Himalaia é muito frio, e não há bateria que aguente.
E sabe porque o protótipo deles não foi lançado? Porque ele foi criado para pessoas que precisam de um equipamento de baixo custo, mas que não te dá acesso a quase nada, além de ter uma boa autonomia. E hoje em dia o que o pessoal mais quer é ficar conectado e ter todo acesso possível.
Hoje em dia os aparelhos mais novos da Thuraya são super avançados e com dezenas de finalidades. O mais novo é apenas uma capa que você acopla em seu iPhone, assim você nem precisa de comprar ou alugar um satelital complexo e caro. Essa capa serve como uma bateria extra e tem uma antena para a comunicação com o satélite. Simples, eficiente e nem tão caro assim, além de você poder usar em seu próprio iPhone com os infinitos aplicativos que há nele.
Mas o que eu aluguei era muito mais simples.
A ideia é periodicamente atualizar este Diário de Viagem, vocês poderão saber o que está acontecendo aqui e eu não saberei o que acontece aí. Perfeito!
Acredito que já deve ter muitos homens querendo comprar um sistema desse para se comunicar com a esposa… só ele fala. Não fiquem ofendidas mulheres, vocês já nasceram com esse sistema default.
Bom, e para emergência há um botão que posso acionar.
Sim, o botão é vermelho.
Ele irá enviar um sinal para um satélite que por sua vez retransmitirá para um segundo satélite que depois enviará o sinal para uma central no coração de Londres. Se eu fizer isso, no centro de uma sala de CPD onde há uma tela enorme de monitoração com o Mapa Mundi e com as condições climáticas em tempo real, irá começar a piscar um ponto vermelho na tela e um som chato e intermitente irá tocar. O ponto vermelho aparece com o código de rastreamento do meu aparelho, que é o ID1971. Quando o operador clicar neste ponto, irá aparecer a minha foto, com os meus dados de localização em latitude e longitude e o meu perfil com telefones e emails que depois provavelmente usarão para informar os meus familiares
Me disseram que após eu enviar o sinal de socorro, eles acionam uma equipe resgate mais próxima de onde eu estiver e no máximo em 48 horas eu estarei dentro de um helicóptero voando para algum lugar seguro.