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Camping selvagem à margem da represa de Ponte Nova, no município de Salesópolis.
Foto: Aman Morbeck |
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Praia de Paraty-Mirim ao entardecer, após pedal de 15 km por estrada de terra.
Foto: Aman Morbeck |
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Vista do saco do Mamanguá, com o morro Pão de Açúcar a distância.
Foto: Aman Morbeck |
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Com três nascentes, aqui começa o Rio Tietê, que depois correrá por 1.100 km até desaguar no Rio Paraná.
Foto: Aman Morbeck |
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Uma das charmosas ruas do centro histórico de Paraty, com calçamento original do século XVII.
Foto: Aman Morbeck |
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Praia dos Ranchos, em Trindade; na outra ponta fica a praia de Cepilho, "point" de surfistas.
Foto: Aman Morbeck |
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Para mim, o bom do carnaval não é a folia, mas os dias de folga, que sempre aproveito para fazer um roteiro que exija mais dias e, de preferência, longe de qualquer agito. Este ano não foi diferente e aproveitei para esticar um pouco mais o feriado.
Primeiro, uma amiga e eu acampamos por três dias à beira da represa de Ponte Nova, no município de Salesópolis (SP), e foi bem divertido. Na primeira noite, choveu muito e o dia amanheceu nublado e frio, com chuva fina o dia quase todo. Nos outros dias, a chuva ia e vinha, o sol apareceu timidamente por algumas horas, mas nada disso impediu mergulhos, caminhadas e pedaladas.
Há vários locais para camping selvagem ao redor da represa e havia muitas pessoas acampando no feriado. Escolhemos um lugar para ficarmos quase no fim da estrada que circunda a represa, a partir do bairro do Roque, porque havia pescadores por perto, o que significava um pouco mais de segurança e também silêncio e sossego. E a paisagem ao redor não podia ser mais linda: à frente da barraca, a represa, limitada por um morro; dos lados, o gramado verde; e atrás, um bosque de araucárias – há muitas naquela região.
Em uma tarde, enquanto caminhávamos ao longo da margem, aproveitamos para recolher o lixo deixado por outros visitantes menos cuidadosos. Enchemos dois sacos grandes. E o interessante é que há lixeiras de madeira ao longo da estrada, isto é, nem é preciso levar o lixo de volta até a cidade. De qualquer forma, retirar a sujeira deixada por outros foi nossa forma de cuidar da natureza ali e agradecê-la por nos oferecer um lugar tão especial daquele, que precisa ser preservado.
Depois dos dias de sossego, de leitura e de comida feita no fogareiro – é incrível como acampar dá fome! –, desmontamos o acampamento e fomos conhecer o Parque Nascentes do Tietê, ainda no município de Salesópolis, onde estão as três nascentes cristalinas e preservadas desse rio. Mal dá para acreditar que ele nasce tão puro e que sua água é potável, bombeada morro acima para ser consumida – e até levada para casa, se você quiser. Há várias torneiras no pátio próximo do pequeno museu e da loja de lembranças. O parque, bem cuidado e hoje com a vegetação totalmente recuperada, tem três trilhas curtas que levam às nascentes. Ao lado delas, uma monitora conta a história de seu descobrimento, que aconteceu em 1954, e ensina o visitante a identificar os sinais da natureza que indicam a pureza da água e do ar.
Na quarta-feira de Cinzas, quando todo mundo voltava ao trabalho, descemos para Paraty (RJ). E para curtirmos a beleza da vegetação da Serra da Bocaina, optamos por utilizar o último trecho da antiga Estrada Real, que liga Cunha (SP) à histórica cidade fluminense, com seus 9 km de estrada de terra, buracos, pedras e, nesse dia, muita lama. A chuva caiu durante toda a descida, com muita neblina – que deu um toque especial à paisagem. Em algumas curvas o solo estava tão escorregadio que foi necessário usar tração 4x4 reduzida no jipinho. Se você quiser fazer esse caminho, que recomendo muito, escolha o sentido que fizemos, de descida, principalmente se não tiver carro com tração, pois a subida judia de veículos baixos, além de exigir muito do motor. Ao longo da estrada há vários totens indicando o ponto no qual você se encontra na Estrada Real.
Depois da descida lenta, checando de vez em quando se estava tudo bem com as bikes que balançavam de um lado para o outro no teto do carro, chegamos à rústica e aconchegante Pousada Vila Volta (www.vilavolta.com.br), em Paraty-Mirim. Ela está incrustada na Serra do Mar, cercada por mata atlântica e localizada a apenas 13 km do centro histórico de Paraty. O que não faltaria pelos dias seguintes eram programas para serem feitos, mas o sossego, o silêncio e o verde ao redor da pousada eram tão bons, que não dava vontade de sair de lá. Isso sem falar na piscina natural de um riacho que desce da montanha e na simpatia do brasileiro André Luís Rodrigues Góes e do holandês Gerardus Adrianus Maria De Bruine, ou simplesmente Dus, proprietários daquele paraíso. Mas isso tudo foi curtido nos intervalos dos roteiros que fizemos, como o trekking de duas horas – nível médio – que fizemos até o saco do Mamanguá. A primeira hora de caminhada foi só subida em trilha cercada pela mata atlântica. Depois de chegarmos ao ponto em que começa a descida até o nível do mar, encontramos algumas casas de caiçaras pelo caminho e a vegetação mudou por completo, as árvores desapareceram e, de determinado ponto, avistamos o Mamanguá pela primeira vez. O que vimos acabou nos fornecendo energia extra para continuarmos nossa caminhada até lá.
Quando chegamos à praia no mar abrigado do saco do Mamanguá, havia um barco "popopó" nos esperando, pois André havia combinado antecipadamente com um barqueiro. O dia estava lindo e a água esverdeada, calma e morna era muito convidativa, por isso fomos de barco até a praia das Antas, onde nadamos por um bom tempo. Enquanto o barco seguia devagar até lá, apreciávamos a beleza da vegetação que nos cercava e daquele encontro incrível entre montanha e mar.
Por suas características naturais, o saco do Mamanguá é considerado como o único fiorde brasileiro. Antigamente, ao seu redor viviam apenas caiçaras, moradores e pescadores da região. Hoje, restam poucos deles. A maioria vendeu suas propriedades e foi embora para a cidade, na esperança de uma vida melhor.
Depois de nos divertimos na praia das Antas, fizemos um lanche para nos prepararmos para a próxima aventura: o trekking até o pico de um dos morros que cercam o saco: o Pão de Açúcar, de cerca de 400 m de altitude. Olhando a distância, podíamos prever que a subida exigiria muito fisicamente, mas acabou sendo mais difícil do que antecipamos. De barco, cruzamos para o outro lado do saco, de onde pegamos a trilha e começamos a subir, subir mesmo, pois o relevo é muito íngreme, tanto que em três pontos precisamos contar com a ajuda de cordas. Nos últimos metros, o jeito foi escalaminhar, mas quando chegamos ao topo da pedra, após uma hora de subida, o cansaço gerado pelo esforço sumiu rapidinho. O visual lá de cima é incrível! Vê-se todo o saco com o mangue à esquerda e a baía de Paraty à direita. Os barcos que passavam lá embaixo ou descansavam na água pareciam de brinquedo. Infelizmente, porém, o tempo fechou enquanto subíamos e nuvens baixas impediram que víssemos mais longe, mas mesmo assim valeu a pena. Descemos com o coração feliz e aquela sensação de termos recebido uma recompensa.
De volta à praia, tiramos o suor do corpo na água clara e limpa antes de seguirmos até o restaurante do seu Zizinho, onde nos esperava o tradicional – e merecido – almoço caiçara com arroz, feijão, salada e peixe frito. A varanda onde estão as mesas fica na beira do mar e podíamos avistar o lado oposto do saco e também o Pão de Açúcar, de onde havíamos acabado de descer. Ele nos pareceu mais alto do que antes.
Após o almoço, voltamos de barco à praia de Paraty-Mirim, de onde seguimos, com aquele cansaço gostoso, de volta à pousada. Para esse roteiro é bom levar pelo menos um bastão de caminhada, não fazê-lo se você tem algum problema nos joelhos, ir com roupa de banho por baixo, usar protetor solar e repelente e levar lanche de trilha e água.
Paraty-Mirim é hoje um bairro de Paraty e foi assim batizado graças ao rio de mesmo nome que deságua no mar calmo. Não há só a praia pequena de areia branca ali, mas também ruínas de um antigo armazém onde eram guardados os negros que chegavam da África para serem vendidos a fazendeiros do interior paulista. A capela de Nossa Senhora da Conceição, de 1696, é a única construção preservada daquela época. Atualmente, há várias construções modernas ao redor e da praia saem barcos pequenos para algumas ilhas e para o saco do Mamanguá.
Como havia levado a bicicleta, no dia seguinte fiz um pedal por estrada de terra saindo da pousada em direção à praia de Paraty-Mirim. Incluí no trajeto 3 km que levam até o quilombo Campinho da Independência, às margens da BR-101 - se você quiser conhecer o quilombo de bike, é só atravessar a rodovia ao final da estrada e entrar à direita 200 metros adiante. Não há muito o que se ver lá, mas a casa de artesanato merece uma visita, bem como saber sobre a história do quilombo.
Pedalei esse trecho (ida e volta, 6 km) cercado de mata atlântica sem dificuldade, com o rio Paraty-Mirim margeando a estrada, e segui em direção à praia. Há poucas subidas e não há perigo com relação ao tráfego, pois como a estrada de terra não é muito boa, os automóveis não conseguem desenvolver velocidades altas. Há um pequeno trecho de asfalto na reserva dos índios que, em direção à praia, é uma descida irada, mas na volta...
Ao longo do caminho, com o rio de um lado e o visual da montanha do outro, há várias casas e encontrei muitas pessoas de bicicleta. Elas me olhavam de forma engraçada, demonstrando claramente que alguém com luvas e capacete pedalando por ali era como um ET.
Depois de 15 km, cheguei à praia ao entardecer, nadei muito no mar calmo e relaxei antes de voltar à pousada, terminando o pedal com 23 km.
Um dia do passeio foi gasto em Trindade, com sua vila salpicada de restaurantes, pousadas, cafés, lojas e áreas de acampamento com vista para o mar. Diante da impossibilidade de conhecer tudo em um só dia, a opção foi aproveitar a praia dos Ranchos, paralela à rua principal da vila. Localizada na ponta oposta à praia do Cepilho, o mar cor de esmeralda é tranqüilo para se entrar, com ondas suaves, e na areia alguns bares e restaurantes servem bebidas, porções e refeições.
A areia clara e o visual ao redor convidam para a caminhada de uma ponta à outra – e de volta – e nesse percurso é interessante observar a mudança na força da água, tanto que a praia do Cepilho é o "point" dos surfistas. As duas praias são separadas por um grupo de rochas grandes e altas nas quais as ondas arrebentam sem dó, em um espetáculo à parte.
Por fim, o bonito e aconchegante centro histórico de Paraty. Por estar a apenas 5 metros de altitude, a maré alta faz com que a água do mar invada suas ruas, cobertas até hoje por calçamento de pedras de sua fundação no século XVII, fazendo com que seja conhecida como Veneza brasileira. A arquitetura colonial, com paredes brancas e portas e janelas pintadas em tons de azul, amarelo, verde ou vermelho, e as ruas estreitas fechadas ao trânsito de automóveis, tornam o caminhar bastante agradável.
Lojas de lembranças, cachaçarias, restaurantes para todos os bolsos e gostos, sorveterias, cafés e pousadas ficam abertos até tarde para receber os turistas. Quando for lá, experimente os crepes deliciosos do aconchegante bistrô francês Le Castellet (R. Dona Geralda, 44 – em frente ao teatro Espaço) e a lasanha de palmito pupunha do O Café (R. do Comércio, 253). Ah, e tem também os diversos tipos de cocada vendidos por ambulantes que empurram seus carrinhos pelo centro histórico.
Agora, se você ficar com preguiça de ir comer em Paraty e quiser ficar na Pousada Vila Volta, saiba que o Dus é ótimo cozinheiro e tem na manga receitas de várias partes do mundo, como da Indonésia. Depois do jantar, deixe o sono chegar assistindo a um filme no telão da pequena sala de estar.
Vontade de voltar para São Paulo? Nenhuma, mesmo porque ainda havia outras atividades nos esperando, como remar pela baía de Paraty, fazer trekking na reserva da Juatinga, conhecer cachoeiras e muito mais. Serão feitas na próxima visita.
Foto final: A vista dos quase 400 metros de altitude do morro Pão de Açúcar (Mamanguá) compensa o esforço da subida íngreme.
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