Durante muito tempo, a imagem clássica de uma grande travessia nas montanhas vinha acompanhada de uma mochila enorme. Aquelas cargueiras altas, com armação rígida, bolsos por todos os lados e capacidade para 70 ou 80 litros. Era quase um símbolo de expedição. Quanto maior a mochila, mais séria parecia ser a aventura.
Eu também caminhei muitos anos dentro dessa lógica, embora nunca tenha usado mochilas acima de 55 litros.
Mas algo começou a mudar silenciosamente na indústria de equipamentos de montanha. Não foi uma revolução repentina. Foi um processo contínuo. Ano após ano, novos materiais começaram a aparecer e os equipamentos foram ficando mais leves.
Barracas que pesavam cerca de 2,1 kg passaram a pesar menos de 1 kg. Mochilas que antes pesavam 2,2 kg passaram a pesar 1,2 kg ou até menos. Sacos de dormir ficaram mais compactos e leves. Fogareiros viraram pequenos objetos que cabem na palma da mão. Tecidos mais resistentes e extremamente leves começaram a substituir os materiais tradicionais.
E quando cada item perde algumas centenas de gramas, o resultado aparece inevitavelmente nas costas de quem caminha.
Eu fui percebendo isso ao longo das minhas próprias travessias.
Quando comecei a reduzir o tamanho da mochila
Em 2017 caminhei a Kungsleden, no norte da Suécia, acima do Círculo Polar Ártico. Foram cerca de 450 quilômetros com uma mochila de 50 litros e todo o equipamento de camping. Barraca, fogareiro, saco de dormir e comida. No início da travessia ela pesava cerca de 17 quilos. Na época aquilo parecia perfeitamente normal.
Em 2018 fui para as Rocky Mountains e depois voltei novamente no ano seguinte. Somando as duas temporadas caminhei cerca de 700 quilômetros em cinquenta dias pelas montanhas canadenses. A mochila continuava sendo de 50 litros e o peso variava bastante dependendo do trecho. Em alguns momentos chegava a 18 quilos, principalmente quando eu precisava carregar comida para até doze dias seguidos em áreas completamente remotas.
Era peso de verdade.
Vale lembrar que, como sou escritor e fotógrafo, parte do peso da mochila também vinha do meu trabalho. Apenas com câmera, lentes, powerbanks, tripé e alguns acessórios de fotografia eu carrego cerca de 5 quilos.
Em 2023 percorri parte da Via Alpina usando uma mochila de 45 litros, ainda com todo o equipamento de camping. Já era um conjunto mais compacto e eficiente do que aquele que eu usava alguns anos antes.
E então, em 2024, fiz toda a Via Alpina atravessando cerca de 390 quilômetros pelos Alpes suíços com uma mochila de apenas 35 litros. No início da travessia ela pesava cerca de 12 quilos, contando os 5 kg de equipamentos fotográficos e agora também um drone. Sem barraca, sem fogareiro, sem cozinha. Dormindo em vilarejos e pequenos hotéis ao longo do caminho. Essa trilha permitia isso.
Quando olhei para trás e comparei essas travessias, ficou claro para mim que algo estava mudando. E isso não acontece apenas comigo. Trilheiros acostumados com travessias de longa distância, que podem durar até cinco meses de caminhada — como a Pacific Crest Trail, Appalachian Trail, Continental Divide Trail ou Te Araroa — costumam usar mochilas em torno de 45 litros.
Classificação das mochilas
Hoje o mercado de trekking costuma dividir as mochilas em três grandes categorias, de acordo com a capacidade em litros.
- Mochila de ataque (daypack) — até 35 litros
- Mochila semi-cargueira ou intermediária — 35–55 litros
- Mochila cargueira (expedition / backpacking) — acima de 55 litros
Então, as cargueiras estão desaparecendo?
E aqui surge uma reflexão interessante.
Eu, pessoalmente, nunca usei mochilas acima de 55 litros. Para mim, esse tamanho já deixou de fazer sentido há muito tempo.
A pergunta então é inevitável. Será que as mochilas cargueiras realmente estão desaparecendo ou apenas estão deixando de ser o padrão universal das trilhas?
Talvez o futuro delas seja de uso ainda mais específico. Mochilas enormes podem continuar existindo, mas direcionadas principalmente para guias de expedição, montanhistas que carregam equipamento técnico ou trilheiros iniciantes que ainda estão aprendendo a reduzir peso.
Para todo o resto, a tendência parece cada vez mais clara.
Quanto menos peso nas costas, melhor é a caminhada.





