A trilha começa muito antes do primeiro passo. Ela começa quando estamos sentados em casa, olhando uma foto bonita, lendo um relato editado, imaginando como vai ser acordar todos os dias com vontade de caminhar, o corpo leve, a cabeça limpa, a mochila encaixada nas costas como se sempre tivesse estado ali. Na expectativa, a trilha flui. Não há problemas, não há dúvidas, não há cansaço.
Na realidade, o primeiro dia costuma ser estranho. Foi assim comigo no Trekking ao Campo Base do Everest, na Kungsleden e principalmente na remota Rocky Mountains. O corpo ainda não entende o que está acontecendo, a mochila pesa mais do que parecia antes de embarcar, o ritmo nunca encaixa de imediato e a pergunta que aparece cedo demais é simples e desconfortável: será que é isso mesmo?
O limite muda de lugar
Os dias seguintes muitas vezes não respondem essa pergunta. Eles a repetem. Às vezes de forma silenciosa, às vezes em forma de dor na descida, às vezes na dificuldade de levantar da cama, às vezes na irritação sem motivo claro. A trilha longa não se apresenta como uma sequência de vitórias. Ela se impõe como uma convivência diária com o próprio limite, que muda de lugar o tempo todo.
Existe uma expectativa quase ingênua de que o corpo vai melhorar a cada dia, como se fosse um gráfico ascendente. Mas o corpo não funciona assim. Ele negocia. Um dia responde bem, no outro cobra. Há manhãs em que as pernas parecem não ter sido usadas nunca e outras em que caminham sozinhas, enquanto a cabeça se perde em pensamentos que nada têm a ver com a trilha. Quem entra esperando constância se frustra rápido. Quem aprende a aceitar a irregularidade permanece. E quem aprende a dar valor às pequenas conquistas e aos momentos únicos da natureza acaba levando a trilha consigo, mesmo depois que ela termina.
O ritmo possível
O ritmo ideal, aquele que foi calculado antes da viagem, raramente sobrevive à primeira semana. O terreno muda, o clima muda, o peso emocional do caminho também muda. Há dias em que andar devagar é a única forma de continuar e isso não tem nada de derrota. Trilhas longas não premiam velocidade, premiam persistência.
Muita gente imagina que o silêncio da trilha vai trazer clareza imediata, respostas prontas, uma espécie de organização interna automática. O silêncio faz outra coisa. Ele amplifica. Tudo o que foi empurrado para baixo aparece sem pedir licença. Pensamentos antigos caminham junto, lembranças surgem sem contexto, dúvidas se sentam ao lado durante as pausas. A trilha não cria uma nova pessoa, ela retira os ruídos que escondiam quem já estava ali.
O que sobra quando acaba
Os momentos épicos existem, mas são raros. Um passo bem posicionado, uma luz inesperada, um encontro improvável. A maior parte da travessia é feita de coisas pequenas e repetitivas, montar e desmontar mochila, cuidar dos pés, comer mesmo sem vontade, seguir quando não há entusiasmo. É nesse cotidiano que a expectativa mais se quebra e, curiosamente, é ali que a trilha começa a fazer sentido.
O fim também não é como se imagina. Não há fanfarra, não há sensação de encerramento perfeito. Há um silêncio estranho, uma mistura de alívio e vazio, como se algo tivesse sido desligado de repente. A trilha termina no mapa, mas continua por um tempo dentro da cabeça. Voltar é mais difícil do que chegar.
Talvez o maior equívoco da expectativa seja achar que a trilha vai ensinar algo específico. Ela ensina outra coisa. Ensina a lidar com o que aparece, não com o que foi planejado. E quase nunca isso vem em forma de frase bonita. Vem em forma de dia comum, caminhado até o fim.
E mesmo assim, apesar de tudo, ou talvez por causa de tudo isso, vale cada passo, cada dia comum, cada momento em que nada parecia especial. Não porque a trilha promete algo, mas porque ela entrega exatamente o que é possível viver quando se aceita o caminho como ele é, sem pressa, apenas caminhando, e de cada trilha que percorri ao longo desses anos não há um dia sequer em que eu não me lembre de algo que aconteceu e que acaba alegrando o meu dia.
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