Elias Luiz mostra o passaporte da Via Alpina com os carimbos da travessia
TREKKING

Adeus ao passaporte da Via Alpina

Pequenas caixas metálicas, escondidas entre montanhas e vilarejos, transformaram a busca pelos 38 carimbos em parte da minha aventura.

Sem saber, em 2024 fiz parte da última turma de trekkers que teve a oportunidade de completar o passaporte da Via Alpina, sendo o único brasileiro até hoje a reunir os 38 carimbos. No ano seguinte, o Switzerland Tourism decidiu encerrar o programa e retirar as estações de carimbo distribuídas ao longo da travessia. Uma decisão que colocou fim a uma experiência que, para muitos caminhantes, fazia parte da própria jornada, deixando uma pergunta que até agora permanece sem resposta: por quê?

Durante os 20 dias de trilha em que percorri a Via Alpina, entre Vaduz e Montreux, carreguei comigo um pequeno passaporte. Meu objetivo era reunir os 38 carimbos distribuídos ao longo dos 390 quilômetros da travessia. Parecia uma tarefa simples, mas nem sempre foi. Depois de oito ou dez horas caminhando, muitas vezes cansado, ainda precisava procurar a pequena caixa metálica que guardava o carimbo. Mas havia algo de especial naquele ritual. Encontrar a caixa, abri-la, pressionar o carimbo contra o papel e observar mais um espaço sendo preenchido trazia uma satisfação que só aumentava à medida que a coleção se aproximava do fim.

Toda a estrutura criada para o passaporte da Via Alpina foi muito bem pensada. Solicitei o meu ainda no Brasil e o recebi pelos Correios, diretamente em casa. Quem preferisse também podia retirar o passaporte no início ou em alguns pontos da trilha.

Camila carimba seu passaporte sobre uma mesa de madeira. O pequeno registro em papel acompanha a jornada e guarda a memória de cada etapa.
Camila carimba seu passaporte sobre uma mesa de madeira. O pequeno registro em papel acompanha a jornada e guarda a memória de cada etapa.
Foto: Elias Luiz | Extremos
Elias Luiz registra os últimos carimbos do passaporte da Via Alpina, em Montreux, após percorrer 390 quilômetros pelos Alpes suíços.
Em Montreux, após percorrer 390 quilômetros pelos Alpes suíços, Elias Luiz registra os últimos carimbos do passaporte, completando a coleção de 38 carimbos da Via Alpina.
Foto: Camila Kümmel | Extremos

As estações de carimbo eram pequenas caixas de aço inoxidável, com aproximadamente 15 centímetros de altura por 12 de largura, geralmente instaladas na parte externa de hotéis, restaurantes ou em locais públicos. Uma portinhola protegia os carimbos de borracha, que tinham tinta integrada e desenhos próprios para cada localidade ou passagem alpina. Algumas caixas guardavam dois ou três carimbos, pois determinados passos de montanha não possuíam estações próprias e seus registros ficavam disponíveis em pontos mais acessíveis. O que mais me agradava era a liberdade de encontrar essas caixas a qualquer hora, sem depender do funcionamento dos estabelecimentos. Afinal, depois de um longo dia nas montanhas, nem sempre era possível prever o horário de chegada.

Caixa metálica de carimbos da Via Alpina instalada na porta de entrada do Castelo de Sargans, na Suíça.
Na porta de entrada do Castelo de Sargans, a pequena caixa metálica identificada com o nome Via Alpina protegia os carimbos e permitia registrar a passagem pelo caminho.
Foto: Elias Luiz | Extremos
Com a portinhola aberta, aparecem os carimbos. Cada desenho identifica um ponto da travessia e preenche mais um espaço da coleção.
Com a portinhola aberta, aparecem os carimbos. Cada desenho identifica um ponto da travessia e preenche mais um espaço da coleção.
Foto: Elias Luiz | Extremos

Ao concluir a travessia, reuni os 38 carimbos. Aquele pequeno passaporte tornou-se um dos souvenirs mais especiais que trouxe da Suíça. E olha que, durante toda a caminhada, praticamente não encontrei produtos relacionadas especificamente à Via Alpina. A diferença é que aquele souvenir não estava à venda. Era preciso conquistá-lo, carimbo por carimbo, passo a passo.

O passaporte acabou ganhando tanta importância durante a caminhada que se tornou praticamente mais um personagem do meu livro Via Alpina – A Travessia da Suíça. Nele, relato as buscas pelas caixas metálicas, as dificuldades para encontrar alguns carimbos e o significado que cada um deles ganhou ao longo da travessia.

Uma tradição que chegou ao fim

O passaporte foi lançado em 2019 pelo Switzerland Tourism, com validade ilimitada. Isso fazia todo o sentido, porque durante minhas caminhadas pela Via Alpina, em 2023 e 2024, conheci muitos suíços que percorriam apenas algumas etapas por ano. Alguns caminhavam três ou quatro dias, outros reservavam uma semana das férias de verão. Para eles, não havia pressa. Bastava pegar um trem, voltar ao ponto onde haviam parado e continuar a caminhada.

Agora imagine alguém que passou quatro ou cinco anos colecionando carimbos e, ao retornar em 2025, descobriu que as caixas haviam desaparecido. O passaporte, anunciado originalmente como uma coleção sem prazo para terminar, simplesmente deixou de existir.

Foi exatamente o que aconteceu com o suíço David Bauer, que percorria a Via Alpina aos poucos e estava com metade do passaporte preenchido quando soube da decisão. Inconformado, criou uma versão digital para continuar sua coleção. Uma iniciativa compreensível, mas que, na minha opinião, não substitui a experiência original. Afinal, que graça tem procurar um carimbo na tela de um celular? O encanto estava justamente em encontrá-lo nas montanhas, tocar o papel, sentir a pressão do carimbo e levar aquela marca para casa.

Paisagem montanhosa do Surenenpass, a 2.291 metros de altitude, durante a travessia da Via Alpina, na Suíça.
Surenenpass (2.291 m), um dos 14 passos alpinos da Via Alpina, na etapa entre Altdorf e Engelberg. A travessia exige uma longa subida até o passo, seguida de uma extensa descida em direção a Engelberg, em uma das etapas mais exigentes de todo o percurso.
Foto: Elias Luiz | Extremos

Por que acabar com os carimbos?

Essa é a pergunta que permanece sem resposta. O Switzerland Tourism confirma o encerramento do programa e a retirada das estações, mas não apresenta publicamente uma justificativa detalhada.

Encaminhei um e-mail ao Switzerland Tourism solicitando uma explicação oficial para a decisão de encerrar o programa.

A Via Alpina continuará lá, atravessando os Alpes suíços, mas perdeu algo que tornava a caminhada ainda mais interessante. Hoje, quando abro meu passaporte e observo os 38 carimbos, lembro-me das montanhas, dos vilarejos e das pequenas caixas metálicas que tantas vezes procurei ao longo da travessia. É uma lembrança que nenhum aplicativo conseguirá substituir.