Em abril de 2019, um grupo de amigos nos chamou para fazer uma “trilha bonita”. Foi essa a descrição que eu recebi, e foi a única.
Eu e o Pietro, meu noivo, tínhamos colocado cargueira nas costas uma vez na vida, em 2017. Estávamos entrando no mundo das montanhas, com vinte e poucos anos, e topamos sem pensar duas vezes. Não perguntamos quantos quilômetros eram, quanto tinha de ganho de elevação, se tinha água no caminho. A trilha bonita era o Capim Amarelo.
Fomos sem guia, sem treino e sem a menor ideia do que estávamos fazendo. Barraca pesada, saco de dormir volumoso, nenhuma proteção contra o sol. Levamos quase sete horas só até a base. Passamos muito frio, eu queimei o corpo inteiro de sol e a subida não acabava nunca. Na descida, a água acabou. Eu chorei.
Voltei de lá dizendo que jamais subiria aquela montanha de novo, e repeti isso por anos. Virou piada interna do nosso grupo. Bastava alguém falar “Capim Amarelo” ou “Serra Fina” numa conversa que eu já dava risada e as lembranças voltavam.
Sete anos depois, o Pedro Aurélio e a Brenda, um casal de amigos nossos, conseguiram marcar férias na semana do meu aniversário e nos chamaram para fazer a travessia inteira.
Eu ri. O Pietro topou na hora.
Ele nunca teve trauma nenhum. Sofreu bastante em 2019 também, mas saiu de lá querendo voltar, e completar a Serra Fina virou um sonho desde então. A piada dele era essa: “vir fazer é um sonho, sair bem dela acaba virando outro”. O meu problema era outro, porque a travessia começa exatamente onde a minha história com aquela serra tinha parado. Para chegar em qualquer um dos outros cumes, eu ia ter que subir o Capim Amarelo de novo, dessa vez com quatro dias de comida nas costas em vez de um.
As coisas foram se encaixando
Marcar quatro dias seguidos com outras pessoas é mais difícil do que parece. Cada um depende de uma agenda diferente, e todas elas precisam coincidir na mesma semana: férias aprovadas de um lado, cliente e prazo do outro, e no meio disso a época certa da montanha. Quando a janela do Aurélio e da Brenda caiu no fim de julho, caiu no auge da temporada de seca, que é a melhor época para a Serra Fina.
Aí começou a ficar estranho de tão certo. Temos um grande amigo que é guia da Entre Picos, o João Pedro, o Pig, e ele estava com a mesma semana livre. O desfalque foi a Mary, namorada dele, que esteve com a gente na Chapada Diamantina, nos Lençóis Maranhenses e na Serra dos Órgãos, mas dessa vez não conseguiu ir. A maioria das guiadas da empresa é em fim de semana, e a nossa janela começava numa terça e terminava numa sexta. O ingresso da Serra Fina também é mais barato durante a semana. Amigos com férias marcadas, guia disponível, seca, meio de semana e o meu aniversário no meio. Era destino? Não sei. Mas não ia aparecer de novo tão cedo.
Mesmo assim, fomos com medo. O Pietro tinha quebrado o pé em janeiro daquele mesmo ano, seis meses antes da travessia, e tínhamos voltado do Japão em maio, no meio de um projeto grande do nosso blog. Quatro dias fora, naquele momento, não era pouca coisa.
O que contava a favor era o preparo e o upgrade dos equipamentos. De 2019 para cá a montanha virou parte da nossa vida: fizemos a travessia da Serra dos Órgãos, a da Juatinga, os Lençóis Maranhenses, a Chapada Diamantina, subimos o Monte Roraima, o Marins várias vezes, o Itaguaré, o Itatiaia e as Agulhas Negras, e, fora do Brasil, o Fitz Roy e a Laguna Torre, além de um monte de montanha aleatória em lugar aleatório. Boa parte dessas foi com o próprio Pig, e registramos tudo em vídeo. Foi lá no Roraima, inclusive, que o Pietro me pediu em casamento, e isso está na playlist da expedição. Depois que voltamos da Ásia estávamos treinando bastante, e a conta que eu fazia na cabeça era simples: se em 2019 eu subi aquilo sem nenhum preparo e com equipamento errado, agora, treinada, com sete anos de montanha nas pernas e com equipamento decente, ia dar conta.
Falei que ia.
A véspera
No dia marcado, pegamos umas cinco ou seis horas de estrada até Itamonte e nos hospedamos no Hostel Picus, onde o João Pedro mora.
À noite, arrumamos as mochilas de novo. Já tínhamos arrumado tudo em casa, mas vale sempre deixar o guia olhar. Foi por causa dele que levamos mais roupa de frio do que tínhamos separado, e foi por causa dele também que ficou um monte de coisa inútil para trás. Depois dividimos entre as mochilas a comida que ele tinha comprado no mercado para os cafés da manhã.
Dormimos com o plano de acordar cedo, tomar café no hostel e sair direto para o começo da travessia.
Quartzito e Capim Amarelo
Depois do café, colocamos as mochilas no carro e pegamos mais uma hora de transfer de Itamonte até a entrada da Serra Fina. Fomos em dois carros.
A trilha antigamente começava na Toca do Lobo. Hoje a portaria está uns dois quilômetros antes, acho que por causa das estradas de acesso. Ou seja, antes mesmo de começar, já tínhamos dois quilômetros a mais do que tivemos em 2019. Na portaria nova assinamos um termo de responsabilidade, nos despedimos dos dois motoristas e começamos a andar.
Passamos pelo riozinho da Toca do Lobo antiga e aí começou a subida. O primeiro dia é basicamente isso, subida. Paramos pouquíssimas vezes, o suficiente para comer uma paçoquinha em pé, e só sentamos de verdade no pé do Quartzito, para comer o lanche que tínhamos montado na noite anterior, pão de forma com salame e queijo. Comemos mais embaixo, na sombra, porque no Quartzito o sol estava aberto e não tem onde se esconder.
Subimos o Quartzito, 2.013 metros, e de lá já dá para ver o Passo dos Anjos, a linha de crista que leva até o Capim Amarelo. O Pietro já amava atividade ao ar livre muito antes disso, cresceu vendo Bear Grylls e Les Stroud na Discovery (critiquem o quanto quiserem), mas naquela época tinha outros hobbies dividindo espaço. Foi o Passo dos Anjos, em 2019, que jogou ele de vez para o lado da montanha. É o tipo de cena que não dá para descrever direito, e que foto e vídeo não alcançam: se até em vídeo fica bonito, imagina estar de pé ali. É um privilégio poder contemplar um lugar desses. Quando passamos, tinha um mar de nuvens sinistro do lado que dá para o Vale do Paraíba. Tiramos foto e começamos a subida interminável até a base do Capim.
Foi ali que eu lembrei exatamente por que tinha traumatizado. Mas, para minha surpresa, subimos bem. Eu estava cansada de subir, e não é que não doeu, só que com uma mochila melhor, com peso bem distribuído e dois bastões, aquilo virou outra montanha. Levamos quase duas horas a menos do que em 2019 e chegamos inteiros.
A diferença maior veio na decisão seguinte. Em 2019 paramos na base do Capim Amarelo e só atacamos o cume na manhã seguinte. Dessa vez paramos na base só para comer e subimos direto. O ataque ao cume é por dentro da mata, quase uma escalaminhada, com umas pirambeiras no meio, mas é rápido. Ficamos um tempo lá em cima, a 2.391 metros, e assinamos o livro de cume.
Depois foram quase duas horas de descida até o Maracanã, e foi uma descida terrível. Dali para frente era tudo novo para nós, porque em 2019 a nossa história com aquela serra tinha acabado no Capim Amarelo. Foi ali que bateu o frio na barriga de verdade, e ao mesmo tempo estávamos extasiados por ter conquistado aquela montanha depois de tudo o que passamos anos atrás. Acampamos lá sozinhos, porque a única outra turma que estava fazendo a travessia naqueles dias decidiu dormir no cume do Capim.
O João Pedro e o Aurélio foram buscar água no Maracanãzinho, um camping uns quinze minutos à frente, para cozinharmos e sairmos abastecidos no dia seguinte. Eu e o Pietro chegamos bem cansados e demos umas piscadas dentro da barraca enquanto alongávamos as costas. Quando eles voltaram, o Pig fez a janta: carne moída com polenta. Foi surreal comer aquilo num lugar tão inóspito.
Foi quando apareceu o primeiro problema da viagem. A barraca de um dos integrantes do grupo deu defeito, e o João Pedro emprestou a dele e dormiu “de bivaque” ali mesmo. Deu sorte de não ter feito frio nem umidade naquela noite.
É o tipo de coisa que resolve a viagem ou acaba com ela, e resolveu porque tinha um guia junto e uma galera de bom astral.
E como era o meu aniversário, depois do jantar apareceu um bolinho. A ideia tinha sido do João Pedro, e quem carregou o dia inteiro foi a Brenda, para comemorarmos essa conquista. Que presente ter conseguido isso depois de sete anos!
Deitei na barraca naquela noite com uma constatação simples. Eu tinha vencido um trauma de sete anos exatamente no dia do meu aniversário. Se eu tinha conseguido aquilo, daria conta de qualquer coisa dali para frente. E a travessia ainda estava no começo.
Melano, Rio Claro e a Pedra da Mina
Acordamos no Maracanã e foi ali que eu entendi, na prática, o que é usar um shit tube. Desde 2019 já tínhamos feito outras travessias e outras montanhas, mas nunca tinha precisado usar. Até no Monte Roraima, que foi a nossa expedição mais longa, o esquema é outro: os carregadores levam tudo, tudo mesmo, incluindo uma estrutura de banheiro portátil. Na Serra Fina não tem banheiro e não se enterra nada, porque o solo é raso, é área protegida, e o que sai de você desce junto com você dentro de um cano de PVC vedado.
O Pig fez um café da manhã muito bom, teve até omelete, e partimos para a Pedra da Mina.
O dia começa com uma subida forte por dentro da mata, para sair do vale onde fica o Maracanã. Passamos pelo Maracanãzinho e, poucos minutos depois, já estávamos fora da mata, vendo a cabeça do Capim Amarelo ficar para trás. Foi estranho, uma perspectiva muito diferente: sete anos olhando aquela montanha como se fosse o fim da linha, e de repente era ela que estava ficando para trás. Dali em diante é crista. Andamos bastante em cima dela, já com a Pedra da Mina à vista lá longe, até chegar no Melano, a 2.550 metros. Almoçamos o mesmo pão com salame e queijo do primeiro dia.
Do Melano, descemos para o Vale do Rio Claro. É uma pernada boa até lá embaixo. No caminho passa um mirante da Cachoeira Vermelha, que quando fomos estava bem seca. Lá no fundo do vale, no Rio Claro, fica um dos poucos pontos de água da travessia, e é aí que está o problema do dia. O próximo ponto de água só aparece depois da Pedra da Mina. Ou seja, você precisa encher para as próximas 24 horas e subir carregando tudo isso a quarta montanha mais alta do Brasil.
Descansamos no vale, que tem uma vista linda, comemos e enchemos as garrafas. Pelo menos cinco litros cada um.
Só chegar até o pé da Pedra da Mina já foi uma subida doida e dolorida por causa do peso. Minha mochila devia estar com uns 20 quilos, e num certo ponto eu estava com falta de ar, e o Pietro tirou uma garrafa da minha mochila e levou na dele.
A subida em si levou uma hora e meia. É bem íngreme, e fomos devagar por causa da carga. Tomamos gel de carboidrato antes e isso fez a gente subir sem parar de verdade. Parávamos poucos segundos, só para respirar e beber água. Em algum momento apareceu um morrinho que juramos ser o cume. Não era. Cume falso. Uns quinze minutos depois deu para ver o João Pedro lá em cima comemorando que estávamos chegando.
Tinha uma pessoa do outro grupo logo atrás de nós e, a essa altura, bateu aquele egozinho bobo de não querer ser ultrapassada nos últimos metros. É bobagem, eu sei, mas ajudou: queríamos chegar junto com o nosso grupo, e aceleramos.
Quando chegamos, o Pig veio abraçar um por um repetindo a mesma frase: teto da Mantiqueira. É assim que chamam a Pedra da Mina, 2.798 metros, o ponto mais alto de toda a serra. Depois de sete anos de história com aquela montanha, ouvir isso lá de cima foi outra coisa.
Deu tempo de tirar foto e montar a barraca. Estávamos só risada e diversão até que o Pietro e o Pig começaram a estranhar os arredores, porque tinha chuva aparecendo em algumas montanhas do horizonte. Foi quando uma nuvem sinistra veio sorrateira da direção do Capim Amarelo, muito rápida, empurrando um vento pesado. Os sorrisos fecharam na hora e deu para entender que o negócio tinha ficado sério e que precisávamos agir: ia rolar pipoca e café. Recolhemos tudo às pressas e nos abrigamos. Do teto da Mantiqueira não enxergávamos mais nada. No fim deu só umas gotejadas, a pipoca rolou e o susto passou.
O jantar foi comida liofilizada, que estávamos comendo pela primeira vez. Achamos interessante. É leve, ocupa pouco espaço na mochila e resolve o jantar rápido, que é exatamente o que você quer no fim de um dia desses.
Naquela noite o João Pedro não conseguiu bivacar, com medo de o tempo virar durante a madrugada, e dormiu com a gente, na nossa barraca de três pessoas. Somos amigos há mais de doze anos, então não foi problema nenhum.
Toda noite eu deitava a cabeça na barraca e pensava a mesma coisa: venci mais um dia, amanhã tem mais.
Ruah, Cupim de Boi e Três Estados
Acordamos com o dia limpo, o contrário da noite anterior. Deu para tirar as fotos que a nuvem tinha engolido e tomar café com calma. Estávamos só entre amigos próximos, então o nosso ritmo para sair de manhã era bem devagar: curtíamos bastante, mas tínhamos que ganhar terreno durante o dia. Descemos para o Vale do Ruah, que até ali foi a vista mais bonita da travessia.
Uma coisa mudou nesse trecho e vale registrar. Antigamente a trilha cortava o vale por dentro, numa retinha, bem menos exigente e mais tranquila. Hoje não passa mais. O Ruah é berço da nascente do Rio Verde, e o traçado foi desviado justamente para preservar os mananciais. Quem faz a travessia hoje contorna o vale por fora: margeia o Pico do Avião quase inteiro e ainda sobe o Pico do Contorno, que é uma paulada para cima.
Passamos meio que pelo lado do Avião, subindo pelas laterais, sem ir até o cume. E foi na descida dele que eu torci o pé e ralei os dois joelhos. O João Pedro fez o curativo ali mesmo e seguimos.
Depois subimos o Pico do Contorno, que tem um nome bem sugestivo, porque é exatamente o que estávamos fazendo, contornando o vale. Na descida dele chegamos no rio do Vale do Ruah e pegamos água. E aqui vale o aviso: esse é o último ponto de água da travessia até o fim do dia seguinte. Mesmo sabendo disso, e mesmo pegando uns seis litros por pessoa, faltou água no dia seguinte, mas isso é daqui a pouco. Dali subimos para o Pico da Brecha, que na prática são uns três morrinhos de sobe e desce, e subimos pesado de novo, com a água toda que tínhamos acabado de encher. Depois seguimos para o Cupim de Boi.
A subida do Cupim de Boi é intensa. É um pico que vínhamos vendo desde o Pico do Avião, e quando você chega em cima percebe que ele é um pouco exposto, porque você acaba numa ponta. E é dessa ponta, a 2.543 metros, que você fica de cara com o Parque Nacional do Itatiaia, com o Agulhas Negras e as Prateleiras gigantes bem na sua frente, do outro lado do vale.
Chegamos ali às quatro da tarde. O desvio da manhã tinha custado umas duas horas a mais do que o normal, e a essa altura já era tarde. Pensamos em dormir num camping antes do planejado, mas decidimos acelerar, porque parar antes deixaria o dia seguinte puxadíssimo.
Descemos o Cupim de Boi, passamos pela florestinha onde fica o camping do Bambuzinho e passamos reto. Dali tocamos para cima o Pico dos Três Estados, que é uma subida quase tão intensa quanto a da Pedra da Mina. Chegamos antes de anoitecer.
O cume dos Três Estados, 2.665 metros, tem bem menos espaço para barraca do que o da Pedra da Mina. A nossa ficou meio apertada, montada em cima de uma pedra, e o João Pedro teve que bivacar de novo. Jantamos liofilizado outra vez.
O cansaço era tanto que nem assinamos o livro de cume. Deixamos para a manhã seguinte.
Alto dos Ivos e a descida
Acordamos no cume do Pico dos Três Estados, o décimo ponto mais alto do Brasil, com o sol nascendo por cima das Agulhas Negras. Foi surreal.
Enrolamos um pouco para sair naquela manhã. Estávamos cansados, tomamos café com calma, assinamos o livro de cume que tinha ficado da noite anterior e tiramos foto. Desmontamos as barracas e começamos a descer.
A descida do cume é aquela chatice de pedrinha solta. Como eu já tinha caído no dia anterior, desci bem devagar. Depois seguimos pela crista de frente para o Parque Nacional do Itatiaia e, passado um morrinho no meio do caminho, chegou o último cume da travessia, o Alto dos Ivos, a 2.521 metros. É uma subida intensa, mas nada monstruosa perto de tudo o que tínhamos subido nos quatro dias. Descansamos, comemos e seguimos descendo.
Mais pedrinha solta, mais crista, até chegar numa bifurcação.
E é aqui que a travessia mudou. Fecharam recentemente uma parte da trilha, e ouvimos dizer que aquele trecho antigo era tranquilo até a Nativa Serra Fina, a propriedade que sempre foi o ponto final da travessia do lado de Itamonte. Com o desvio, o caminho aumentou. Foram de duas a três horas dentro da floresta, com muito barranco e uma descida íngreme, terrível.
O sol estava forte, fazia muito calor e a água já tinha acabado. Cada um tinha guardado um restinho, e todo mundo entrou no que depois batizamos de modo psicopata.
Aquele trecho foi um terror psicológico. A floresta era meio densa, ninguém falava com ninguém, cada um descia olhando o próprio pé, e a única coisa na cabeça era chegar. Eu comecei meio que a alucinar e passei o trecho inteiro achando que era só eu sofrendo daquele jeito. Só fomos descobrir depois, já lá embaixo, que todo mundo estava esquisito naquele pedaço. Sete anos antes, na minha primeira vez naquela serra, eu tinha descido o Capim Amarelo sem água e chorado. No último dia da travessia, eu estava descendo sem água de novo. E chorei de novo.
Até que apareceu um riozinho, que passa justamente nesse trecho novo. Paramos ali, comemos e enchemos tudo. Deu um up na moral de todo mundo. Comemos goiabada com queijo, e aquilo ali deu um grau maravilhoso.
Subimos mais um pouco e chegamos numa estrada. Foi só felicidade, porque ali passava carro. Depois de quatro dias em cima da crista, ver estrada é ver a civilização de volta.
Dali foram mais quatro quilômetros a pé. Pelo caminho novo, a travessia termina no Instituto Alto-Montana da Serra Fina, que fica bem em frente ao Hostel Picus, o mesmo onde tínhamos dormido na véspera e onde íamos dormir naquela noite. Nossas coisas já estavam lá, numa mochila que tínhamos deixado. Não precisamos de transfer, não precisamos combinar nada. Terminamos a travessia na porta de onde ela tinha começado.
O Pietro chegou muito emocionado. O pé que ele quebrou seis meses antes doeu durante a travessia inteira, só que ele não ficava comentando. No último dia doeu de verdade, e ele terminou se arrastando: passou a pisar errado para distribuir o peso pelos cantos do pé, e isso foi criando bolha em lugar que não é normal criar bolha. Por sorte, só apareceu na reta final.
Tomei o melhor banho da minha vida. Eu e o Pietro ficamos em dois boxes separados por uma parede, conversando, e a ficha não caía do que tínhamos acabado de fazer.
Foi a superação de um trauma e um sentimento de conquista muito grande. São desafios bem diferentes, mas acho que entendi o que as pessoas sentem quando correm maratona.
Não é para qualquer um
E não é frase de efeito. Em dezembro de 2025 tínhamos feito nove dias no Monte Roraima, então já estávamos treinados para travessia longa, sem internet, com perrengue e sem banho. Foi esse preparo que fez a diferença na Serra Fina, muito mais do que qualquer disposição.
Uma coisa, aliás, me surpreendeu. A Serra Fina pega sinal nos cumes. Nessa parte foi até tranquilo, bem diferente do Roraima.
O resto não tem atalho. Se você nunca dormiu quatro noites seguidas numa barraca, carregando a própria água, o próprio lixo e os próprios dejetos, comece por outra travessia e volte para essa depois.
E tem uma coisa que pesa tanto quanto perna: na Serra Fina não tem saída. As rotas de evacuação são mínimas e, depois da Pedra da Mina, onde fica a saída pela Fazenda Paiolinho, em Passa Quatro, você basicamente tem que ir até o fim, e ainda dizem que descer o Paiolinho é um purgatório à parte. Um acidente ali coloca o grupo inteiro em risco. Precisa de psicológico forte e de foco o tempo todo.
Sobre equipamento, comida, o que coube em cada mochila e os números da travessia — quilometragem, altitude de cada cume e ganho de elevação —, eu montei tudo em detalhe no meu Instagram. Aqui não caberia sem virar outro texto. Os roteiros longos, com custo e logística de cada viagem, ficam sempre nas nossas viagens, no Moxileira.
Eu fiz uma coisa que não é qualquer um que faz. Tive coragem, fui lá e fiz, mesmo depois de anos falando que não faria. E esse sentimento de coragem e superação é melhor do que qualquer vista que eu vi lá em cima.
Bia e Pietro escrevem sobre outras viagens pelo mundo no Moxileira, blog de roteiros completos e econômicos.