Raphael Garcia conversa com Amyr Klink após chegar a Salvador no barco a remo Sater
NAVEGAÇÃO

Raphael Garcia repete a histórica travessia de Amyr Klink pelo Atlântico Sul

Sozinho e a remo, o brasileiro cruzou o oceano entre a Namíbia e Salvador em 136 dias.

Salvador, BA • © Uiler Costa-Santos

No livro 14 — Uma Vida nos Tectos do Mundo, o alpinista português João Garcia faz uma interessante reflexão sobre aqueles que vêm antes de nós. Ao falar de Reinhold Messner, primeiro homem a escalar as 14 montanhas acima dos 8.000 metros sem oxigênio suplementar, Garcia escreve:

“Se escalei os 14 ‘8000’ sem oxigênio, foi porque, antes de mim, um senhor chamado Reinhold Messner já o tinha feito.”

João Garcia

Saber que Messner havia conseguido não tornou as montanhas mais baixas, nem diminuiu o frio, a altitude ou os riscos que João Garcia teria de enfrentar. Mas havia algo importante: alguém já havia mostrado que aquilo era possível.

Mais de quatro décadas atrás, Amyr Klink fez o mesmo no oceano.

Em 1984, aos 28 anos, partiu da costa africana sozinho em um pequeno barco a remo para atravessar o Atlântico Sul. Cem dias depois, chegou ao litoral da Bahia e entrou para a história da navegação brasileira.

Sua aventura se transformou no livro Cem Dias Entre Céu e Mar e, assim como Messner havia feito nas montanhas, Amyr deixou para as gerações seguintes mais do que um feito: deixou a certeza de que era possível.

Raphael Garcia foi um dos que receberam essa mensagem.

Quarenta e dois anos depois, aos 34 anos, o brasileiro partiu de Lüderitz, na Namíbia, a bordo do Sater, para refazer sozinho e a remo a histórica travessia de Amyr Klink.

Foram 136 dias no Atlântico.

E quando finalmente chegou a Salvador, no dia 22 de agosto, encontrou no píer justamente o homem que, décadas antes, havia mostrado que aquela travessia era possível.

Amyr Klink estava lá para recebê-lo.

Raphael Garcia conversa com Amyr Klink no píer, ao lado do barco a remo Sater
Raphael Garcia conversa com Amyr Klink ainda a bordo do Sater, após chegar a Salvador.© Uiler Costa-Santos
136 dias no oceano

Da Namíbia ao Brasil

Raphael deixou Lüderitz no dia 8 de abril. À sua frente estava o Atlântico Sul e uma travessia que havia sido realizada pela primeira vez por Amyr Klink em 1984.

A bordo do Sater, enfrentou sozinho mais de quatro meses de navegação até alcançar a costa brasileira. Durante a jornada, Amyr acompanhou seu avanço por meio do rastreamento por satélite do barco.

Segundo Klink, Raphael tornou-se o primeiro navegador a repetir sozinho e a remo a travessia que ele havia realizado 42 anos antes.

As duas viagens, entretanto, não foram iguais. E nem poderiam ser.

Mudaram os barcos, os equipamentos, a tecnologia disponível para comunicação e navegação e, principalmente, o conhecimento acumulado ao longo dessas quatro décadas. O Atlântico, porém, continuava ali, impondo ao navegador dias e noites de isolamento, esforço físico, incertezas e uma rotina determinada pelo mar.

Quando finalmente alcançou Salvador, depois de 136 dias, Raphael ainda sentia no corpo o peso da travessia.

“É pegado, hein?! Eu me perguntava: ‘Por que ele não fez mais viagens como essa?’. Agora eu sei a resposta.”

Raphael Garcia

Mas o encontro tinha um significado muito maior.

“Indescritível ser recebido por quem me inspirou a realizar essa travessia”, disse Raphael.

Para Amyr, assistir à chegada de outro brasileiro seguindo a rota que ele havia aberto décadas antes também trouxe uma dimensão diferente à sua própria aventura.

“Fico feliz em saber que o registro de uma história, como Cem Dias Entre Céu e Mar, inspirou outras histórias como a do Raphael”, escreveu o navegador.

Amyr Klink e Raphael Garcia conversam no píer em Salvador, com o mar ao fundo
Amyr Klink e Raphael Garcia no reencontro entre a travessia de 1984 e a jornada concluída 42 anos depois.© Uiler Costa-Santos
Raphael Garcia sentado no barco a remo Sater após chegar a Salvador
Raphael Garcia no Sater, após completar 136 dias de travessia pelo Atlântico Sul.
© Uiler Costa-Santos
Amyr Klink e Raphael Garcia em pé diante do barco a remo Sater em Salvador
Amyr Klink e Raphael Garcia diante do Sater, em Salvador.
© Uiler Costa-Santos
Cem dias entre céu e mar

A travessia que virou livro

Quando Amyr Klink deixou Lüderitz, em 1984, tinha 28 anos e carregava consigo um projeto considerado por muitos improvável: atravessar sozinho o Atlântico Sul em um barco a remo.

Foram cerca de 6.500 quilômetros e 100 dias no mar até chegar à Praia da Espera, no litoral da Bahia.

A experiência seria narrada em Cem Dias Entre Céu e Mar, publicado em 1985. O livro se tornaria um clássico brasileiro da literatura de aventura e apresentaria a gerações de leitores não apenas uma extraordinária travessia oceânica, mas também a maneira particular de Amyr enxergar o risco, o planejamento, o medo e a realização de um projeto aparentemente impossível.

Raphael Garcia foi um desses leitores.

Décadas depois, aquela história saiu das páginas do livro e voltou para o Atlântico.

Desta vez, com outro homem nos remos.

Raphael Garcia em um barco a remo oceânico atracado ao píer
Raphael Garcia junto à embarcação preparada para enfrentar uma travessia oceânica.© Uiler Costa-Santos
O legado continua

Do livro para o cinema

A chegada de Raphael ao Brasil acontece também em um momento especial para a história de Cem Dias Entre Céu e Mar.

A aventura de Amyr Klink chegará aos cinemas em 100 Dias, dirigido pelo cineasta brasileiro Carlos Saldanha. Filipe Bragança interpreta o jovem Amyr na adaptação da travessia, com estreia prevista para 29 de outubro de 2026.

Mais de quatro décadas se passaram desde que Amyr colocou seu pequeno barco no mar, na costa africana.

Naquele momento, ele não poderia saber até onde aquela viagem chegaria.

Primeiro veio a travessia. Depois, o livro. Décadas mais tarde, o cinema.

E agora Raphael Garcia.

Talvez seja justamente aí que a reflexão de João Garcia sobre Messner encontre seu sentido também no oceano.

Os grandes feitos não tornam mais fáceis os desafios daqueles que vêm depois. Eles apenas mostram que existe um caminho.

Em 1984, Amyr Klink mostrou que era possível.

Quarenta e dois anos depois, Raphael Garcia resolveu remar por ele.