Manhã ensolarada entre araucárias no Grutão Ecoparque, em Caxias do Sul
FESTIVAL

3º Caxias Mountain Festival

Um festival que se consolida como referência da cultura de montanha no Sul do Brasil, reunindo aventura, experiências, conhecimento e pessoas apaixonadas pelo universo outdoor.

Grutão Ecoparque • Caxias do Sul, RS • © Elias Luiz / Extremos

Eram 6h30 da manhã quando o alarme do celular finalmente tocou. Abri a porta da barraca e, entre araucárias e a vegetação nativa da Serra Gaúcha, vi o sol iluminar o céu azul e as barracas da área de camping. Escutei movimento na barraca ao lado, onde estava um personagem da aventura brasileira acostumado a passar os verões na Antártica: Nelson Barretta.

Mirian Constante, que eu já conhecia do festival do ano passado, descia pelo camping vestindo seu macacão azul de resgate e carregando a mochila de primeiros socorros. Cumprimentou-me e seguiu em direção ao barracão, onde ministraria a palestra Primeiros Socorros em Área Remota.

No estacionamento, pelo menos cinco carros exibiam barracas Thule no teto. Havia também uma Toyota equipada com camper, soluções essas que oferecem mais praticidade, conforto e liberdade de deslocamento aos viajantes.

Famílias reunidas em volta das mesas do camping preparavam o café da manhã. O dia ganhava vida no Grutão Ecoparque, localizado a cerca de 23 quilômetros do centro de Caxias do Sul.

Era bom sentir o cheiro do campo, conhecer novas pessoas e rever tantas outras apaixonadas por atividades na natureza. Precisamos muito disso. Algumas famílias viviam esse espírito com os filhos no acampamento: ora acompanhavam as palestras, ora rolavam pela grama durante as brincadeiras.

Barracas de teto montadas sobre veículos na área de camping do Caxias Mountain Festival
Barraca de teto da Thule e veículos preparados para camping reforçam o espírito overland do festival.© Elias Luiz / Extremos
Mirian Constante mostra uma bolsa de primeiros socorros durante a palestra
Mirian Constante apresenta equipamentos e procedimentos de primeiros socorros para áreas remotas.
© Lucas Amaral
Participantes acompanham uma demonstração de primeiros socorros em área remota
Participantes acompanham a demonstração prática de primeiros socorros no Grutão Ecoparque.
© Lucas Amaral

Marcelo Burgugi apresentou novos produtos da Galápagos Outdoor; Jeff Santos falou sobre suas travessias de longa distância nos Estados Unidos; Tito Chagas ministrou a oficina de Fogo Primitivo e encantou crianças e adultos; eu falei sobre o sonho de muitos hikers, a caminhada ao Campo Base do Everest, tema de um dos meus livros; Nelson Barretta nos apresentou uma Antártica mais real, diferente da que vemos nos documentários, fruto de 30 anos de experiência no continente gelado; e Priante falou sobre os dez cumes do Brasil.

Em meio a tudo isso, aconteceram atividades de rapel e escalada, falsa baiana, slackline e caminhadas por trilhas e cachoeiras, além da exibição do filme sobre a conquista da Face Norte do Everest por Karina Oliani.

Marcelo apresenta uma jaqueta da Galápagos Outdoor ao público do festival
Marcelo apresenta ao público novos produtos da Galápagos Outdoor.
© Lucas Amaral
Jeff Santos fala ao público sobre suas travessias de longa distância nos Estados Unidos
Jeff Santos compartilha suas experiências na Triple Crown.
© Lucas Amaral
Participantes produzem fogo por fricção durante a oficina de Tito Chagas
Luis e Priante praticam técnicas na oficina de Fogo Primitivo conduzida por Tito Chagas.
© Lucas Amaral
Helen Hertzog fala ao microfone durante o Caxias Mountain Festival
Helen Hertzog, uma das idealizadoras do Caxias Mountain Festival, fala ao público.
© Lucas Amaral
Leonardo e Alejandro ajudam Rafael e Dante a se equilibrar em uma rede suspensa entre árvores
Leonardo, 59, e Alejandro ajudam Rafael, 5, e Dante, 6 a se equilibrar e atravessar uma rede suspensa entre as árvores.© Elias Luiz / Extremos

Sob o luar da noite de sábado, em volta de uma fogueira que ardia intensamente e ajudava a nos aquecer do frio da serra, a cantoria seguiu até altas horas. Comandada por Silveira e outros participantes, passou pela música popular brasileira, por canções tradicionais gaúchas e pelo rock.

Dienifer Lise nos impressionou e deixou todos em silêncio ao declamar os versos da longa poesia “Quando a loucura vem matear comigo”, de Bianca Bergmann, que aqui abaixo deixo apenas um pequeno trecho: 


“Quando a solidão se achega e para na porta do rancho,
a tristeza por parceira puxa prosa com a saudade.
Acendo as brasas, queimando sonhos e planos.
Lágrimas buscam o rosto e os olhos negam abrigo.
Então, à beira do fogo, a ansiedade me faz um aceno...
E o rancho se faz pequeno quando a loucura vem matear comigo.

É noite de lua cheia!
E as mulheres que me habitam vão surgindo uma a uma...
Diante de um grande espelho, vejo todas as minhas faces;
algumas parecem belas, outras sequer me agradam.
Mas ninguém é feito apenas de beleza e qualidades.
Preciso entender a todas, pois todas elas ‘sou eu’...
e, para revelar um segredo meu, começo a roda de mate.”

Bianca Bergmann


Quem também deu um espetáculo foi a Cruz Vermelha, com uma demonstração de seus cães farejadores. Na simulação, um dos integrantes se escondeu na mata e acompanhamos o cão durante a busca. Foram necessários apenas cinco segundos para que ele identificasse o rastro e menos de três minutos para encontrar o “perdido”.

Integrante da Cruz Vermelha conduz um cão farejador durante uma busca simulada na mata
Na mata, um dos cães farejadores da Cruz Vermelha segue o rastro durante a simulação de busca.© Elias Luiz / Extremos
Nelson Barretta faz carinho em um cão farejador ao lado de uma integrante da Cruz Vermelha
Nelson Barretta conhece um dos cães farejadores apresentados pela Cruz Vermelha.© Elias Luiz / Extremos

Edino Consoni ficou incumbido da difícil arte de acalmar a fome de todos — e sabia fazer isso muito bem. Nosso cozinheiro preparou, em um tacho enorme, uma das melhores galinhadas que já comi: muito saborosa e com um arroz tão cremoso que parecia risoto. À noite, teve repeteco, com fatias de queijo por cima. No domingo, nos deliciamos com uma macarronada ao molho cremoso e coxinhas de frango assadas.

Edino Consoni prepara espetos durante o Caxias Mountain Festival
Edino Consoni prepara espetos para uma das refeições servidas aos participantes do festival.© Elias Luiz / Extremos

Foi muito bom rever Luis Fritsch, Preta, Priscila, Lucas, Paulo e tantos outros amigos que fiz nestes últimos anos no Sul.

Meus sinceros agradecimentos a Helen Hertzog e Marcos Consoni, sócios da conceituada loja de aventura Patos do Sul e idealizadores do Caxias Mountain Festival. São pessoas assim que ajudam a semear a cultura outdoor no Brasil. Precisamos de mais empresários espalhando boas-novas como essas.

Depoimentos

O festival por quem viveu

“Se eu soubesse que era assim, teria vindo antes, mesmo sem ter sido convidado. Dessa vez vim convidado e senti aquele espírito de montanha, aquela empolgação consistente, juvenil, de quando a gente conhece pela primeira vez, se apaixona pela primeira vez.

E aqui tem ingredientes que me atraem muito: a geografia, o clima e a cultura do Sul do país, que muito me agrada, muito me atrai.

O evento é tão acolhedor, as pessoas têm tanto interesse nos assuntos relacionados ao nosso tipo de montanhismo, que passaria despercebido qualquer outro tipo de contratempo.”

Nelson Barretta

“O Caxias Mountain Festival é um evento intimista, realizado em um local de beleza privilegiada e feito por gente apaixonada por atividades outdoor. Mas a melhor parte do evento é o público: pessoas de todas as idades, realmente interessadas, o que torna a troca de informações uma constante, seja durante as palestras ou fora delas. Me senti em uma grande família, onde público e palestrantes conversam, trocam experiências e aprendem o tempo todo.”

Jeff Santos

“Esse terceiro Caxias Mountain Festival eu vi mais amadurecido. A gente espaçou mais as palestras, demos mais tempo para as famílias conviverem e trouxemos bastante crianças. A gente está com essa esperança de tirá-las pelo menos alguns minutos da frente das telas.

Com certeza pensamos em continuar. Talvez a gente passe a realizar de dois em dois anos, que já era a ideia inicial.

Mas estou muito feliz. Só tenho que agradecer ao público que esteve aqui, aos patrocinadores e, especialmente, aos palestrantes que vieram nos prestigiar.”

Helen Hertzog

Na poltrona 10D do Airbus A320neo, durante o voo de volta de Caxias do Sul para Campinas, eu refletia sobre todas as experiências vividas nos últimos três dias: as conversas profundas, as risadas espalhafatosas e as novas amizades. Abri o zíper da minha mochila Thule AllTrail de 35 litros e, em meio ao fleece novo que ganhei da Helen, encontrei um pote de vidro que Marilise havia me dado: um doce de figada caseira. As lembranças e as experiências desse fim de semana durarão para sempre. A figada, porém, não vai durar uma semana.

Obrigado a todos pela companhia e até o próximo festival.