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Reinhold Messner diante de uma grande parede de gelo

Biografias Extremos · 001

Reinhold Messner

O maior alpinista de todos os tempos. Ele não apenas escalou as montanhas mais altas do planeta. Mudou para sempre a maneira de estar nelas.

Nascido em 1944Tirol do Sul, ItáliaAlpinista · Explorador · Autor
KEYSTONE • APA • Ehm Ian
14montanhas acima de 8.000 m
0uso de oxigênio suplementar
2.800km a pé na Antártica
50+livros publicados

O explorador de limites

- peso
+ liberdade

Para Messner, o valor da aventura não estava no recorde, mas no encontro sem atalhos entre a natureza humana e a montanha.

A carreira de Reinhold Messner redefiniu o montanhismo de alta altitude. No lugar de caravanas, quilômetros de cordas e uma infraestrutura que domesticava a montanha, ele escolheu velocidade, autonomia e exposição.

Nascido em 17 de setembro de 1944, em Bressanone, no Tirol do Sul, Messner cresceu entre as Dolomitas. Aos cinco anos já subia seu primeiro pico de 3.000 metros com o pai. Nos anos 1960, fez centenas de ascensões nos Alpes e transformou-se em um dos escaladores técnicos mais ousados da Europa.

O Himalaia ampliou a escala — e o preço. Em 1970, depois de abrir a imensa Face Rupal do Nanga Parbat com o irmão Günther, atravessou a montanha e sobreviveu à descida. Günther morreu, provavelmente atingido por uma avalanche. Reinhold voltou com graves congelamentos e perdeu sete dedos dos pés. A tragédia permaneceria como a fratura central de sua vida.

Ele seguiu adiante com uma ideia radical: uma grande montanha deveria ser escalada com o mínimo de meios, sem oxigênio suplementar e sem reduzir o risco a uma operação industrial. Do Everest aos polos, Messner passou a explorar menos a altitude que os limites da própria possibilidade humana.

A revolução Messner

Não foi apenas mais alto. Foi de outro jeito.

Seus feitos importam tanto pelos cumes quanto pelo método. Messner ajudou a transferir para as grandes altitudes a ética leve, rápida e autônoma do estilo alpino.

01

Everest sem oxigênio

Em 1978, com Peter Habeler, demonstrou que um ser humano podia alcançar 8.848 metros sem respirar oxigênio engarrafado.

02

Everest em solitário

Em 1980, subiu pela Face Norte, durante a monção, sem oxigênio, parceiro, cordas fixas ou apoio de altitude.

03

A coleção dos 14

Em 1986, tornou-se o primeiro a completar os 14 oitomil — todos escalados sem oxigênio suplementar.

04

O estilo acima de tudo

Seu legado tornou leveza, responsabilidade pessoal e poucos recursos uma referência ética do himalaísmo moderno.

Uma vida em ascensão

81 anos.
Um horizonte sem fim.

Acompanhe a corda: do primeiro pico nas Dolomitas à construção de um legado mundial. As idades indicam quantos anos Messner tinha — ou completou — em cada etapa.

Alta montanha Exploração Legado
19440 anos

Nasce entre montanhas

Reinhold Andreas Messner nasce em 17 de setembro, em Bressanone, no Tirol do Sul. Cresce no vale de Funes, diante das torres das Dolomitas.

19495 anos

O primeiro 3.000

Com o pai, sobe o Sass Rigais. A infância vira uma escola vertical; até 1964, acumularia cerca de 500 ascensões nos Alpes Orientais.

A origem
196520–21 anos

Diretíssima no Ortler

Abre uma nova linha na Face Norte do Ortler. É o começo público de uma geração disposta a escalar mais rápido e com menos meios.

1967–6922–25 anos

Os Alpes conhecem seu nome

Primeiras ascensões, invernais e solos em paredes como Agnér, Eiger, Marmolada, Civetta e Droites consolidam sua reputação técnica.

197025 anos

Nanga Parbat: glória e perda

Reinhold e Günther fazem a primeira ascensão da Face Rupal e atravessam o Nanga Parbat. Günther morre na descida pela Face Diamir; Reinhold sobrevive com severos congelamentos.

Primeira ascensão · 8.125 m
197227 anos

A Face Sul do Manaslu

Abre a Face Sul da oitava montanha mais alta do mundo e realiza a primeira ascensão do Manaslu sem oxigênio suplementar.

197429–30 anos

Nova rota no Aconcágua

Com Peter Habeler, abre uma linha na imensa Face Sul do teto das Américas, levando sua abordagem rápida para os Andes.

197530 anos

O estilo alpino chega aos oitomil

Messner e Habeler sobem o Gasherbrum I pela Face Noroeste sem oxigênio, cordas fixas ou campos abastecidos — o primeiro oitomil escalado em estilo alpino.

Uma nova filosofia
197833 anos

Duas barreiras caem

Em maio, alcança o Everest com Peter Habeler sem oxigênio suplementar, algo considerado impossível. Em agosto, faz no Nanga Parbat a primeira ascensão solo integral de um oitomil desde o campo-base.

Duplo marco histórico
197934 anos

K2 sem oxigênio

Chega ao cume do K2 com Michael Dacher, sem oxigênio suplementar. No mesmo ano, participa de uma operação de resgate no Ama Dablam.

198035 anos

Sozinho no Everest

Pela vertente norte e durante a monção, escala o Everest completamente só e sem oxigênio suplementar. Abre uma variante pela Face Norte e alcança o cume em 20 de agosto.

O impossível individual
198136 anos

Shishapangma

Sobe o único oitomil inteiramente situado no Tibete e abre, com Friedl Mutschlechner, uma nova linha no cume central do Chamlang.

198237 anos

Três oitomil em uma temporada

Escala Kangchenjunga por nova rota na Face Norte, Gasherbrum II e Broad Peak. É o primeiro a completar três montanhas de 8.000 metros em uma única temporada.

198338 anos

Cho Oyu

Alcança o sexto pico mais alto da Terra pela Face Sudoeste, em estilo alpino, com Hans Kammerlander e Michael Dacher.

198439 anos

Dois gigantes, uma travessia

Com Hans Kammerlander, liga Gasherbrum II e Gasherbrum I sem retornar ao campo-base — a primeira travessia encadeada de dois oitomil.

Primeira mundial
198540 anos

Annapurna e Dhaulagiri

Abre a Face Noroeste do Annapurna e escala o Dhaulagiri pelo Esporão Nordeste, mantendo sua busca pela coleção completa.

198642 anos

Os 14 oitomil

Depois do Makalu, chega ao Lhotse em 16 de outubro. Torna-se a primeira pessoa a completar as 14 montanhas acima de 8.000 metros — sem oxigênio suplementar.

A coleção completa
1989–9045 anos

Antártica pelo Polo Sul

Com Arved Fuchs, atravessa o continente a pé e com esquis: cerca de 2.800 quilômetros, sem veículos motorizados ou cães de trenó.

Um novo horizonte
199348–49 anos

Groenlândia a pé

Faz uma travessia diagonal de aproximadamente 2.200 quilômetros. No mesmo ano, inaugura o Alpine Curiosa Museum.

199550 anos

Nasce o projeto dos museus

Abre o MMM Juval. A montanha deixa de ser apenas cenário de expedições e passa a ser preservada como cultura, memória e experiência.

1999–0454–59 anos

Da montanha ao Parlamento

Representa a Itália no Parlamento Europeu pelo grupo Verdes/Aliança Livre Europeia, atuando em temas de território, transporte, turismo e relações exteriores.

200459–60 anos

Dois mil quilômetros no Gobi

Atravessa longitudinalmente o deserto da Mongólia a pé. Também inaugura o MMM Ortles, dedicado ao mundo do gelo.

201065 anos

Piolet d'Or Carreira

Recebe a mais importante distinção honorária do alpinismo por uma obra que transformou a prática e a imaginação das grandes montanhas.

2015–1870–74 anos

Museus, filmes e reconhecimento

Abre o MMM Corones, estreia como diretor de cinema com Still Alive e recebe, com Krzysztof Wielicki, o Prêmio Princesa das Astúrias dos Esportes.

202681 anos

A montanha como narrativa

Aos 81, segue criando filmes, escrevendo e expandindo espaços dedicados à cultura alpina. Em 2025, estreou o filme K2 — The Big Fight e recebe o European Culture Award.

O legado continua

Para ir além dos feitos

Três histórias que
mudaram tudo.

Os recordes cabem em uma linha. O que aconteceu para alcançá-los, não. Abra cada capítulo e entre nas expedições que definiram Reinhold Messner.

011970 · Nanga ParbatA montanha que levou seu irmãoA primeira subida da Face Rupal terminou numa travessia desesperada, uma morte e uma controvérsia que durou 35 anos.

Em junho de 1970, Reinhold e Günther Messner chegaram ao Nanga Parbat como dois jovens prodígios das Dolomitas. Dias depois, somente Reinhold saiu da montanha. A escalada que deveria apresentá-los ao Himalaia se tornaria o centro doloroso de toda a sua vida.

A parede impossível

A expedição alemã, liderada por Karl Maria Herrligkoffer, tinha como objetivo a Face Rupal. Da base ao cume, ela se ergue por cerca de 4.500 metros — uma muralha de gelo e rocha de proporções quase inconcebíveis. Duas tentativas anteriores já haviam estudado a rota. Em 26 de junho, o Campo V estava instalado a aproximadamente 7.200 metros, e o ataque ao cume dependia de um sistema de foguetes coloridos disparados do acampamento-base.

Um foguete azul significaria bom tempo e trabalho em equipe para equipar o difícil Corredor Merkl. O vermelho, sinal de mau tempo, autorizaria Reinhold a tentar uma investida rápida e solitária antes da chegada da tempestade. Naquela noite, embora a previsão fosse favorável, um foguete vermelho cortou o céu. Às três da manhã de 27 de junho, Reinhold partiu sem corda, levando apenas duas mantas de emergência, roupas extras e um pouco de fruta seca.

Dois irmãos no cume

Günther deveria permanecer abaixo, ajudando a fixar cordas para o retorno. Mas abandonou a tarefa e subiu atrás do irmão. Alcançou Reinhold no alto do corredor, e os dois continuaram juntos pela longa travessia sob o ombro sul. Às cinco da tarde chegaram ao cume do Nanga Parbat, a 8.125 metros. Era a primeira ascensão da Face Rupal.

Não houve celebração. Günther estava exausto e se deteriorava rapidamente sob os efeitos da altitude. Os irmãos passaram a noite ao relento, por volta de 7.900 metros, protegidos apenas pelo que carregavam. Descer o Corredor Merkl sem corda, no estado em que se encontravam, parecia suicídio. Restava uma saída radical: atravessar a montanha e tentar a desconhecida Face Diamir, do outro lado.

A descida sem volta

O que começou como uma subida pela Rupal tornou-se uma travessia de sobrevivência. Sem comida suficiente, sem equipamento para aquela vertente e com os pés congelando, os irmãos desceram pela Costela Mummery. Reinhold avançava para procurar uma passagem e voltava para indicar o caminho. Segundo seu relato, já na parte baixa, ele se adiantou mais uma vez. Quando retornou, Günther havia desaparecido. Uma avalanche de gelo provavelmente o atingira.

Reinhold procurou durante horas, chamou pelo irmão e vasculhou o terreno até não ter mais forças. Depois seguiu cambaleando sobre os pés congelados. Três dias após a partida, encontrou um pastor que lhe deu comida. Incapaz de continuar sozinho, acabou carregado e retirado da região. Os ferimentos levariam à amputação de sete dedos dos pés e pareciam encerrar sua carreira nas grandes paredes de rocha.

Trinta e cinco anos de dúvida

A tragédia não terminou na montanha. A relação entre Messner, o líder e outros integrantes se rompeu em acusações públicas. Durante décadas, adversários contestaram a versão da travessia e chegaram a sugerir que Günther teria sido abandonado ainda na Face Rupal. Reinhold insistiu que o irmão morrera na descida pela Diamir.

Em 2005, restos humanos emergiram do glaciar na vertente Diamir. A identificação genética confirmou que pertenciam a Günther; a posição em que foram encontrados era compatível com a rota descrita por Reinhold. A descoberta não apagou o trauma nem respondeu a cada minuto daqueles dias, mas forneceu a evidência física que faltava.

Messner voltou ao Nanga Parbat em 1978 e o escalou sozinho. Ainda assim, nunca tratou a montanha apenas como uma vitória. A Rupal lhe deu uma das maiores primeiras ascensões do século e, no mesmo movimento, tirou seu irmão. Foi ali que sua ideia de aventura ganhou a dimensão que carregaria para sempre: liberdade absoluta significa também responsabilidade absoluta pelas consequências.

Fontes da apuração: American Alpine Journal, estudo forense sobre a identificação de Günther Messner e cronologia oficial de Reinhold Messner.

021978 · EverestEverest sem O2Messner e Peter Habeler enfrentaram a montanha mais alta da Terra e uma certeza médica: sem oxigênio engarrafado, o corpo não suportaria.

Antes de 8 de maio de 1978, chegar ao Everest sem oxigênio suplementar era visto menos como um desafio esportivo do que como uma impossibilidade fisiológica. Reinhold Messner e Peter Habeler decidiram descobrir a resposta com o próprio corpo.

Uma parceria feita para a velocidade

Messner e Habeler escalavam juntos desde 1974. Eram leves, rápidos e desconfiavam de tudo que separasse o alpinista da montanha. Bateram tempos nas faces do Matterhorn e do Eiger e, em 1975, fizeram no Gasherbrum I uma ascensão que se tornaria um manifesto do estilo alpino em grande altitude: sem oxigênio, sem uma cadeia de campos abastecidos e sem o aparato das grandes expedições.

O Everest era outra escala. Estudos realizados nas décadas anteriores indicavam que, no cume, a quantidade de oxigênio disponível seria suficiente apenas para manter um corpo em repouso. Médicos alertaram para colapso, danos cerebrais e perda irreversível de capacidade mental. Messner e Habeler foram chamados de irresponsáveis. Para eles, porém, o cume só tinha sentido se fosse alcançado sem transformar a montanha por meio de um recurso artificial.

A primeira tentativa

Os dois integravam a expedição austríaca de 1978 pela rota do Colo Sul, mas fariam sua investida de maneira independente. A primeira tentativa começou em 21 de abril. No Campo III, Habeler sofreu uma forte intoxicação alimentar. Messner prosseguiu com dois sherpas até o Colo Sul, onde uma tempestade os prendeu por dois dias, com frio próximo de −40 °C e ventos violentos. A barraca rasgou, a comida acabou e o projeto pareceu, por um momento, absurdo.

De volta ao campo-base, Habeler reconsiderou o uso de oxigênio. Messner foi inflexível: preferia subir até onde o corpo permitisse a alcançar o cume respirando de uma garrafa. Sem outro parceiro, Habeler retomou o plano. Eles concordaram em levar cilindros apenas até o Campo IV para uma emergência e estabeleceram uma regra: se um deles perdesse a coordenação ou a fala, ambos voltariam.

8 de maio de 1978

Na segunda tentativa, alcançaram o Colo Sul, a 7.986 metros, em apenas três horas e meia. Habeler chegou com dor de cabeça e visão dupla. Durante o descanso, os dois despertavam repetidamente ofegantes e se obrigavam a beber chá para combater a desidratação.

Às três da manhã de 8 de maio começaram a se preparar. Vestir a roupa levou duas horas. Falar custava energia demais; passaram a se comunicar por gestos. A neve profunda tornava cada passada exaustiva, por isso buscaram trechos rochosos, tecnicamente mais difíceis, mas menos afundáveis. Precisaram de quatro horas para chegar ao antigo Campo V, a cerca de 8.500 metros.

Acima dali, a subida se desfez em ciclos mínimos: alguns passos, o corpo dobrado sobre o piolet, uma longa tentativa de recuperar o ar. Em certos trechos caíam de joelhos ou se deitavam na neve. Passaram pelo Cume Sul, venceram o Hillary Step e alternaram a liderança. Perto de 8.800 metros, avançavam poucos metros antes de desabar novamente.

Entre uma e duas da tarde, depois de oito horas de esforço desde o Colo Sul, Messner e Habeler chegaram ao ponto mais alto do planeta sem terem respirado oxigênio engarrafado. Não foi uma conquista veloz nem triunfal. Foi uma redução do ser humano ao ato mais básico: inspirar, mover-se, sobreviver.

O impossível muda de lugar

A descida mostrou o contraste brutal. Habeler levou cerca de uma hora para retornar ao Colo Sul; Messner, uma hora e quarenta e cinco. Dois dias depois estavam no campo-base. O êxito obrigou pesquisadores a rever os limites aceitos da fisiologia de altitude e abriu uma nova fronteira ética no Himalaia.

O feito não provou que o oxigênio suplementar fosse desnecessário ou que a tentativa fosse segura. Provou algo mais específico e revolucionário: um organismo excepcional, bem aclimatado e conduzido no ritmo certo podia alcançar 8.848 metros por seus próprios meios. Dois anos depois, Messner voltaria ao Everest para ampliar ainda mais essa fronteira — sozinho, novamente sem oxigênio.

Fontes da apuração: NOVA/PBS — First Without Oxygen, Guinness World Records e Journal of Applied Physiology.

031989–1990 · Antártica2.800 quilômetros de silêncioDepois dos 14 oitomil, Messner trocou a vertical pela distância e atravessou um continente com Arved Fuchs, esquis e trenós.

Ao completar os 14 oitomil, Messner não tinha mais uma montanha mais alta para perseguir. Sua resposta foi mudar a direção da aventura: em vez de subir, seguir em frente — por 92 dias sobre o continente mais frio e isolado da Terra.

O menor grupo possível

O parceiro seria Arved Fuchs, explorador polar alemão e navegador experiente. Em abril de 1989, Fuchs já havia alcançado o Polo Norte a pé; se a travessia antártica fosse concluída, se tornaria a primeira pessoa a chegar aos dois polos caminhando no mesmo ano. Messner trazia a resistência da alta altitude, mas precisava se adaptar a uma paisagem sem as referências verticais que haviam orientado sua vida.

Os dois partiram da plataforma de gelo Ronne, na borda do mar de Weddell, em 13 de novembro de 1989. Seguiam sobre esquis e puxavam trenós com cargas que variavam de cerca de 120 quilos no início a 50 quilos perto do final. Não usaram veículos nem cães e fizeram todo o deslocamento com a própria força. A logística, porém, previa dois depósitos de suprimentos — um nas montanhas Thiel e outro no Polo Sul. Era uma travessia humana e minimalista, mas não uma expedição sem reabastecimento.

Uma rotina reduzida ao essencial

Em dupla, não havia espaço para funções vagas. Fuchs navegava; Messner seguia à frente, orientado pelas direções da bússola. Cada um mantinha o próprio ritmo e puxava o próprio trenó. A pequena barraca definia as regras de convivência: cozinhar, derreter neve, reparar equipamentos, dormir e recomeçar.

Depois de 23 dias chegaram ao primeiro depósito, nas montanhas Thiel. O relevo interrompia a monotonia, mas acrescentava risco. Mais adiante viriam aproximadamente mil quilômetros de sastrugi — cristas de neve endurecida pelo vento que prendem os esquis, inclinam os trenós e transformam o terreno plano num campo interminável de obstáculos.

Em 31 de dezembro, último dia de 1989, alcançaram a base Amundsen–Scott, no Polo Sul. Não era o fim, apenas o ponto de mudança da travessia. Em 3 de janeiro deixaram a estação carregando 45 dias de comida nos trenós e apontaram para o estreito de McMurdo, do outro lado do continente.

O gelo que não parece plano

A imagem de uma Antártica lisa e uniforme desapareceu no caminho. Para sair do platô, Messner e Fuchs desceram pelo glaciar Mills e enfrentaram duas cascatas de gelo difíceis na junção com o glaciar Beardmore. Ao todo, cerca de 200 quilômetros da rota atravessaram glaciares muito fraturados e zonas de seracs e fendas. Era um terreno capaz de rivalizar, em complexidade, com as formações que Messner conhecia do Himalaia.

A distância em linha aérea entre a margem do mar de Weddell e a base Scott era de aproximadamente 2.580 quilômetros. Os desvios impostos pelos campos de sastrugi, glaciares e cascatas de gelo elevaram o percurso real para cerca de 2.800 quilômetros. Durante boa parte da jornada, os únicos sons eram os esquis, os trenós, a respiração e o pulso. O silêncio, primeiro opressivo para Messner, acabou se tornando uma forma de paz.

Noventa e dois dias

Em 12 de fevereiro de 1990, após 92 dias, os dois chegaram à base Scott, perto de McMurdo. Não havia cume, fotografia no ponto mais alto ou descida rápida para encerrar o esforço. O feito existia na continuidade: levantar todos os dias, orientar-se num horizonte quase vazio e avançar até que um continente inteiro ficasse para trás.

A travessia consolidou a segunda vida de Messner como explorador. Ele continuaria buscando grandes desertos de gelo, areia e altitude, mas a Antártica foi a passagem decisiva. Depois de revolucionar o modo de subir montanhas, mostrou que sua verdadeira especialidade não era o vertical. Era suportar, com poucos meios, a vastidão entre a partida e o retorno.

Fontes da apuração: relato da travessia no American Alpine Journal e cronologia oficial de Reinhold Messner.

A conversa continua

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