O Atlântico a remo
Em 1984, atravessou sozinho 3.700 milhas do Atlântico Sul no I.A.T., movido apenas pelos remos, pelas correntes e por cem dias de persistência.

Biografias Extremos · 002
O brasileiro que transformou o oceano em território de exploração. Navegador, escritor e construtor de barcos, fez da autonomia e do planejamento uma forma de chegar onde poucos chegaram.
O explorador dos oceanos
Para Amyr Klink, aventura nunca significou simplesmente enfrentar o desconhecido. Significou preparar-se para ele.
Poucos brasileiros construíram uma trajetória de exploração tão singular. Em Amyr, a viagem começa muito antes da partida: no desenho do barco, no estudo das correntes e na previsão de tudo aquilo que pode dar errado.
Amyr Khan Klink nasceu em 25 de setembro de 1955, em São Paulo, filho de Jamil Klink, de origem libanesa, e Asa Frieberg Klink, sueca. Desde os dois anos frequentava Paraty com a família. Aos dez, comprou a canoa Max — o primeiro barco de uma coleção que ultrapassaria trinta embarcações.
Formado em Economia pela Universidade de São Paulo e pós-graduado em Administração, levou para o oceano uma disciplina incomum. Estudava ventos, correntes, alimentação, materiais e sistemas de navegação. Cada expedição podia consumir anos de projeto antes de produzir a primeira milha.
Em 1984, a travessia solitária do Atlântico Sul a remo o apresentou ao Brasil. Depois vieram a Antártica, um inverno deliberadamente preso no gelo, a viagem entre os dois polos e duas circunavegações austrais. Seus livros fizeram algo igualmente raro: permitiram que milhões de leitores embarcassem com ele.
A filosofia Klink
Os feitos impressionam pelas distâncias e pelo isolamento. O método explica como eles se tornaram possíveis.
Em 1984, atravessou sozinho 3.700 milhas do Atlântico Sul no I.A.T., movido apenas pelos remos, pelas correntes e por cem dias de persistência.
Levou deliberadamente o Paratii para congelar na Baía Dorian. O barco fora concebido para suportar sete meses e meio sob a pressão do inverno antártico.
Quando o gelo deteve o Paratii, avançou de bote até 80° Norte. Regressou a Paraty depois de 642 dias e 27 mil milhas navegadas.
Em 1998–99, completou sozinho 14 mil milhas ao redor da Antártica em 88 dias, navegando sem escalas pelos mares austrais.
Engenharia de autonomia
Na vida de Amyr, a embarcação nunca foi apenas transporte. Cada barco nasceu para responder a uma pergunta que ainda não tinha solução pronta.
011983 · Barco a remo oceânico
Pequeno o bastante para ser movido por um homem. Inteligente o bastante para sobreviver ao Atlântico.
Construído especificamente para a travessia de 1984, o I.A.T. tinha quase seis metros e incorporava tanques anticapotagem. Nos primeiros dias, diante da costa africana, virou três vezes — e voltou sozinho à posição correta, como Amyr e o engenheiro naval José Carlos Furia haviam planejado.
021989 · Veleiro polar
Um barco desenhado não para escapar do gelo, mas para permitir que o gelo chegasse.
Construído em alumínio depois da primeira viagem de Amyr à Antártica, o Paratii foi preparado para uma invernagem voluntária. Ficou sete meses e meio imobilizado na Baía Dorian e depois seguiu rumo ao Ártico. Anos mais tarde, daria a volta ao planeta pelo oceano Austral.
032001 · Plataforma de expedições
Décadas de experiência transformadas numa base autônoma para os mares mais remotos do planeta.
Foram sete anos entre o início do projeto e a conclusão do veleiro de alumínio. Maior e capaz de receber tripulação, o Paratii 2 marcou a passagem das jornadas estritamente individuais para expedições científicas, familiares e coletivas em altas latitudes.
Uma vida navegando
Acompanhe a rota: da primeira canoa em Paraty aos barcos que fizeram do planeta um campo brasileiro de exploração. As idades indicam quantos anos Amyr tinha — ou completou — em cada etapa.
Amyr Khan Klink nasce em 25 de setembro. Ainda pequeno começa a frequentar Paraty com a família.
Compra em Paraty a canoa Max. É o começo de uma relação com embarcações que ultrapassaria três dezenas de barcos.
A origemForma-se em Economia pela USP e realiza sua primeira viagem internacional: segue de motocicleta até o Chile.
Conclui o barco a remo oceânico desenvolvido para autonomia, estabilidade e sobrevivência em mar aberto.
Parte de Lüderitz, na Namíbia, e chega à Bahia em 18 de setembro, após 100 dias e 3.700 milhas remando sozinho pelo Atlântico Sul.
Primeira travessia solitária a remo do Atlântico SulPublica Cem Dias entre Céu e Mar, que se tornaria um clássico brasileiro da literatura de viagem.
Faz a primeira de suas 15 viagens ao continente e, ao regressar, começa a construir o veleiro polar Paratii.
Em 31 de dezembro, inicia sozinho a expedição que o levaria da Antártica ao Ártico durante 642 dias.
O barco como projetoO Paratii permanece sete meses e meio imobilizado na Baía Dorian. Amyr vive sozinho a noite polar dentro do barco concebido para aquela pressão.
Com o Paratii bloqueado pelo gelo ártico, avança de bote até 80° Norte. Retorna a Paraty em 4 de outubro: 642 dias e 27 mil milhas.
Entre dois polosPublica o relato da longa expedição. O livro permaneceria por mais de 50 semanas entre os dez títulos de não ficção mais vendidos no país.
Lança As Janelas do Paratii, vencedor do Jabuti de Produção Editorial em 1994, e torna-se sócio-fundador do Museu Nacional do Mar.
Inicia um projeto de sete anos para construir uma plataforma de expedições autônoma, preparada para longas temporadas polares.
Casa-se com a velejadora Marina Bandeira. Nascem as gêmeas Tamara e Laura, em 1997, e Marina Helena, em 2000.
Completa sozinho a circunavegação polar pelo oceano Austral: 88 dias sem escalas e aproximadamente 14 mil milhas.
Volta ao mundo pelo extremo sulPublica o relato da circunavegação austral, um dos livros mais conhecidos de sua carreira.
Depois de sete anos de desenvolvimento, conclui o veleiro de alumínio que transforma experiência acumulada em infraestrutura para novas expedições.
O Paratii 2 faz sua primeira grande viagem, passando pelas Baleares, Ushuaia, Península Antártica e Geórgia do Sul.
Com cinco tripulantes, repete a circunavegação polar: 13.300 milhas em 76 dias sem escalas.
O projeto vira equipePublica um livro sobre os bastidores: estaleiros, construtores e o trabalho necessário para transformar ideias em embarcações.
Mais de quatro décadas depois, a travessia do Atlântico Sul ganha as telas. Dirigido por Carlos Saldanha e protagonizado por Filipe Bragança, o filme recria os perigos do oceano e revela também a infância e a juventude que formaram Amyr.
Conheça os bastidores do filme
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