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Caminho ao Paso Siula 4.800m.
Foto: André Dib |
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Foto 1 - Descida do Paso Tapush, vista da montanha Diablo Mudo.
Foto 2 - Descanso na Laguna Jahuacocha.
Foto 3 - Vista de Siula Grande e Quebrada Callinca local de acampamento de Joe Simpson.
Foto 4 - Dia de escalada do Diablo Mudo
Fotos: André Dib |
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Paso Yanayana.
Foto: André Dib |
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Foto 1 - Chegada ao Paso Cacananpunta
Foto 2 - Descida ao Rio Amazonas.
Foto 3 - Caminho para Laguna Viconga.
Foto 4 - Laguna Viconga.
Fotos: André Dib |
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Escalada ao Cerro Diablo Mudo 5.400m.
Foto: André Dib |
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Foto 1 - Rumo a Paso Siula.
Foto 2 - Acampamento em Matacancha.
Foto 3 - Neve e tranquilidade na descida do Diablo Mudo.
Foto 4 - Caminho a Laguna Churup.
Fotos: André Dib |
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Mapa da trilha
Arte: Divulgação |
A fina camada de gelo na lona interna da barraca anunciava, seria uma trilha sem meio termo. Andar por 10 dias 210Km em torno de Huayhuash, uma impressionante cadeia de montanhas situada no centro oeste do Peru, não seria tarefa fácil, e logo na primeira noite mostrou-se hostil, com a temperatura caindo para 15 graus negativos.
A história começou meses antes quando me juntei a dois companheiros, Luiz Guimarães e Ricardo Dantas, planejando uma subida ao Huayna Potosí, na Bolívia. Depois de todos os contatos feitos e as malas, digo mochilas, arrumadas eis que surge o inesperado: Guerra Civil, aeroportos fechados e estrangeiros sitiados em terra boliviana. Com a mudança repentina de planos decidimos rapidamente por Huayhuash, onde anos antes já tínhamos vislumbrado a distância no caminho para Cordilheira Blanca.
Pegamos o vôo para Lima e seguimos no mesmo dia de ônibus à Huaraz, pequena cidade a 350Km de Lima no estado de Ancash. No dia seguinte nos juntamos ao Sheler, dono da agência e ao guia Roman, com quem dias antes já havia combinado por e-mail os detalhes da expedição. Pegamos outro ônibus a Chiquián e deixamos qualquer resquício de civilização pra trás e em seguida outro para Llamac, povoado fantasma ornamentado pelas luzes de candeeiros que brilhavam palidamente pelas janelas das casas de adobe na mais absoluta escuridão. Armamos as barracas em um campo de futebol e dormimos ansiosos a espera da grande trilha.
Ao amanhecer partimos em direção a Matacancha, passamos pelo “Pueblo de Pocpa” em uma pernada de 6 horas sob o implacável sol andino. Levantamos acampamento e logo a temperatura despencou, condensando a parte interna da barraca. Nos olhamos e silenciosamente assombrados, compreendemos o que estava por vir.
Antes do sol nascer, fomos surpreendidos por um café da manhã reforçado que nos encheu de ânimo para encarar o primeiro “Paso”(passagem entre duas montanhas) Cascananpunta a 4750m de altitude, depois da impetuosa subida descemos a 4100m em menos de uma hora chegando a um vale onde escorria um pequeno córrego e que em alguns quilômetros depois, se tornaria o Rio Amazonas e começamos novamente a subida da próxima passagem.
Yanayana a 4650m nos lembrou da altitude e das dores de cabeça que, a partir de então, seria freqüente.
Após 8 horas de trilha e a travessia de dois “Pasos”, a paisagem nos recompensou com a Laguna Carhuacocha, base de nosso acampamento, o lago variava em cores que nos fazia duvidar da sua real existência, coroados pelas montanhas, Jirishanca, Siulá Grande, e Yerupajá, a segunda maior montanha do Peru, conhecida como devoradora de homens, por ser uma das escaladas mais difíceis do mundo.
Acordamos para mais um lindo e cansativo dia, e constatamos que o café da manhã reforçado seria sinônimo de “pedreira”. Contornamos o lago e, escutando um estrondo de uma avalanche que deslizava a alguns quilômetros dali, começamos a subir o “Paso Siula” com seus 4800m, um dos mais difíceis da viagem. No trajeto avistamos 3 lagoas, alimentadas pelo degelo de glaciares, com colorações que variavam do verde esmeralda a um turquesa irresistível.
Já no alto e fascinados por tamanha beleza fomos surpreendidos por um homem com um rifle em punho, ficamos estáticos lembrando da história de 2 israelenses que foram, dois anos antes, assassinados no mesmo local. Tratava-se de José, morador local que fazia a segurança do povoado de Huayhuash, habitada por meia dúzia de famílias. Descemos até um riacho, tomamos um “banho” de gato no riacho frio e nos arrumamos para o sono congelante na nossa barraca “freezer”.
Levantamos no quarto dia sob um tempo cinzento e chuvoso e seguimos para a Laguna Viconga, lugar onde prometia, enfim, um bom banho, já que nas imediações da lagoa tinha um poço aquecido por água vulcânica. Transpomos o “Paso Portachuelo” com 4700m e o tempo se abriu, descemos ansiosos para o prometido banho de águas termais. Subimos acampamento rapidamente e rumamos em direção a sonhada banheira quente, propagado pelos locais.
Nos olhamos decepcionados, após o rápido contato com a água, e o que seria um banho quente e relaxante, era água quase em ponto de ebulição, a uns 80 graus de temperatura o que tornara o banho impossível, sem graves danos na pele.
Voltamos para a barraca conformados com nosso estado de higiene e nos escondemos, ao anoitecer, do frio. Poucas horas depois surge outro fato inesperado, a tensão toma conta do nosso acampamento. Luzes de lanternas descem a trilha em nossa direção, nos lembrando o triste fim dos israelenses naquele deserto gelado. Tratava-se de um grupo de espanhóis carregando um integrante sobre uma maca improvisada, seu estado era preocupante. Dois dias antes o rapaz, assolado por um edema cerebral, foi socorrido por uma enfermeira alemã, que o medicou com Diamox. Por sorte o Luiz, nosso companheiro, que é médico diagnosticou o caso do espanhol que estava em estado de choque com um grave quadro de desidratação, potencializado pelo tratamento da enfermeira, entrara em estado de coma. Sem opção o Luiz aplicou duas doses de corticóide intra muscular, e começou um processo de hidratação lenta com uma gaze umidificada, pois estava desacordado e não tinha forças para reagir. Horas depois seu quadro melhorou e no dia seguinte foi removido a cavalo da trilha.
Começamos a subida do Paso Cuyac, o mais alto e cansativo da trilha, atormentados por uma dor de cabeça incessante. Quase chegando ao topo do “paso” encontramos algumas pessoas tentando erguer um burrinho assolado pelo mal de altitude, que transportava mantimentos de um grupo belga,. Minutos depois um grande Condor espreitava seu banquete e esperava pacientemente o burrinho que já agonizava sua morte. Chegamos ao Paso Cuyac pasmos com os acontecimentos constantes que nos assombrava, quase que diariamente, com maus presságios. Descemos ao acampamento Las Rocas e enfim uma boa notícia, através do radinho de pilhas do guia Román, que sintonizado na freqüência da rádio “Altura Digital”, anunciava que um espanhol fora salvo por um médico brasileiro e já se recuperava em Cajatambo a um dia de cavalo do local.
Pela noite assistimos as intempéries do clima de Huayhuash, e jantamos sob uma seqüência de chuva forte, granizo e em poucas horas uma tempestade de neve que durou toda a noite, deixando uma camada branca pelo chão. Iniciamos o sexto dia desviando do caminho principal rumo ao Paso San Antonio, por onde avistaríamos o Siulá Grande pela face que o lendário escritor e alpinista Joe Simpson, esteve em 1985 e depois de uma das maiores histórias de sobrevivência do montanhismo, escreveu o livro “Tocando o Vazio”. Foi um dos visuais mais impressionantes de toda a jornada ao sentirmos o cenário daquela passagem trágica em uma das escaladas mais difíceis e ousadas da história.
Começamos a descida por um lugar pouco habitual e a medida que avançávamos a trilha ficava mais escorregadia, já que o caminho estava coberto por lama e gelo, depois de muita tensão na descida nos deparamos com uma encruzilhada, quando o guia Román parou e não sabia por onde ir. Nos ancoramos diante um penhasco escorregadio e ali ficamos esperando Román, que foi atrás de uma saída, depois de meia hora começamos a imaginar a possível morte do guia. O sol e o vento nos castiga silenciosamente e meia hora depois surge o guia assustado, a situação da decida se complica e começamos a nos arrastar pelos abismos de pedra e lama, por várias vezes quase despencamos pelos enormes penhascos em meio a ossada de animais que por ali despencaram tempos atrás, encontramos um caminho até a “Quebrada Callinca” por onde Joe Simpson se arrastou em 1985 e após 9:00h de pernada chegamos a pequena Huayllapa, única cidade do trajeto, sem luz elétrica e nenhum vestígio de automóveis pelos arredores, incrustada nos Andes só se chega a pé ou a cavalo. Nos juntamos a Sheller que havia percorrido em poucas horas a trilha principal e já nos esperava com uma revigorante comida quente, após as 11horas ininterruptas de caminhada.
No sétimo dia saímos da cidade de Huayllapa cedo rumo ao Paso Tapush e o que seria uma caminhada tranqüila se minou nossa energia, lembrando-nos que em Huayhuash não existe esse termo e após quatro horas de subida infinda chegamos ao “paso” a 4900m e avistamos o nevado “Diablo Mudo” que iríamos subir na madrugada próxima.
Começamos a descida para Jashapampa e acampamos a 4400m onde checamos todo o equipamento de escalada: cordas, crampons e piquetas. No oitavo dia acordamos por volta das 3 da manhã e iniciamos o trekking de aproximação ao nevado sob um céu salpicado de estrelas. Ao amanhecer, por volta das 6:30h, estávamos a 5000m e chegamos ao esperado terreno de gelo do nevado, colocamos os equipamentos de neve e começamos a difícil subida em paredes escorregadias e abismos escondidos no gelo, avistamos de outro ângulo a cadeia montanhosa de Huayhuash e mais adiante a Cordilheira Blanca.
Chegamos ao cume com seus 5400m as 11:00h da manhã e apressamos a descida para fugir de uma tempestade que se aproximou repentinamente, saímos do campo de gelo e nos penhascos de pedra improvisamos o primeiro rapel de 50m, e o que seria uma descida calma se agrava, a tempestade de neve nos atingiu em cheio e no trabalho de cordas para o segundo rapel nos deparamos com um grupo de 8 italianos indecisos congestionando a saída, ficamos dependurados em um lugar estreito e expostos a tempestade congelante até a descida a um lugar seguro totalizando 13 horas de empreitado, o dia mais longo da viagem.
Chegamos até a Laguna Jahuacocha, um lugar lindo onde descansamos um dia todo envoltos em um clima de despedida, sabíamos que dali pra frente seria um curto e fácil trecho de volta, vislumbrávamos a outra face da cordilheira que havíamos contornado e após 9 dias de trilha tínhamos a sensação de missão cumprida, contornamos toda a Cordilheira vivenciando o contraste da beleza a hostilidade daquele lugar de extremos. Habitado por pessoas cujo o senso de civilização está bem longe do nosso.
Finalizamos o último trecho em 4 horas de caminhada e chegamos a pequena Llamac, que a dias atrás foi nosso ponto de partida e após oito horas de solavanco dentro de um precário ônibus, chegamos a “civilização” onde pudemos dar notícia de vida aos familiares e tomar um bom banho quente. |