AMAN MORBECK
Um dos medos que impede as pessoas de colocarem os pés na estrada para experimentar o novo
é o de que se algo lhes acontecer, estarão sozinhas e abandonadas, mas não é bem assim
 
 
Publicado em 14/04/2008 - 12h03 - Aman Morbeck
 
 
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Solidariedade longe de casa.
Foto: Divulgação
   
 
 
Solidariedade longe de casa.
Foto: Divulgação
   

 

Quando comecei a viajar sozinha, primeiro pelo Brasil e depois por países estrangeiros, um dos comentários que mais ouvi foi: "Você é louca! Vai que alguma coisa acontece, você se machuca, adoece e aí? Não tem ninguém conhecido por perto e você vai se danar". Ainda bem que nunca acreditei nisso e pude comprovar na pele e ouvindo outras histórias, que, felizmente, a solidariedade no mundo é muito maior do que os noticiários querem nos fazer acreditar. Se isso passa pela sua cabeça e é o que lhe impede de se aventurar por aí, leia algumas das histórias que gostaria de compartilhar.

Em 1998 eu estava na Tailândia e resolvi participar de um retiro de meditação budista por 30 dias em uma selva ao norte do país. Não entrarei em detalhes sobre o processo em si, mas na metade do retiro comecei a sofrer de arritmia (batida descompassada do coração). Minha primeira reação foi pegar a mochila e voltar correndo para Chiang Mai, onde estabeleci meu QG nos seis meses que fiquei por lá, mas não o fiz. Fui até o fim daquela experiência, ora sentindo mais, ora menos, mas mesmo de volta à cidade eu não melhorava. Um dos meus colegas nesse retiro era um inglês chamado Michael, que foi comigo para a mesma pousada onde eu ficava, a Supreme Guest House. Comecei a ficar assustada porque meu coração continuava batendo sem ritmo e comentei com Michael que eu ia a um acupunturista ver o que estava acontecendo. Ele disse que iria comigo e assim fizemos. Recebi as agulhadas, voltei para a pousada com umas bolinhas que eu deveria tomar, mas pelos dois dias seguintes fiquei de cama porque não melhorava e estava assustada. E lá estava Michael, sentado em uma cadeira ao lado da cama, lendo ou conversando comigo. Ele me trazia água e comida e no terceiro dia, foi comigo até o hospital para que eu consultasse um cardiologista. Dois dias depois disso, deixei a Tailândia com o coração ainda descompassado, mas eternamente grato àquele desconhecido que cuidou tão bem de mim. (Detalhe interessante: apresentei ao Michael uma garota de Israel que eu havia conhecido na pousada, antes de começar o retiro, e disse a ele que eu achava que os dois se dariam bem. Poucos meses depois de termos nos despedido, recebi um e-mail dele me contando que eles estavam de casamento marcado, o que realmente aconteceu na ilha de Chipre.)

Esse mesmo Michael me contou que na Mauritânia, ele resolveu fazer uma viagem de duas semanas de camelo pelo deserto. Só que pouco antes do final, ele começou a se sentir mal e, de volta à cidade (não me lembro qual), ele foi para uma pousada, onde foi colocado no quarto com uma garota. Com febre alta, delirando e vomitando muito, essa desconhecida tomou conta dele até que ele se recuperasse e depois se despediu, seguindo seu caminho.

Em Koh Chang, ilha no leste da Tailândia, conheci um israelense e cada um alugou uma moto para fazermos um passeio mais distante. Ao fazer uma curva poucos minutos depois de termos deixado a loja, ele derrapou e se estatelou no chão, machucando bastante a perna e os dedos dos pés. Interrompemos o passeio e eu fui cuidar dele. Como não havia farmácia no lugar, peguei minha caixinha de primeiros socorros e lhe fiz os curativos necessários, passando com ele o resto do dia porque ele havia ficado bastante assustado.

No Laos, viajei com uma garota francesa, Marie, que ficou doente em Luang Prabang. Havíamos combinado de partir naquela manhã para Van Vieng, mas ela amanheceu com febre. Eu quis ficar com ela, mas ela não aceitou de jeito nenhum, dizendo que eu deveria seguir com o que havia planejado e se desse ela me encontraria no caminho, já que eu ficaria alguns dias nessa outra cidade. Sem conseguir demovê-la, fiz como ela queria. Dois dias depois nos reencontramos e ela me contou que a proprietária da pousada, uma senhora muito especial que não se comunicava conosco por palavras, pois não falava nem inglês nem francês e nós não falávamos laociano, tomou conta dela, comprou-lhe remédios, levou-lhe comida na cama, checava como ela estava de hora em hora, sem lhe cobrar um centavo a mais por isso.

Há outras histórias, como a de um brasileiro que foi espancado por "skin heads" em um trem na Alemanha ou a do meu finado professor de meditação, alemão, que sofria de hepatite na Índia e foi ajudado por duas pessoas, sendo um brasileiro. Não tenho intenção neste artigo de fazer conjecturas sobre o que leva as pessoas a agirem dessa forma, pois pode ser por tanta coisa. O recado que quero deixar é: se esse é o motivo que lhe impede de abrir suas asas para voar para mais longe, não há por que fazer isso. Primeiro, ao mesmo tempo que é bom se prevenir, não fixe seu pensamento no que de negativo pode acontecer; segundo, confie. Pessoas boas e solidárias estão espalhadas por todos os lugares. Desejo que uma delas seja você.